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sábado, 10 de julho de 2010

14.2 - ALÉM DO COGITO TRÊS: SOBRE O CONTROVERTIDO ASSUNTO “SOLIDÃO”


14.2 - ALÉM DO COGITO TRÊS: SOBRE O CONTROVERTIDO ASSUNTO “SOLIDÃO”

NEUZA MACHADO


O escritor Guimarães Rosa dialetizou por vários ângulos a sua criação ficcional, ao longo de suas fases criativas, transmutando-se e transmutando o seu próprio fazer literário. As descontinuidades de seu psiquismo, ou seja, as descontinuidades psíquicas de um eu inserido num caótico mundo de pós-guerra geraram as descontinuidades de sua obra. As narrativas da última fase não lembram mais a fase do Artista extasiado diante da beleza e colorido do Sertão das Gerais, recuperados nas narrativas de Sagarana, como não lembram também a fase do Artista maravilhado diante da descoberta de um sertão particular, um diferente sertão repleto de matéria mítica e de sertanejos sensíveis e ao mesmo tempo ferozes. No encadeamento do psiquismo humano há lacunas, há descontinuidades, e é lícito avaliá-las no plano da criação literária.

Para Bachelard,

“(...) se há continuidade, ela não existe nunca no plano em que um exame particular incide. Por exemplo, a "continuidade" na eficácia das motivações intelectuais não reside no plano intelectual; nós a supomos no plano das paixões, no plano dos instintos, no plano dos interesses. As concatenações psíquicas são muitas vezes hipóteses” (Gaston Bachelard).

A continuidade psíquica nesse caso não é algo simplesmente concedido ao ser; é muito mais uma obra construída ritmicamente pelo próprio ser ao longo do tempo.

“Não seremos seres fortemente constituídos, vivendo num repouso bem assegurado, se não soubermos viver em nosso próprio ritmo, reencontrando, a nosso modo, o impulso de nossas origens à menor fadiga, ao menor desespero. É o que ilustra o belo mito de Siloé, que nos ensina a restituição corajosa, voluntária, pensada, de nossa alma de outrora” (Gaston Bachelard).

Em meio à vida desritmada das grandes cidades e do pós-guerra, o cidadão do mundo Guimarães Rosa, originário do sertão mineiro, reencontrou na criação literária o impulso que o fez retornar e retomar as suas origens. O Mito de Siloé simboliza o desejo humano de retornar a suas fontes primordiais. Em Isaías (Is 8, 5-6) e João (Jo 9, 1-41), há referências a este mito religioso, mito este que foi tão bem lembrado por Bachelard em seu ensaio "L'intuition de l'instant" em Étude sur la Siloë de Gaston Roupnel.

No ensaio "L'intuition de l'instant", Bachelard renova as idéias de Gaston Roupnel, aceitando-as e confrontando-as com as idéias de Henri Bergson sobre o mesmo tema: a questão da duração (do tempo), questão esta sempre reativada desde que o Homem percebeu a sua capacidade de pensar.

Com base na afirmação de Roupnel de que não é o tempo que é uma realidade, é o instante, reexamina metafisicamente e dialeticamente as várias dimensões da duração, repensando cada estágio e determinando-lhe o seu devido valor.

O tempo seria então, ao contrário das várias postulações conhecidas sobre ele, uma realidade o mais restringida possível, acima do instante e entre dois vazios. O tempo, pelo ponto de vista de Bachelard, reelaborado a partir das idéias de Einstein e Roupnel, desfaz-se e renasce intermitentemente, já que é conduzido de um instante a outro, em processo ascensional, engendrando sempre novas e diferentes durações. Por esta razão, Bachelard afirma que o instante gera a solidão, porque, dentro de sua importância metafísica, torna-se algo completamente despojado. Por esta razão, a força que determina a violência criadora do instante isola o indivíduo consciente do mundo social e de si mesmo, enquanto eu social, fazendo-o romper com o passado e impulsionando-o sempre para novas formas de vida.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

sexta-feira, 9 de julho de 2010

14.1 – GUIMARÃES ROSA: ALÉM DO COGITO TRÊS


14.1 – GUIMARÃES ROSA: ALÉM DO COGITO TRÊS

NEUZA MACHADO


Retomando a questão dos tempos superpostos bachelardianos, e refletindo teoricamente sobre a terceira fase da obra ficcional de Guimarães Rosa, observa-se que a realidade temporal ali inserida é formada pelos instantes ativos do pensamento. Nesses instantes contínuos, o tempo é reduzido sob pressão. Esses breves momentos surgem logo depois do primeiro repouso dinamizado, suspensos entre dois vazios (néants) dinamizados, o que o precedeu e o posterior. O repouso em ebulição possibilita, observando essa redução do tempo sob pressão ou compressão, a confirmação da existência dessas lacunas dinamizadas.

O indivíduo, segundo Bachelard, consciente desses instantes ativos, tem pleno acesso ao seu imaculado mundo particular (cogito(3)). A consciência desses instantes intensos (solitários) e energizados isola-o completamente do convívio com os outros e, inclusive, isola-o de seu próprio eu social. A orientação de vida da realidade vital não condiz mais com o seu novo entendimento sobre a essência das coisas, dos homens e do tempo. Esse estado de inação impele-o a rejeitar as exigências externas e sociais, criando dentro de si uma nova forma de se expressar no mundo, já que terá de conviver obrigatoriamente com a realidade de todos os dias.

O indivíduo que alcançou tal estágio, mas que deseja uma convivência pacífica com a realidade vital, procura assim organizar esses momentos inativos, fervilhantes, planejando dar consistência real ao que foi intuído, após o esvaziamento do tempo vital. Nesse estágio intermediário entre o cogito(3), ligado à realidade vital (não confundir com tempo vital), e o cogito(4), ligado à realidade espiritual, intui o mundo amorfo da pura espiritualidade, o que em Ciência da Literatura denomina-se Mundo do Silêncio ou Mundo do Vazio Criador.

O plano intermediário entre o cogito(3) e o cogito(4) (Bachelard postula a idéia dos intervalos vazios: intervalo entre aparência e essência, entre causa e efeito, etc.) é o plano da autêntica solidão do Artista literário moderno (não confundir solidão criativa com solidão social), no momento da intuição de sua futura criação, favorecendo a elaboração de um discurso incompreensível, gerador de textos insólitos.

Penso na incursão de Guimarães Rosa nesse plano, quando procuro decifrar, por exemplo o discurso insólito do índio Iawaretê, personagem-narrador da narrativa "Meu tio, o Iawaretê" da coletânea Estas Estórias. Penso na incursão de Guimarães Rosa nesse plano intermediário, entre o tempo do pensamento e o tempo espiritual, observando as outras narrativas de Estas Estórias, como, por exemplo, as narrativas "A simples e exata estória do burrinho do Comandante", "Os chapéus transeuntes", "A estória do homem do pinguelo", "Páramo" e "Retábulo de São Nunca". Penso também na incursão de Guimarães Rosa nesse plano, observando as minúsculas narrativas de Ave, Palavra, que transmitem ao leitor a sua profunda sensibilidade em seus últimos anos de vida.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

quinta-feira, 8 de julho de 2010

13.6 - O ELEMENTO AR: A DIALÉTICA DA ALEGRIA E DA TRISTEZA


13.6 - O ELEMENTO AR: A DIALÉTICA DA ALEGRIA E DA TRISTEZA

NEUZA MACHADO


Em "As margens da alegria" (Guimarães Rosa), a simples morte do peru não desperta emoções profundas no âmago do leitor. O que emociona realmente é a dialética da alegria e da tristeza, enquanto narrativa criativamente elaborada sob a forma de ficção. Neste intervalo de sofrimento, as cores continuam fundamentais na obra roseana. O velame-branco, de pelúcia (um macio capim), transforma-se apenas numa planta desbotada, conotando os sentimentos negros do Menino; o buriti, à beira do corguinho, já não possui o encanto inicial, uma vez que a tristeza pela morte do peru o impele apenas a visualizar vagas árvores e um ribeirão de águas cinzentas.

Debaixo do peso dos negros pensamentos, o anterior encantamento da descoberta do desconhecido transforma-se num encantamento morto e sem pássaros. A real morte do peru não é o motivo central da tristeza do Menino, o que o entristece é o medo do mundo maquinal. O peru de terreiro sempre existiu e sempre foi sacrificado como alimento do homem nas diversas solenidades. Tanto isto é verdade, que o próprio personagem reflete, ao deparar-se com as penas do peru, no chão do terreirinho: "— Ué, se matou. Amanhã não é o dia-de-anos do doutor?". O que denota (ou conota?) imensa tristeza é a certeza de que as coisas do mundo são passageiras, que a própria vida é um rápido momento de passagem pela terra.

O peru e seu desaparecer no espaço, no grão nulo de um minuto, simboliza o medo do homem ante a certeza da morte. Do peru restaram as penas e a cabeça degolada, atiradas ao monturo, vítima das bicadas de outro peru. Do homem, depois de morto, restarão as cinzas misturadas à terra, e o esquecimento dos vivos.

Para o Artista moderno, nato do sertão, a visão da grande cidade é uma visão hostil. O Menino-personagem capta esta hostilidade, capta os sentimentos de quem quer contradizer as aparências, denunciar os males do progresso. O personagem faz essa denúncia, já que é ele, situado no espaço narrativo, que sente o medo secreto das descobertas de seu Criador.

“Sua fadiga, de impedida emoção, formava um medo secreto: descobria o possível de outras adversidades, no mundo maquinal, no hostil espaço; e que entre o contentamento e a desilusão, na balança infidelíssima, quase nada medeia. Abaixava a cabecinha” (Guimarães Rosa, “As margens da alegria”, Primeiras Estórias).

O que se destaca neste trecho é a oposição entre o mundo velho, com seus valores de uso (o mundo do sertão, das primeiras fases ficcionais de Guimarães Rosa), e o mundo moderno. O antigo menino do sertão abaixa a cabeça, impotente ante a destruição dos puros valores recebidos na infância. De ora em diante, as imagens da infância sofrerão a influência da luta entre o homem do sertão (ou o sertão?), vagando eternamente numa canoinha-de-nada (conf. "A Terceira Margem do Rio"), sustentado pela imaginação dinâmica e aérea, e o homem da cidade, com suas culpas e medos, imprensado num mundo sem perspectivas existenciais.

O ato criador continuará sua trajetória (sua interação ficcional com a realidade) submisso ao comando da perspectiva substancial infinita.

“De volta, não queria sair mais ao terreirinho, lá era uma saudade abandonada, um incerto remorso. Nem ele sabia bem. Seu pensamentozinho estava ainda na fase hieroglífica. Mas foi, depois do jantar. E — a nem espetaculosa surpresa — viu-o, suave inesperado: o peru, ali estava! Oh, não. Não era o mesmo. Menor, menos muito. Tinha o coral, a arrecauda, a escova, o grugrulhar grufo, mas faltava em sua penosa elegância o recacho, o englobo, a beleza esticada do primeiro. Sua chegada e presença, em todo o caso, um pouco consolavam.

Tudo se amaciava na tristeza. Até o dia; isto era: já o vir da noite. Porém, o subir da noitinha é sempre sofrido assim, em toda parte. O silêncio saía de seus guardados. O menino timorato aquietava-se com o próprio quebranto: alguma força, nele, trabalhava por arraigar raízes, aumentar-lhe alma” (Op. cit.).

O ato criador (ficcional) das substâncias dinamizadas continuará revelando as dialéticas do mundo: alegria e tristeza, amor e ódio, bem e mal; continuará revelando as substituições que consolam, e, sobretudo, continuará revelando o “silêncio saindo de seus guardados”, objetivando denunciar a proximidade do Caos. As matas serão destruídas em nome do progresso, os verdadeiros valores humanos também, mas o céu continuará estranhamente azul, os narradores continuarão a existir e pequenos “vagalumes” continuarão a voar na noite escura, vindos das raras matas, como se fossem minúsculos focos de esperança.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

quarta-feira, 7 de julho de 2010

13.5 - O ELEMENTO AR: INTERLÚDIO DE TRISTEZA


13.5 - O ELEMENTO AR: INTERLÚDIO DE TRISTEZA

NEUZA MACHADO


No entanto, continuando minhas induções analítico-interpretativas sobre a narrativa “As margens da alegria” (de Guimarães Rosa), as imposições do cotidiano, as reflexões criadoras do singularíssimo narrador roseano continuam submetidas ao dinamismo do elemento ar. O narrador dessa primeira e diferente estória volta à terra, assinala a desgraça do peru, para revigorar-se e espojar-se na terra-mãe e alçar-se aos ares novamente.

O interlúdio de tristeza dialetizará a sua nova e próxima ascensão. Enquanto isto, as imagens pesadas virão à tona, mostrando o contraponto que marcará a retomada da alegria e vice-versa, num processo intermitente de criação ficcional. A imaginação dinâmica (seja ela ligada à terra, à água, ao fogo, ao ar) permite ao Artista vivenciar todas as imagens do percurso que levam ao cogito(4), autêntico plano do fazer literário, chamado na filosofia bachelardiana de plano da espiritualidade.

O Criador ficcional, a partir do conto "As margens da alegria", faz ao leitor dois convites: convida-o, em primeiro lugar, a conviver com seus personagens até à ímpar dimensão de seus devaneios dinâmicos mais ousados, e, em segundo lugar, a acompanhar os movimentos de sua própria dinamogenia interior. Assim, dinamicamente, passa-se da alegria à tristeza, numa íntima ligação (um avatar) aos estados emocionais do Menino.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

terça-feira, 6 de julho de 2010

13.4 - O ELEMENTO AR: A UM PASSO DO INFINITO


13.4 - O ELEMENTO AR: A UM PASSO DO INFINITO

NEUZA MACHADO


Toda treva é material”, diz Bachelard: as sombras da infância (os medos da infância) materializam-se gradativamente em contraponto à alegria inicial da viagem narrativa (“As margens da alegria”, Primeiras Estórias). Paradoxalmente, é um peru, ligado à terra, que deflagra os circunlóquios ficcionais sobre o intenso sentimento de tristeza que se apodera do narrador. O peru é uma ave presa ao elemento terra, e isto prova que o atual sonhador do ar ainda não cortou relações com a sua matéria de origem, ou por outra, agora, permite-se observá-la do alto, do “páramo empírio” (conf. “Darandina”), duplicando-a criativamente, ao invés de reproduzi-la.

Os valores de “bem estar”, que marcaram as fases iniciais do escritor, valores ligados a terra, passam a sofrer uma reavaliação. O ato de pensar a morte do peru, mediante as sensações próprias da criança, confirma o conflito interior de quem faz um percurso de reconhecimento íntimo. Para que houvesse esse reconhecimento, foi necessária a ascensão do Artista ao elemento ar, assim como foi necessária também, em nível narrativo, a viagem de avião (da criança) até a cidade em construção.

A cidade em construção referencia uma nova fase de criação literária, ainda ligada às recordações da infância, permeadas pelas profundas reflexões do "solitário" indivíduo moderno. A cidade em construção ainda reflete o espaço sertanejo do passado (já que estava sendo construída num semi-ermo, no chapadão) mas, graças ao elemento ar, dinamizado, questionador, ela simboliza um espaço de interseção entre dois tempos que se opõem. O Artista de Primeiras Estórias, situado no final da década de 1950 (século XX), não pode desprender-se totalmente dos cogitos iniciais, formadores da insólita consciência do narrador que viria a seguir, uma vez que, histórica e esteticamente, os personagens ficcionais da época ainda não haviam assumido o plano do Vazio existencial. Tais personagens só iriam surgir no período da ditadura militar, por intermédio das "Absurdas" narrativas de Murilo Rubião, Roberto Drummond e outros, que marcaram aquele momento histórico-estético até 1984.

Assim, dentro do espaço narrativo de "As margens da alegria", a imagem do avião, como referencial de alegria, cede lugar à imagem do peru, como referencial de tristeza. O narrador do sertão, como já afirmei, historicamente e esteticamente ainda não estava livre das imposições do mundo vital. O avião não se perdeu no infinito, ao contrário, pousou no campo que ficava a curta distância da casa — "de madeira, sobre estacões, quase penetrando na mata"; o Menino não desembarcou em uma terra encantada, ao contrário, deparou-se com os aspectos negros da vida, simbolizados no destino de morte de um peru de quintal.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

segunda-feira, 5 de julho de 2010

13.3 - O ELEMENTO AR: A UM PASSO DO INFINITO


13.3 - O ELEMENTO AR: A UM PASSO DO INFINITO

NEUZA MACHADO


“O sonho de vôo está submetido à dialética da leveza e do peso. Só por esse fato, o sonho de vôo recebe duas espécies bastante diferentes: existem vôos leves e vôos pesados. Em torno desses dois caracteres se acumulam todas as dialéticas da alegria e da dor, da exaltação e da fadiga, da atividade e da passividade, da esperança e do desalento, do bem e do mal. Os mais variados incidentes que se produzem na viagem do vôo encontrarão num e noutro caso princípios de ligação. Quando se presta atenção à imaginação dinâmica, as leis da substância e do devir psíquicos revelam sua supremacia sobre as leis da forma: o psiquismo que se exalta e o psiquismo que se fatiga se diferenciam num sonho aparentemente tão monótono quanto o sonho de vôo” (Bachelard).

A narrativa "As margens da alegria" (Guimarães Rosa, Primeiras Estórias) está submetida à dialética da leveza e do peso: o vôo leve do Menino, à semelhança das estórias infantis, contrapõe-se ao vôo pesado do psiquismo moderno do Artista do sertão, espectador e participante de um mundo deteriorado. O vôo pesado reflete as pequenas desventuras do Menino na grande cidade, ao mesmo tempo que reflete as insatisfações do escritor ante a realidade moderna. A leveza inicial da viagem oferece margem para a descoberta de um lugar estranho e desconhecido, e o provocador desta descoberta é um incerto peru de terreiro, o qual mostrará ao Menino o seu desaparecer no espaço, no grão nulo de um minuto. Valorizando o tempo minimamente ou desvalorizando-o, o demiurgo impõe a sua criatura ficcional "um miligrama de morte”, dinamicamente impulsionado por suas evoluções mentais.

A simples vontade de voar é dialeticamente substituída pela enérgica vontade de denunciar os conflitos do homem moderno. Longe estão os devaneios solidamente ligados às experiências comunitárias do sertão. O poder de vôo direciona o olhar e a mão firme de quem cria, ressalta os estados emocionais do Menino, revela que outras e diferentes estórias virão à luz, sob futuros instantes de vislumbre do não-conhecido.

O avião, como referente indutor, propiciou a "viagem inventada no feliz", propiciou o vôo onírico do Artista em direção ao cogito(4). A alegria (leve e superficial), “as coisas que vinham docemente”, as atenções do Tio, inúmeros detalhes narrativos darão lugar obrigatoriamente ao peso das reflexões profundas: “as satisfações antes da consciência das necessidades”. Esta consciência das necessidades não lhe permite situar-se no âmbito das simples estórias infantis, indutoras de bom procedimento ou exemplo de vida. Esta consciência ímpar impõe imagens pesadas, imagens negras, imagens infelizes. O Menino vivencia uma fase de autêntico sofrimento, refletindo o estado de espírito do homem moderno.

Repensando este aspecto escuro, nesta fase criativa de Guimarães Rosa, acredita-se que a agitação interna do escritor não se conforma com a placidez de estorinhas triviais. Seu íntimo exige um alto grau de discórdia criativa, revelando seu dinamismo interior, seus questionamentos de vida. Ele quer contradizer as aparências que levam à felicidade, e sua criaturinha ficcional terá de conhecer também “um miligrama de morte”. Ele nega a felicidade total a seu pequeno personagem, obriga-o a perceber a luz negra que se evola dos sentimentos infelizes.

“O ser que segue sonhos, sobretudo o ser que comenta sonhos, não pode permanecer no contorno das formas. Ao menor apelo de intimidade, penetra na matéria de seu sonho, no elemento material de seus fantasmas. Lê, no borrão preto, a potência dos embriões ou a agitação desordenada das larvas. Toda treva é material. (...) E para um autêntico sonhador do interior das substâncias, um canto de sombra pode evocar todos os terrores da vasta noite” (Bachelard).

A intimidade do Artista está em conflito: narrar apenas as aventuras do Menino do interior na Grande Cidade em construção não o satisfaz. A viagem de seu personagem se transforma em uma incursão em seu próprio interior, e o seu interior não recolhe apenas os aspectos pitorescos da realidade.

Seus novos sonhos ficcionais estão próximos ao despertar, estão quase racionalizados, estão ao abrigo de novas e singulares imagens, propensas a serem deformadas pela imaginação aérea dinamizada. As mesmas formas dinâmicas que propiciaram alegria serão mostradas e avaliadas mediante o sentimento de tristeza do Menino. O elemento ar, em seu aspecto dinamizado, expõe os antigos medos do menino do interior, induzindo-o, agora, a refletir sobre o assunto.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

domingo, 4 de julho de 2010

13.2 - O ELEMENTO AR: A UM PASSO DO INFINITO


13.2 - O ELEMENTO AR: A UM PASSO DO INFINITO

NEUZA MACHADO


A narrativa “As margens da alegia” (e todas as narrativas seguintes de Guimarães Rosa) reflete o poder de transformação do criador-sonhador ficcional sertanejo. Seu sonho aéreo, em sua forma íntima e dinâmica, essencialmente vetorial, deforma as imagens exteriores da realidade telúrica, registrando o seu poder de colorir essa mesma realidade agora com cores imperecíveis. Assim, o chão, repartido de roças e campos, visto do alto, possui todas as cores fortes e permanentes; possui, portanto, o poder de se eternizar no âmbito da ficção. "As cores são ações da luz, ações e esforços. Como compreender essas cores sem participar de seu ato profundo?”, reavalia Bachelard esse questionamento de Schopenhauer. As cores desta fase denunciam que o Artista as visualiza sob a forma de luzes longínquas, acrisoladas em instantes que marcaram o seu passado, mas, também, propulsores de imagens absolutas.

“Com as nuvens a tarefa se torna a um tempo grandiosa e fácil. Nesse amontoado globuloso, tudo rola ao nosso gosto, montanhas deslizam, avalanches desmoronam e depois se acomodam, os monstros inflam e depois se devoram um ao outro, todo o universo se regula segundo a vontade e a imaginação do sonhador” (Bachelard).

O Artista do sertão, nesta fase, é um novo contador de estórias; não mais de estórias experientes, de coronéis, ou estórias-modelo, indutoras de atos heróicos, à moda antiga. Ele agora convida a observar seus esforços de racionalização da essência do não-dito (que plana no cogito(4)); convida a observar sua vontade de deformar (sic) seus fundamentais sonhos antigos.

Nesta narrativa, a primeira de uma série de outras narrativas semelhantes, quem se instala à janelinha do avião, para o móvel do mundo é o Criador ficcional, solidamente instalado no plano do cogito(3) e bem próximo do plano da espiritualidade. É ele quem observa as nuvens, o azul de só ar, os pontos em que ora e ora se estava, a claridade à larga, o chão plano em visão cartográfica, repartido de roças e campos. Em verdade, os movimentos do olhar do Menino-personagem seguem o dinamismo aéreo, íntimo e criador, das emoções mais sinceras do próprio Artista. Sua vontade e imaginação regulam esse novo universo, regulam essa nova e original forma de apreensão literária.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

sábado, 3 de julho de 2010

13.1 - O ELEMENTO AR: A UM PASSO DO INFINITO


13.1 - O ELEMENTO AR: A UM PASSO DO INFINITO

NEUZA MACHADO


“E as coisas vinham docemente de repente, seguindo harmonia prévia, benfazeja, em movimentos concordantes: as satisfações antes da consciência das necessidades. (...) Seu lugar era o da janelinha, para o móvel do mundo. Entregavam-lhe revistas, de folhear, quantas quisesse, até um mapa, nele mostravam os pontos em que ora e ora se estava, por cima de onde. O Menino deixava-as, fartamente, sobre os joelhos, e espiava: as nuvens de amontoada amabilidade, o azul de só ar, aquela claridade à larga, o chão plano em visão cartográfica, repartido de roças e campos, o verde que se ia a amarelos e vermelhos e a pardo e a verde; e, além, baixa, a montanha” (Guimarães Rosa. “As margens da alegria”, Primeiras Estórias).

O Menino de "As margens da alegria" espiava as nuvens graças ao devaneio ativo do Artista, graças a sua meditação filosófica, depois do repouso fervilhante; graças a sua "vontade de ver, superando a passividade da visão” (Bachelard). Segundo Bachelard, nesse estágio do pensamento, o sonhador é mestre e profeta do minuto, ou seja, apresenta o que se passa sob seus olhos.

As nuvens de amontoada amabilidade revelam seus pensamentos literários, esclarecem que, de ora em diante, o Artista do sertão passará a registrar criativamente seus instantes de pura intuição, seus instantes nas nuvens, sem compromisso com suas fases anteriores.

As imagens de nuvens pertencem aos sonhos infantis, e o Artista se apropria criativamente do devaneio simplificado, à moda infantil. E eis agora o Menino/Artista e sua vontade de ver, de espiar as "nuvens de amontoada amabilidade"; de "fugir para o espaço em branco" da pura intuição; de trasladar-se, literariamente, para "ao não-sabido, ao mais” (Op. cit.).

Em várias narrativas do corpus de Primeiras Estórias, o Artista ficcional abandona as antigas imagens do sertão, para revelar opacamente o mundo da transparência criativa (não confundir com transparência, enquanto reprodução da realidade), da vontade de lucidez, ou seja, procura revelar um mundo pouco observado pela massa não-pensante.

O céu azul de só ar e suas nuvens comandam a sua renovada lucidez, a sua vontade já livre das amarras conceituais. No céu azul e vazio, encontra o sonhador o esquema dos sentimentos azuis, da clareza intuitiva, da felicidade de ver claro em seus sentimentos, atos e pensamentos. O narciso aéreo mira-se no céu azul, imitando os sentimentos da criança, sob as ordens da perspectiva de intensidade substancial infinita, ligada aos devaneios dinâmicos do amanhecer, e, esses devaneios revelam os sonhos do menino sertanejo, aquele que posteriormente, já adulto, conheceu a Cidade.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

sexta-feira, 2 de julho de 2010

12.6 - UMA ÍNTIMA ESCALADA AOS COGITOS SUPERIORES: IAWARETÊ


12.6 - UMA ÍNTIMA ESCALADA AOS COGITOS SUPERIORES: IAWARETÊ

NEUZA MACHADO


Na narrativa ficcional “As margens da alegria” (Primeiras Estórias), Guimarães Rosa aperta o tecido (narrativo) até o último fio, buscando o fundo da matéria do sertão e o absoluto da sutileza das cores que a compõe. Graças a esta nova tintura, que fortalece suas íntimas convicções sobre aquilo que narra, chegará gradativamente aos limites do cogito(4) (frequentando-o esporadicamente), plano este de difícil ascensão, situado no tempo espiritual e fora dos limites vitais; plano da insolidez do discurso, do emaranhado discursivo, apreendido em várias narrativas de Primeiras Estórias, Estas Estórias, até o final. Assim, pela perspectiva de intensidade substancial infinita todas as imagens recebem uma coloração que as distingue, simbolizando os sentimentos dos personagens-narradores.

Percebe-se, nesta nova fase da criação literária, que, cada narrador roseano, distintamente e aos poucos, vai perdendo a vez para o próprio Artista, já que a vontade de quem os cria é mais forte que os dogmas ficcionais. Em seu plano solitário, o Artista Ficcional reconhece o seu perigoso poder, ou seja, o seu poder de vida e de morte contra o narrador. A narrativa "Meu tio, o Iawaretê", da coletânea Estas Estórias, reflete o clímax dessa fase de insolidez discursiva, em que o Criador literário, presente de maneira indireta na narrativa como um estranho, possui o poder de matar o personagem-narrador, e, mais assustador ainda, narrador em primeira pessoa. O estranho, que pernoita na cabana de Iawaretê (o narrador) e o mata no final, é simbolicamente o próprio Artista, definitivamente neo-moderno, que resolve, agora já distanciado dos valores primordiais, eliminar o narrador do sertão.

"A verdadeira viagem da imaginação é a viagem ao país do imaginário, no próprio domínio do imaginário” (Bachelard). A partir de Primeiras Estórias, o Artista brasileiro, um sertanejo por direito de nascimento, se ajusta ao mobilismo do ar, livre das descrições do real, na sua prodigiosa escalada ao infinito. "Meu tio, o Iawaretê" representa o ápice dessa escalada, a suprema transcendência e adesão aos valores da individualidade consciente.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

quinta-feira, 1 de julho de 2010

12.5 - UMA ÍNTIMA ESCALADA AOS COGITOS SUPERIORES: A DIALÉTICA DA ALEGRIA E DA TRISTEZA


12.5 - UMA ÍNTIMA ESCALADA AOS COGITOS SUPERIORES: A DIALÉTICA DA ALEGRIA E DA TRISTEZA

NEUZA MACHADO

“As cores são ações da luz, ações e esforços. Como compreender essas cores sem participar de seu ato profundo? (...) E qual é o ato da cor, senão tingir?

Esse ato de tingir considerado em toda a sua força primária, mostra-se de imediato como uma vontade da mão, de uma mão que aperta o tecido até o último fio. A mão do tintureiro é uma mão de amassador que quer atingir o fundo da matéria, o absoluto da sutileza. A tintura vai também ao centro da matéria” (Gaston Bachelard).


Em "As margens da alegria", as cores são ações da luz e estão dinamizadas pelo elemento ar; representam a dialética da alegria e tristeza, revelando ao Leitor os estados emocionais do Menino do interior ao viajar de avião. Este, graças a esta "viagem inventada no feliz", tinha tudo de uma vez, e nada, ante a mente. No decorrer da viagem aérea, ele tinha apenas a luz e a "longa-longa-longa nuvem". Esta viagem inventada saiu da vontade de criação ficcional do adulto, já citadino, e propiciou ao leitor participar também da aventura infantil.

As cores, nesta narrativa, foram criadas por intermédio das ações e esforços do Artista. Sua vontade de ultrapassar os antigos limites narrativos impulsionou sua mão, fazendo-o compreender o estado de espírito do Menino e participar ao mesmo tempo do ato profundo de reproduzi-lo. A natureza, apreendida pela sensibilidade criativa, mostra suas cores de acordo com os sentimentos do Menino, não do narrador. No âmbito do cogito(3), o escritor imita e duplica as emoções da antiga infância, até então adormecidas em sua consciência. O Menino é seu alter ego infantil; é o símbolo de uma infância bem administrada, vivida no reino das emoções maiores.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8.