O PODER DA PALAVRA INSULADA PARA GASTON BACHELARD - 2
NEUZA MACHADO
As narrativas lineares-prolixo-descritivas não me fascinam. Prefiro as narrativas complexas (mesmo que sejam longas). Prefiro concentrar-me no embate com as insólitas palavras insuladas que me obrigam a inúmeras retomadas reflexivo-dialéticas. Os conceitos filosóficos de Gaston Bachelard propiciaram-me o aprendizado translúcido de como transpor a “penumbra” que envolve certas palavras pertencentes à “literatura em profundidade”, comumente chamada de “Literatura-Arte”.
Eis aqui o poder da palavra para Gaston Bachelard:
“O excesso de pitoresco de uma morada pode ocultar a sua intimidade. Isso é verdade na vida; e mais ainda no devaneio. As verdadeiras casas da lembrança, as casas aonde os nossos sonhos nos conduzem, as casas ricas de um fiel onirismo, rejeitam qualquer descrição. Descrevê-las seria mandar visitá-las. Do presente pode-se talvez dizer tudo; mas do passado! A casa primordial e oniricamente definitiva deve guardar sua penumbra. Ela pertence à literatura em profundidade, isto é, à poesia, e não à literatura eloquente, que tem necessidade do romance dos outros para analisar a intimidade. Tudo o que devo dizer da casa da minha infância é justamente o que preciso para me colocar em situação de onirismo, para me situar no limiar de um devaneio em que vou repousar no meu passado”. (Gaston Bachelard)
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