Quer se comunicar com a gente? Entre em contato pelo e-mail neumac@oi.com.br. E aproveite para visitar nossos outros blogs, o "Neuza Machado 2", Caffe com Litteratura e o Neuza Machado - Letras, onde colocamos diversos estudos literários, ensaios e textos, escritos com o entusiasmo e o carinho de quem ama literatura.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

DE VOLTA PARA O PASSADO: DIVINO ESPÍRITO SANTO DO CARANGOLA - LUGAR SAGRADO DOS ANCESTRAIS - 2

DE VOLTA PARA O PASSADO: DIVINO ESPÍRITO SANTO DO CARANGOLA - LUGAR SAGRADO DOS ANCESTRAIS - 2

NEUZA MACHADO

Ainda inspirada nos contos e recontos de minha Família Materna de Divino do Carangola, em Minas Gerais, recriei, em minha narrativa As Aventuras de Bhima na Terra dos Homens, a “História da Montanha Oca da Serra dos Carolas”.

No meu tempo de criança, os meus pais, em dias especiais, costumavam sair de Carangola para visitar os parentes de Jane Mamãe, os descendentes de meu Bisavô José Damásio de Amorim da Serra dos Carolas, uma localidade perto da Cidade de Divino.

Ali, enquanto os mais velhos se entretinham contando “causos” misteriosos “de arrepiar”, eu me aconchegava ao colo de meu pai, só para ouvir aquelas “estórias extraordinárias”, tão bem relatadas pelos moradores do lugar. Em uma dessas visitas de cerimônia, obtive o conhecimento da História da Montanha Oca, que era, na verdade, uma altíssima pedra, uma rocha localizada nas imediações da residência campestre de um tio de minha mãe, o tio Nicolau.

Depois de ouvir a História da Montanha Oca, fui brincar com outras crianças ― filhos e filhas das primas de Jane Mamãe ― ao redor da dita pedra, muito alta e lisa. No decorrer da brincadeira, jogávamos pedrinhas na rocha, para ouvirmos o tal som que emanava do interior da pedra em ecos redobrados.

Realmente, a rocha deveria possuir alguma cavidade interna, mas a abertura-portal de uma provável caverna não se visualizava. Entretanto, o som das pedrinhas ao contato com a rocha era algo muito estranho. O extraordinário barulho (dos sons que se multiplicavam) produzia também, em grande quantidade, relatos campesinos que se iam diferenciando infinitamente. Desses passeios de meus pais, em visitas aos parentes de minha mãe, guardei valiosas lembranças e recordações. As muitas “estórias” que ouvi em meu tempo de criança, prazerosamente recebidas e armazenadas em minha memória, foram devidamente reaproveitadas por mim em minhas narrativas de Aventuras. É bem verdade que as desrealizei, pois elas adquiriram formas diferentes. Mas, a Fonte de Siloë de meu tempo de criança permaneceu (e permanece) límpida e indestrutível...

Então! Foi dessa “Fonte” que “gotejou” o envolvimento do Extra-Terrestre Bhima com a Montanha Oca da Serra dos Carolas.

Apresento-lhes o capítulo (o texto completo se encontra a disposição do Leitor neste mesmo Blog; buscar As Aventuras de Bhima na Terra dos Homens em Marcadores do Blog):


AS AVENTURAS DE BHIMA NA TERRA DOS HOMENS - "A MONTANHA OCA DA SERRA DOS CAROLAS"

Neuza Machado


“Naquele dia, o “Bhima voou com sua Vimana num raio imenso, que tinha o clarão do sol e cujo ruído era como o trovejar de um temporal”. Estas palavras, descrevendo As Celestiais Aventuras de Bhima Guerreiro e Seus Irmãos, em um certo período milenar da História do Mundo, foram gloriosamente escritas pelo Sábio Vyasa, na Índia Antiga.

Quomodo já lhe informei, a Sábia Väjira sempre admirou, e muito!!!, a encantadora criação literária do referido Sábio. Em verdade, três vezes!!! verdadeira, o Sábio indiano e a Sábia mineira, em um passado não muito remoto, tornaram-se muito amigos, entendiam-se por intermédio daqueles longos serões de compridas leituras sem-fim. Então, foi assim que a Sábia Väjira ficou sabedora da existência de Bhima Resplandecente Angelical Querubim, tornando-se, portanto, a sua mais fiel admiradora. Graças a esta fidelidade literária, pude partilhar com a Sábia, na qualidade de discípula curiosa, o conhecimento correto da existência daquele que fora considerado, em um certo momento da História Oriental, o mais poderoso entre os poderosos. Orgulho-me de tê-la tido quomodo minha Mestre, pois foi graças a lendária Väjira que me interessei em acompanhar de perto As Aventuras do Extra-Terrestre Bonzinho, por meio de uma raríssima intuição quanto à sua extraordinária presença, voando incognitamente pelos céus da esfera terrestre, e pelos céus do Brasil Varonil, em pleno final do Segundo Milênio, e já apreciando aterrado os acontecimentos do início do Terceiro Milênio. Assim, recordando-me das encantadoras narrativas da Sábia Väjira do Multicolorido Manto de Pano Cetim, passo a recontar-lhe tim-tim-por-tim-tim o que aconteceu com o Bhima, quando ouviu de Jane de Ogiges Briseides Martins Damásio D’Amorim, a Jane Mamãe, a Mamãe da Diana Andarilha das Estórias Sem-Fim, pela primeira vez, a História da Montanha Oca da Serra dos Carolas Divinais de Minas Gerais.

Pois acredite neste meu reconto, porquanto, naquele dia, o Bhima voou, em sua Maravilhosa Vimana de Estimado Querubim, até às redondezas da residência de Antônio de Sousa Aquileu, filho do Venerável Ancião José de Souza Peleu, um conceituado Fazendeiro do Antigo Arraial do Choro Mineiro, hoje o lugar é mais conhecido pelo nome de Santo Antônio do Arrozal, pertinho de Divino do Carangola, uma Cidade fenomenal; pois então, naquele momento sublime do Século XX, Bhima voou até às redondezas da casa do Antônio de Sousa Aquileu, por apelido glorioso Antoinzim Tocador de Trombone, de Violão, de Cavaquim e Bandolim só para ouvir as curiosas estórias de Jane Martins de Ogiges Briseides Damásio D’Amorim.

Há muito!, ele se interessara pelas ocorrências vitais daquela família, principalmente, constantemente, entretinha-se em se disfarçar de aragem vespertina, só para ouvir as tais histórias, as quais a Jane Briseides Mamãe, a esposa do referido Antônio, costumava contar à sua filhinha Diana Caçadora Valente Proprietária de Cem Cachorros Malteses Invisíveis Mordentes, com aqueles entretantos narrativos que somente ela sabia expressar. A menina era muito curiosa (e o Bhima também!), e gostava de ouvir as narrativas das velhas lendas mineiras, que povoavam o seu universo sócio-familiar, incríveis narrativas que, tããão bem!!!, e encantadoramente!, sua Mamãe sabia recontar. Também pudera!, a Jane Mãezinha era filha do Venerando Ancião Emilianno de Brises Contador de Estórias da Carochinha, aquele da Árvore da Mortalha Velhinha. Tá lembrado? Por esta razão, inúmeras vezes, o Bhima estacionava a sua Vimana Maravilhosa nas proximidades, só para ouvir os interessantes relatos, lendários e insólitos, os quais se tornavam mais interessantes, quando a Jane resolvia recontá-los.

Assim, naquele dia, antes de sair do seu Recanto Paradisíaco Tropical, aquele lugar de pura maravilha, sem-igual, o qual ele havia escolhido para ali residir por uns tempos, antes de sair de seu recanto de paz, o Solitariozinho colocou um silenciador de motor de automóveis do Século XX em sua Vimana, outrora muito barulhenta, de acordo com as sábias palavras do Sábio; jogou o famoso pó de pirlimpimpim da fadinha madrinha do inesquecível Peter Pan (aquele inigualável pó do disfarce das estórias infantis) em toda a parte externa de sua Vimana Super-Veloz Voadora Maravilhoso Veículo Alado (para retirar dele o clarão do sol, uma vez que o seu brilho era detectado a léguas e léguas de distância), e voou até ao local desejado.

É bom que você saiba, desde já, que, em suas aventuras do Século XX, este recurso era sempre apreciado pelo nosso Bhima. Em verdade, o Século XX tornou-se tããão barulhento, setecentos e setenta e sete vezes tããão barulhento!, que o Bhima não desejava transformar-se em mais um produtor de barulho na Terra dos Homens. Também, esta providência era-lhe necessária, porque ele, no Século XX, já não podia chamar a atenção dos humanos, os quais já não respeitavam os Seres Extra-Terrestres e, com certeza!, iriam querer roubar do Senhor Supremo o segredo de fabricação de sua Vimana Voadora. Roubar inventos divinos, desde o início do Mundo, sempre foi a prática preferida dos humanos ladinos.

Mas, voltando à história da Montanha Mágica da Serra dos Carolas Mineiros, um local bem pertinho do Esplendoroso Monte do Divino Espírito Santo Altaneiro, próximo da Protetora Santa Luzia dos Carangolenses Argueiros, naquele dia, o Bhima colocou um silenciador de motor de carro barulhento em sua Vimana Brilhante Maravilhosa, e voou ansioso até ao terreiro de terra batida da incomparável Jane Briseides Muito Fermosa, e ficou, ali, disfarçado de aragem vespertina, naquela hora milagrosa em que as duas (mãe e filha) se juntavam para contar recontar e ouvir Estórias de Espantos e Santos e Seres do Além, e entreteu-se apreciando os relatos de Mamãe sobre o mistério que cercava a Montanha Oca dos Transcendentes Espíritos Milenares do Bem.

Foi aí, então, que o Bhima ficou conhecendo a história da Montanha do Sino Bim-Bim-Bá-Lá-Lão (florezinha na cinta e ginete na mão), totalmente oca por dentro, na qual vivia o espírito de um antigo sacristão, o qual costumava, nas horas religiosas do dia, horas de Ave-Maria, o grande sino, da pequenininha Igrejinha da localidade, tocar. Aí, então ― continuava contando a Jane Briseides de Irradiante Atração à sua filhinha Diana Valente Caçadora de Mancebos Masculinos Supra-Reais em Extinção ―, um certo dia, o sacristão apareceu mortinho da silva, assassinado com uma certeira facada no coração tão bão, bem encostadinho na parede de pedra da tal Montanha do Bom Sacristão, a qual naquela época não era ainda oca, e que, depois da tragédia, tornara-se oca, e que, naquelas horas sagradas do dia, horas de Ave-Maria, podia-se ouvir as badaladas do sino, quando as crianças inocentes, naquelas tais horas, jogavam pedrinhas miúdas na Montanha Vibrante. Aí então, por consideração de Deus Nosso Senhor de Imortal Coração, o qual amava fervorosamente aquele sacristão, tão cumpridor de seu dever de cristão, aí então o bom Deus, não se conformando com o trágico assassinato de seu fiel servidor, transformou a sólida montanha na Montanha Oca do Sino Plangente Dim Dão, só para que os carolas da região jamais se esquecessem do sacristão em questão.

Aí então, a Dianazinha perguntou à Mamãe do ReCanto Sagrado, porque o sacristão foi matado, se ele era assim tão bão e por Deus estimado? A Mamãe, que era uma incrível contadora de estórias, sacudiu o seu embornal de insólitas informações não muito racionais, e retirou de lá uma estória bonitinha, para contar à sua curiosa filhinha. Então, a Jane Mamãe explicou tudinho certinho. O sacristão morreu porque era muito amado por Deus! Só ele sabia o segredo da Montanha de Brilhante e Verdadeiro e Eloqüente Ouropel, e, através dela, ele se comunicava com os habitantes do Céu. Aconteceu, Diana!, que lá, no local, existia um tal que era partidário do Mal. O adepto do Canhoto queria também conhecer o segredo celestial. Só o sacristão sabia que, no interior daquela montanha, os Anjos-Emissários de Deus ali pernoitavam, e, com eles, o sacristão conversava animado. O sacristão muito apanhou, mas não delatou! Aí, então, com uma facada certeira em seu coração, o malvado, sem um pinguinho sequer de compaixão, o matou. Mas, o criminoso recebeu o castigo do nosso Deus Amado e Adorado! Ali mesmo, no mesmo local da crueldade com o Muito Prezado (aquele de Deus estimado), com uma morte horrorosa ele também pereceu. O homem malvado morreu engasgado. Com o ossinho do pescoço da galinha em sua garganta alojado, o malvado correu até ao local do crime assinalado. O homem do mal, percebendo a hora de sua morte fatal, quis pedir perdão à alma do sacristão. Mas, não pode, coitado!, porque o Danado, que estava ao seu lado, não deixou, de jeito nenhum! Enquanto corria, ele ouvia o Danado que, por intermédio de um estranho ventinho alado, com uma voz sussurrante, dizia vibrante: “Já que ocê tá arrependido do crime a meu mando praticado, e quer pedir perdão à alma do sacristão por Deus muito estimado, não vou tirar o ossinho em sua goela fincado. E, como ocê não terá voz para implorar, nem o Deus dos Cristãos irá lhe ajudar”.

No dia da morte do homem malvado, assim contou a Jane Mamãe, os habitantes da região, inclusive o meu avô José Damásio de Amorim e minha avó Maria Ricarda, habitantes da Serra dos Carolas, foram até ao local e os dois viram o cadáver do homem malvado desaparecer numa fogueira sinistra, amalocado dentro de um estranho buraco sem fundo, cheio de fumaça sufocante, que apareceu por ali, inesperadamente, naquele angustiante instante, tragando o cadáver do homem malvado, levando-o para as profundezas incomunicáveis do Hades Renegado. E um som desafinado de harpa, sinistra, intrigante, foi ouvido por todos que ali se encontravam naquele instante. Assim, no meio de um rastro de fogo alucinante, dentro de um buraco sem fundo, acompanhado de uma música fúnebre de harpa dissonante, o cadáver do malvado desapareceu para sempre, e nunca mais foi encontrado! Até hoje, Diana!, minha menina!, os habitantes do lugar, naquelas horas sagradas, já assinaladas, quando as crianças inocentes vão, até lá, para jogar pedrinhas na Montanha Ocada do Som Bim-Bim-Bá-Lá-Lão, eles escutam o tilintar do sino sagrado do sacristão, e, ao mesmo tempo, escutam, também, o profundo lamento de remorso do criminoso, um triste pedido de perdão, através da melodia de harpa vibrante do vento intrigante. Por isto, a montanha, até hoje, é conhecida pelo nome de Montanha do Eco, enquanto os habitantes da região a denominam de Montanha Oca ou Montanha do Sino ou Montanha Vibrante ou Montanha do Som Angustiante.

Depois de acompanhar, invisível naturalmente, a incrível história de Jane Briseides Mamãe, o Bhima se afastou dali, de fininho, silencioso, e foi para o seu Recanto de Luz. Como já estava um pouco cansado, e já era noite na Terra dos Homens, recolheu-se em seu aposento de dormir, dentro de sua Vimana Casa Voadora Repleta de Esplendor, e preparou-se para desfrutar de mais uma noite de sono reparador. No dia seguinte, ele bem o sabia!, iria conferir, na Magnífica Tela Mágica dos Grandes Acontecimentos, aquela estória da Jane Briseides dos Literários Inventos. De qualquer maneira, o Bhima refletiu antecipadamente!, aquela estória da Jane, por ela fora inventada, uma vez que a imaginação da dita Mamãe originava-se do Reino do Nada. Enquanto não, Bhima caiu em profundo sono reconfortante. Enquanto aquilo, lá na tal Galáxia Especialíssima, em seu Planeta de origem, do qual se distanciara há milênios, submetido à sua função de Guardião da Milícia Intergalática de seu Supremo Senhor, a mãezinha do Bhima, tristinha, rezava por ele ao Deus do Louvor.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

DE VOLTA PARA O PASSADO: DIVINO ESPÍRITO SANTO DO CARANGOLA - LUGAR SAGRADO DOS ANCESTRAIS - 1

DE VOLTA PARA O PASSADO: DIVINO ESPÍRITO SANTO DO CARANGOLA - LUGAR SAGRADO DOS ANCESTRAIS - 1

NEUZA MACHADO

Os antigos habitantes de Divino do Carangola, em Minas Gerais, lugar que sinaliza as minhas origens familiares, apreciavam recontar as histórias acontecidas na região. Entretanto, para valorizarem os relatos, os contadores de “causos” mineiros sempre colocavam um ingrediente a mais, um “misteriozinho” envolvente, para incitar a curiosidade dos ouvintes e para oferecer também um sabor de novidade ao acontecimento, oferecendo assim um narrar merecedor da atenção da platéia.

Meu Avô Emiliano Martins (que residiu em várias localidades adjacentes à Região de Divino ― São João do Norte, Alto da Conceição, Fortaleza e Gruta da Liberdade de Divino) foi um conceituado Contador de Estórias Misteriosas. Minha Mãe Joana herdou de seu Pai Emiliano a vocação de Contadora de Estórias Misteriosas também, muitas delas ouvidas nos Serões Familiares e outras inventadas e reinventadas ad infinitum. A história da “Mão Cabeluda”, que foi reaproveitada por mim em As Aventuras de Bhima na Terra dos Homens (leiam a narrativa que já foi postada neste mesmo Blog; buscar em Marcadores do Blog), por exemplo, encantava-me nos meus tempos de criança. Eu adorava ouvir a minha Mãe Joana (quando ela estava de bom humor!) contando as histórias acontecidas no Passado. É bem verdade que o meu Pai Antônio de Sousa Costa recontou a história da “Mão Cabeluda” de forma diferente em seu livro A História de Antônio (muito em breve, postarei a História escrita por meu Pai em um de meus Blogs; podem aguardar!). As Estórias de Mistérios são assim mesmo! É preciso oferecer crédito à expressão popular: “A cada conto, aumenta-se um ponto”.

E, apenas para Vocês apreciarem o meu reconto da “História da Mão Cabeluda”, do Passado Antigo da Localidade Divinense - século XIX, muito conhecida lá pelos lados do Córrego da Gruta da Liberdade e Córrego dos Teixeiras, reapresento-lhes o capítulo, apresentado na minha narrativa As Aventuras de Bhima na Terra dos Homens.


AS AVENTURAS DE BHIMA NA TERRA DOS HOMENS - CAPÍTULO VIII

Neuza Machado


De acordo com as fantásticas narrativas da Sábia Väjira Diamante, conhecedora d’As Aventuras Terrestres de Bhima, passo a relatar-lhe o episódio da Mão Cabeluda, uma história muito conhecida dos serranos mineiros da Gruta da Liberdade Encantada, localizada em um lugar paradisíaco do Divino do Carangola de Minas Gerais muito amada. Mais ou menos assim, contou-me a Sábia Väjira Diamante de Cabelo Abundante Faiscante:

“Naquele dia, o Bhima resolveu visitar a Gruta Esplendorosa da Mão Cabeluda Super’Anosa. Os habitantes daquele Alto de Serra Mineiro costumavam contar (nos longos serões das noites de Sábado, iluminados pelos fachos de fogo das lamparinas de querosene) que, naquela Gruta Maravilhosa, localizada ali bem perto, encontraram um dia uma grande mão cabeluda, ainda intacta, trazendo no dedo pai-de-todos um preciosíssimo anel de ouro, e, incrustado nele, uma belíssima pedra de jade em forma de lâmina de machado. Os habitantes do alto serrano eram todos camponeses, lavradores da terra do delicioso café, e não entendiam o mistério daquela grande mão cabeluda. “Como ela fora parar ali?, se naqueles últimos annos, ninguém do lugar soubera de alguma morte misteriosa envolvendo alguém do lugar?, ou mesmo de alguma briga, na qual alguém das redondezas tivesse perdido a mão direita? Como aquela mão se conservara intacta por tanto tempo, sem ter sofrido a ação destruidora do mesmo e a voracidade dos vermes?”, assim se perguntavam os habitantes do lugar. A mão cabeluda era um mistério para aqueles serranos humildes, os quais moravam nas proximidades da Gruta. Por isto, o Bhima, que muito os amava, e ouvia sempre seus espantos ante as forças desconhecidas, digo, ouvia sempre seus questionamentos sem as corretas respostas culturalmente abalizadas, resolveu visitar a Gruta da Mão Cabeluda, ou melhor dizendo, visitar a Mão Cabeluda que, ainda, jazia inerte no interior da Gruta Misteriosa.

Ele sabia, muito bem!, a procedência daquela mão e a força poderosa que emanava do preciosíssimo anel de jade. Mas, ele não poderia, jamais!, avisar aos habitantes do lugar que a enorme mão cabeluda estava ali para os proteger, e que, em tempo algum!, lhes faria mal. Não!, ele não poderia nunca avisar-lhes de viva voz, mas, quem sabe?, poderia soprar-lhes alguma mensagem através do vento? Afinal de contas, em seu passado remoto, na Antiga Índia, ele, Bhima, se materializara quomodo um semi-humano, filho do deus do vento e da rainha Kunti (esposa do rei Pandu). Mas, isto já fora há tanto tempo!, o Bhima já quase não se lembrava daquela época. Para se lembrar, ele acionava o botão de sua fabulosa Tela do Passado, aquele presente inigualável recebido do Supremo Senhor milênios-luz atrás. Às vezes, entretinha-se em rever, no grande telão de sua Vimana, as cenas daquela sua vida de semi-humano, tão bem registradas em versos épicos, posteriormente, pelo Mago Vyasa. Sim!, ele poderia enviar, aos habitantes do lugar, uma mensagem alada, por intermédio do vento. Mas, se assim o fizesse, poderia ser castigado pelo Supremo Senhor, já que este avisara-lhe, terminantemente, que, jamais!, em tempo algum!, ele poderia se imiscuir na dinâmica de vida dos seres humanos. De qualquer maneira, naquele momento, já se encontrava diante da Mão Cabeluda, trilenária, mas que se conservava intacta, como se tivesse sido decepada recentemente. Só que aquela mão, Bhima bem o sabia!, não fora decepada, mas sim modelada pela Suprema divindade e colocada ali, naquela Gruta Mágica de Minas Gerais, e representava a própria mão do Senhor de Indizível Valor, numa clara demonstração de que, aquele povo serrano, sempre!, milhões de vezes sempre!, receberia a Suprema Proteção de sua Suprema Amizade. Aquele povo alcançara o favor do Supremo Senhor, e todos os humanos que comungavam com a mesma forma de falar e se comunicar, também, receberiam as bênçãos da Suprema Supremacia. Quanto ao anel de ouro e jade, Bhima bem o sabia!, representava a união entre o Supremo da Paz Desejada e os habitantes daquela terra abençoada. O ouro representava a Proteção, e o jade representava a Realização. A pedra preciosa em forma de machado afiado representava a perene atividade galática em favor dos serranos altaneiros, mas representava também um instrumento de punição com ação para com os ocultos ferozes inimigos dos mesmos.

Enquanto olhava fixamente aquela incrível mão, com seus grandes e amendoados e brilhantes olhos de Extra-Terrestre Bonzinho, o Solitariozinho pode avaliar a grandeza sem-igual do Supremo Senhor. De vez em quando, naqueles milhares e milhares e milhares de annos-luz, a Incrível divindade se preocupara em proteger alguns grupos humanos. Aquela mão e o anel de jade simbolizavam o seu Supremo Amor para com os menos favorecidos socialmente, portanto, representavam a Suprema Aliança de Suprema Proteção do Supremo Senhor para com os deserdados da Terra. Por esta razão, os serranos, mesmo sem compreender bem os desígnios do Altíssimo, mesmo sem compreender bem o valor daquela mão encontrada na Gruta de Verdes Ramagens Brilhantes, Encantada, jamais!, repito, jamais!!!, ousaram desvencilhar-se dela. Ali, ficara aparentemente esquecida; ali, ficaria até o fim dos tempos terrenos, mas, enquanto não!, seria sempre relembrada nas noites de Lua Cheia, digo, nas noites de sábado, quando os mais velhos, repletos de respeitoso temor, narrariam, para os mais jovens, a existência da Mão Cabeluda, achada intacta e misteriosa naquela Estranha Gruta que exalava um ar de pura maravilha, quando os mais velhos falariam aos mais jovens sobre uma imensa Mão Cabeluda, insolitíssima, na qual se constatava a existência de um precioso anel de ouro e jade. Entretanto, o Bhima bem o sabia!, eles só não explicariam aos mais jovens o porquê de não terem eles avistado a tal Mão Cabeluda. Mas, que ela existia, existia!

Depois da visita, o Solitariozinho Intergalático recolheu-se à sua Vimana, esquentou seus pezinhos com grossas meias de algodão compradas na Cidade do Divino Espírito Santo de Minas Gerais, em virtude do frio que ali fazia naquele mês de junho, e aconchegou-se em sua sonhadora caminha flutuante azulada, cobrindo-se com volumosos cobertores de lã de carneiro, para, enfim, desfrutar de mais um dia na Terra dos Homens. No dia seguinte, o Bhima bem o sabia!, novas aventuras estariam à sua espera, quando, dentro de sua Poderosa Vimana Voadora, quebraria mais uma esquina aérea das narrativas prosopopaicas do Século XXI, entre as inúmeras nuvens escurecidas e perigosas, as quais, naqueles dias de guerra, em outra parte do Mundo, estavam a rodear, sinistras, aquele Terceiro Anno do Terceiro Milênio.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

DE VOLTA PARA O PASSADO: CARANGOLA - RUA DOS ROMANOS - 6


DE VOLTA PARA O PASSADO: CARANGOLA - RUA DOS ROMANOS


NEUZA MACHADO

Jane Mamãe costumava comentar as ligações familiares por meio de vários sobrenomes de família. Assim, pelo lado da minha Avó Materna (a Justiniña de Ogiges), sou parente dos Damásios da Serra dos Carolas (meu Bisavô, o Papai da Vovó Justiniana e Avô de Jane Mamãe, chamava-se José Damásio), dos Amorins da Serra dos Carolas, dos Amorins de São Manuel do Boi, e outros sobrenomes mais.

Pelo lado de meu Avô Materno (o Avô Emiliano, Filho do Poderoso José/Juca Martins, dono de terras, fundador do Córrego dos Martins, rico Sitiante no Final do Século XIX), sou parente dos Martins da Cidade de Divino, dos Santanas, e de outros sobrenomes famosos nas Comunidades Adjacentes. Por exemplo, tenho parentes em Alvorada de Carangola, onde minha mãe nasceu e foi batizada, em uma pequenina igreja, hoje tombada pelo patrimônio cultural da região (Alvorada: um Povoado que pertence a Carangola, mas que deveria ser muuuuuuto distinguido na História do Brasil, porque ali nasceu um Ministro do Governo do Presidente Juscelino Kubtscheque).

Sobre esses diversos entrelaçamentos de meus distinguidos sobrenomes de família, há casos e casos para contar. Quando olho o retrato de meu Avô Materno, os retratos de meus tios maternos (alguns, ainda vivos, os mais novos), e os coloco perto dos vários retratos do escritor Afonso Romano de Sant’Anna (retratos que estão em seus livros, na Internet) — o Afonso Romano de Sant’Anna, aplaudido professor de Literatura Brasileira e crítico literário, casado com a escritora Marina Colassantti ―, e vejo as semelhanças faciais, tão familiares, percebo-me a acreditar em minha Jane Mamãe, já falecida, e passo a pensar que os Romanos de Carangola e os Romanos de Juiz de Fora vieram de um mesmo tronco familiar, lá do passado dos mineiros pioneiros.

(Mas, em Minas Gerais, Meu Rapaz!, Meu Caríssimo Leitor-Internauta!, não se procura parentesco entre ricos e pobres... não senhor! E, quando eu nasci, a minha Família Tradicional Mineira — tanto do lado paterno quanto do materno — já estava, há muuuuuuito!, distanciada de seus nobres e ricos troncos familiares).

Enfim, retomando o assunto principal (depois desses muitos felizes anos de residência no Rio de Janeiro), num dia qualquer dos anos iniciais do Terceiro Milênio, deparando-me com uma fotografia da Rua Santos Dummont decalcada em um Site de Carangola (foto de Daniela Herdy Pedrosa - Site: panoramio.com/photo/5492101), graças a uma pesquisa no Google, inúmeras gratificantes lembranças infanto-juvenis voltaram à minha mente e emocionantes recordações ao meu coração.


Por todas estas lembranças imperecíveis: Salve, Cidade de Santa Luzia do Carangola, Princesinha da Zona da Mata Mineira! Sua saudosa e ausente filha Neuza lhe saúda!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

DE VOLTA PARA O PASSADO: CARANGOLA - RUA DOS ROMANOS - 5

DE VOLTA PARA O PASSADO: CARANGOLA - RUA DOS ROMANOS

NEUZA MACHADO

(Fotografia de Joana Martins)


(ver a foto da Rua dos Romanos - de Daniela Herdy Pedrosa - Site: http://www.panoramio.com/photo/5492101)


Ainda a Rua dos Romanos de Carangola:

Lembrando-me aqui da Rua dos Romanos de Carangola, revejo nitidamente a Jane Mamãe confidenciando-me: “Tudo isto aqui (toda a extensão da Rua) pertenceu aos Romanos, um ramo familiar de meu pai, seu avô”. (Meu avô materno: Emiliano Martins Sant’Anna, filho do José Martins — Juca Martins —, Senhor do Córrego dos Martins no Final do Século XIX, um lugar das proximidades, talvez lá pelos lados da Cidade de Divino ou Espera Feliz, não sei!). E a Joana Mamãe continuava: “A ‘Velha Romana’ era a matriarca da família, e eu sempre ouvi o Papai (o Papai de Jane Mamãe: Emiliano Martins Sant’Anna) se referindo ao nosso parentesco com os Romanos de Carangola e com os Romanos de Juiz de Fora” (se é vero, não sei!, só pesquisando a minha variegada genealogia da Zona da Mata Mineira).

terça-feira, 9 de novembro de 2010

DE VOLTA PARA O PASSADO: CARANGOLA - RUA DOS ROMANOS - 4

DE VOLTA PARA O PASSADO: CARANGOLA - RUA DOS ROMANOS

NEUZA MACHADO

(ver a foto da Rua dos Romanos - de Daniela Herdy Pedrosa - Site: http://www.panoramio.com/photo/5492101)


Ainda a Rua dos Romanos de Carangola:

Lembro-me também do senhor Américo Vieira — um senhor muito simpático e divertido, possuidor de uma esvoaçante cabeleira, branquiiinha!, que era domada por um chapéu de palhinha branco —, que, à época, morava bem no centro da Rua Santos Dummont (talvez, em uma dessas casas que aparecem na fotografia de Daniela Herdy). Sempre que vejo a atriz Ângela Vieira na televisão, recordo-me do senhor Américo: o mesmo nariz, as mesmas feições, a mesma figura alta (?) e magra (coloquei uma interrogação, porque, para as crianças, as pessoas são sempre altas; e o senhor Américo era proprietário de um porte elegante pela própria natureza). Não posso afirmar que a atriz Ângela Vieira seja parente do senhor Américo Vieira, mas as semelhanças, via sobrenome, são incríveis. Talvez seja pura coincidência.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

DE VOLTA PARA O PASSADO: CARANGOLA - RUA DOS ROMANOS - 3

DE VOLTA PARA O PASSADO: CARANGOLA - RUA DOS ROMANOS

NEUZA MACHADO

(ver a foto da Rua Magalhães Queiroz - de Daniela Herdy Pedrosa - Site: http://www.panoramio.com/photo/5257310)


Continuando a minha incursão/excursão pelo Túnel do Tempo Brasileiro-Meados do Século XX, de volta para o meu infantil passado carangolense-mineiro, outro jovenzinho que eu achava lindo de viver era o filho caçula do senhor Atlanta, proprietário de uma fábrica de vinhos, proveniente de uma família de origem italiana. O rapaz foi meu colega de Escola (uma Escola já desativada situada na Rua Magalhães Queiroz), mas, era mais velho do que eu uns dois anos, talvez. Tenho um retrato de uma peça de teatrinho infantil (script de minha autoria), na qual houve a participação desse meu colega, peça esta apresentada por ocasião da formatura do curso primário.

No entanto, não posso esquecer-me de outros colegas de minha Escola, lindos e maravilhosos quando crianças: o Francisco, o Virgílio, o Wagner (hoje, doutor em medicina), o Paulo, o Aloísio. Foram muitos, mas não me lembro de todos os nomes. No entanto, gostaria que todos se sentissem homenageados nestas minhas relembranças.

Quanto às meninas, lembro-me da Neuza Amorim (minha xará), da Maria Teresa ou Teresa Maria, não sei!, filha do joalheiro da cidade, da Célia, filha do senhor Antônio da Linha (talvez, as únicas colegas mais chegadas que tive no tempo do primário). No primário, minhas professoras foram Dona Cléria e Dona Agostinha. A diretora era a Dona Mariinha.


(Amanhã, narrarei mais um trechinho de minhas relembranças. Enquanto isto, prestigiem-me lendo o meu texto “De Volta para o Futuro: Os Segredos da Culinária Mineira de Odisséia Maria”, no meu Blog http://caffecomlitteratura.blogspot.com/. Junto com o texto, vocês encontrarão receitas deliciosas da Culinária de Minas Gerais).

domingo, 7 de novembro de 2010

DE VOLTA PARA O PASSADO: CARANGOLA - RUA DOS ROMANOS - 2


DE VOLTA PARA O PASSADO: CARANGOLA - RUA DOS ROMANOS

NEUZA MACHADO

(ver a foto da Rua dos Romanos - de Daniela Herdy Pedrosa - Site: http://www.panoramio.com/photo/5492101)


Recordando ainda a Rua Santos Dumont (antiga Rua dos Romanos), lembro-me, em especial, do senhor Américo, que, à época, estaria vivenciando uns cinquenta anos, mais ou menos, e que, todas as tardes, de volta do trabalho, me cumprimentava, gentilmente, tirando o chapéu, chamando-me carinhosamente de “Princesinha” (e eu ali, firme, com os cotovelos apoiados no parapeito da varanda, a esperar o cumprimento do senhor Américo). Aquele cumprimento do senhor Américo era sempre esperado, todos os dias!, e era a “glória” para mim. Isto foi no final dos anos cinquenta. O senhor Américo tinha um filho caçula, já rapazinho. Eu, por volta dos oito anos, achava o filho do Senhor Américo o rapaz mais bonito da minha rua. Havia um outro que eu achava muito bonitinho também, já com uns dezesseis anos, por aí. Era o filho do senhor Otacílio. Meus pais moravam em uma casa defronte ao prédio do senhor Otacílio, e eu, por minha parte, ficava olhando, encantada!, o rapazinho (de uns desesseis anos mais ou menos), quando ele aparecia em uma das janelas do segundo andar (o prédio do senhor Otacílio comportava uma fileira de seis janelas ou mais). Para mim, era como se fosse a aparição de um astro de cinema. A madrasta do rapaz, uma senhora muito linda e simpática, ficava brincando comigo (hoje, diríamos “zoando”), por causa do meu infantil encantamento pelo enteado dela. Eu era uma menina muito ativa e, ao mesmo tempo, sonhadora...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

DE VOLTA PARA O PASSADO: CARANGOLA - RUA DOS ROMANOS - 1


DE VOLTA PARA O PASSADO: CARANGOLA - RUA DOS ROMANOS

NEUZA MACHADO

Há poucos dias, pesquisando na Internet os sites de minha cidade natal — Carangola, MG (visualizar a foto da Rua Santos Dumont - de Daniela Herdy Pedrosa - Site: panoramio.com/photo/5492101) —, descobri uma fotografia da Rua Santos Dumont, antiga Rua dos Romanos. Descoberta importante, pois, a partir dela, da fotografia, pude retornar no tempo (ou retomar o) e perceber o quanto a minha infância e adolescência foram essenciais para o meu desenvolvimento de uma forma geral.

Naquela rua centenária de uma cidade do interior de Minas Gerais vivenciei alguns anos apreciáveis de minha infância e juventude, pois a minha família foi morar ali quando eu já contava oito anos de idade. Desta rua (de minha “casa inesquecível”, “de minha casa primordial”, só para me lembrar das asserções do filósofo francês Gaston Bachelard) saímos para o Rio de Janeiro, quando o mundo começava a se descortinar diferenciado para mim (apesar dos inúmeros problemas gerais sócio-vitais que me enlaçavam e continuaram a incomodar-me ao longo dos anos).

Mas, estou aqui a lembrar-me da Rua Santos Dumont de Carangola, em Minas Gerais.

Da varanda da casa de meus pais eu via o mundo passar diante de meus olhos. Na época da infância, além dos estudos (nos anos iniciais de minha formação, fui aluna nota dez, às vezes, nota nove e meio, outras vezes, nove), a minha vida se resumia em brincar despreocupadamente com as minhas colegas da Escola — até aos onze anos, mais ou menos — e conversar com as pessoas amigas que passavam na Rua Santos Dummont.

Enfim, são lembranças inesquecíveis! Um dia desses, com a permissão indispensável dos carangolenses presentes e ausentes de meu passado dourado, contarei outros episódios...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

ARRAS POR FORO DE ESPANHA: A QUESTÃO DO HERÓI ROMÂNTICO

ARRAS POR FORO DE ESPANHA: A QUESTÃO DO HERÓI ROMÂNTICO

NEUZA MACHADO

Alexandre Herculano foi soldado, foi poeta, mas, sobretudo, foi um excepcional narrador das origens e lendas de Portugal. Não o colocaria tanto na categoria de historiador (baseando-me em seus biógrafos) uma vez que o escritor romântico português desenvolveu literariamente um modo todo especial de reviver a história, dando-lhe um aspecto quase lendário. Observa-se isto em muitas de suas obras, como "O Bispo Negro", por exemplo, no qual o plano sócio-substancial da narrativa se entrelaça de forma admirável com o imaginário-em-aberto da autêntica criação ficcional. Em “O Bispo Negro”, Alexandre Herculano, querendo desmitificar a aura de santidade de Afonso Henriques, que se tornou conhecido pelos pósteros como de origem divina, cria-lhe outra aura: a de homem valente e irascível, que não teme nem mesmo a ira de Deus. Em um certo momento da narrativa, ao exigir que o Papa revogasse a sua excomunhão, Afonso Henriques não o faz por medo dos castigos do inferno, mas para reforçar a sua condição de rei, isto é, o seu prestígio como rei. Para tal exigência, usa até mesmo a força física. Quanto ao bispo negro será que em verdade existiu? Não se sabe com plena certeza, e aí entra o lendário.

Em “Arras por foro de Espanha”, Herculano não foge à regra. É uma narrativa histórica, repleta das características intrínsecas do romantismo português do século XIX, principalmente a característica da retomada de valores medievais, e, por tal razão, ambientada em pleno século XIV, assim como “O Bispo Negro”, que se ambienta no século XII.

Por intermédio da análise linear há a possibilidade de se detectar uma parte da trajetória do reinado de Dom Fernando, 4o rei da Segunda Dinastia de Portugal, e seu problemático casamento com Dona Leonor Teles. Alexandre Herculano realça a idéia de que o povo português da época não aceitava tal união, por julgá-la indigna de seu rei. Dona Leonor já era casada com João Lourenço da Cunha e, mesmo assim, conseguiu conquistar o amor do rei, para satisfazer a sua ambição de poder. O rei julgava-se amado e por isso não via esse aspecto negativo da personalidade de Dona Leonor. Estava cego de paixão, mas o povo via, e sofria. Os nobres também desaprovavam, pois a união com uma mulher casada não se adequava às leis religiosas e políticas da Idade Média. Assim, a nobreza, descontente, soube direcionar aos ouvidos da população os indícios de sua própria revolta, e que resultou logo depois em muito sangue derramado (o dote exigido pela rainha) e na vitória da adúltera.

Para um leitor menos exigente, isto é o que fica de concreto em relação à história recontada ficcionalmente por Alexandre Herculano. Mas, na verdade, ao ler-se uma obra ficcional, principalmente quando esta for considerada de primeiríssima qualidade, o leitor analista e/ou intérprete não deverá fixar-se apenas em palavras e orações, e, muito menos, decorar o conteúdo escrito; o que deverá permanecer em seu intelecto é a compreensão do texto analisado, ou seja, aquilo que o escritor deixou latente nas entrelinhas da camada visível de seu texto literário. Por exemplo, em uma análise mais profunda, aliada à interpretação fenomenológica, pode-se captar o invisível do texto-arte, isto é, aquilo que só é detectável com o auxílio do entendimento.

Em “Arras por foro de Espanha”, Alexandre Herculano oferece ao leitor uma narrativa dividida em sete partes (é natural em Herculano o uso dos números cabalísticos). Em cada parte se desenvolve um tipo diferente de narração (observar as diferenças inerentes aos conceitos de narrativa e narração), cada qual entremeada por ações distintas. Em todas as narrativas de Herculano não há como se observar um fio narrativo com episódios simultâneos. Os episódios são, ao contrário, estanques, carregados de uma forte carga emocional, episódios semelhantes a quadros que, dispostos ao longo de uma parede, narrassem ao apreciador as peripécias de um momento do passado. O escritor romântico Alexandre Herculano, graças a um narrar singularíssimo, apesar das diretrizes formais de seu momento estético, se metamorfoseia em pintor/ficcionista e, assim, por meio de palavras, oferece ao leitor de seu tempo e ao leitor dos séculos seguintes quadros vivos de um passado distante. Por intermédio de pinceladas narrativas fortes e seguras, caracteriza as personalidades de seus personagens ficcionais.

Em verdade, os personagens em questão existiram, fizeram parte da História da nação portuguesa. Mas, graças ao poder narrativo de Herculano, passam a existir na mente do leitor por meio do plano metafísico. O caráter diabólico de Dona Leonor adquire uma faceta irreal. Alguns leitores custam a aceitar (outros já aceitam de imediato) o fato de ter existido, em realidade, uma mulher tão pérfida e ambiciosa, sem um mínimo rasgo de bondade. Esta inaceitabilidade gera a dúvida, a dúvida gera a compreensão, a compreensão gera a modificação. O que isto quer dizer? Quer dizer que começam a aparecer perguntas e reflexões, de acordo com a sensibilidade ou de acordo com o conhecimento de cada um. Assim, um determinado leitor neófito poderá dizer: “Que mulher perversa, má, interesseira, sem princípios!” Aí poderá vir o contraponto também de um outro leitor neófito: “Coitada! Foi tão perseguida, caluniada, enlameada. Será que ela não tinha o direito de ser amada? Será que ela foi realmente má? Não teria Herculano (ou a História) acentuado um caráter forte, que poderia não ser tão mau assim? Será que ela não foi vítima dos acontecimentos em vez de carrasco?” Assim, graças a pensamentos especulativos, passa-se a uma espécie de compreensão primária das mensagens temporais que estão ocultas no texto ficcional, passa-se a modificar o caráter dos personagens. O leitor não seria humano se não agisse assim.

Entretanto, o estudioso da literatura portuguesa, desenvolvendo um ponto de vista analítico mais elaborado, poderá aprofundar-se em princípio em sua análise e, posteriormente, na compreensão fenomenológica desta narrativa de Alexandre Herculano em particular, cujo conteúdo naturalmente submete-se ao modelo romântico, e dela retirar as impressões pessoais do autor, as quais se ocultam nas entrelinhas de sua ficção.

Pelo ponto de vista da livre interpretação, escorada naturalmente nos preceitos da orientação fenomenológica, o leitor atento poderá descobrir que a narrativa apresenta um Dom Fernando fraco, subjugado pela paixão por uma mulher de caráter interesseiro. É aceitável essa fraqueza. É comovente a grandiosidade dessa paixão. Mas, ele não foi tão fraco ao enfrentar a oposição da nobreza e do povo em relação ao seu casamento (se bem que a narrativa faz crer que ele era conduzido pelas mãos firmes de Dona Leonor), pois se fosse fraco acataria a decisão da maioria. Não foi fraco, por exemplo, ao selar a condenação dos traidores. Será que, realmente, ele “sentiu horror” ao assinar a condenação? Ou ele, também, era conivente com as idéias de vingança de Dona Leonor? Quem poderá afirmar com certeza o que se passa no coração humano? E, além disso, não se deve esquecer que a história de Herculano segue os pressupostos do romantismo português do século dezenove, e que o conteúdo ficcional da mesma destaca a época de barbarismos da Idade Média. Matar, naquele período medieval era um ato comum. As vinganças também.

Está claro que Herculano, como um bom narrador, e principalmente como historiador, possuía um bom conhecimento da História de Portugal. A verdade é que, por mais que mostre o caráter negativo de Dona Leonor, ele deixa uma frestazinha, mínima, oferecendo ao leitor a possibilidade de amar a personagem ao invés de odiá-la. Ao ler a frase, já no final da narrativa, “Dona Leonor triunfara”, o leitor de Herculano sente um certo júbilo. É a vitória do mais forte, pelo ponto de vista do padrão narrativo romântico, não importando o sangue derramado. O leitor da estética romântica ama os fortes e corajosos, os fracos não têm vez. O herói ou heroína do Romantismo, ao final, sairá sempre como vencedor.

E, Dom Diniz? Este, ao longo da narrativa, é apenas um dos candidatos ao trono paterno, ou seja, nos domínios da ficção é a força motriz para gerar confusões. Dom Diniz é tão ambicioso quanto Dona Leonor, talvez até mais, pois não se acanha em unir-se ao matador de sua mãe, na tentativa de derrubar aquela que se tornara um entrave às suas pretensões. Herculano pinta-o como um jovem orgulhoso e cheio de brios ao enfrentar o irmão, recusando-se a beijar a mão de Leonor Teles, mas, basta que o analista literário busque o auxílio da História e achará assentado o caráter brigão e virulento do infante. Retomando a História de Portugal, o leitor-analista poderá descobrir que Dom Diniz, em virtude de sua desavença com Leonor Teles, exila-se. Posteriormente, retorna a Portugal, após a batalha de Aljubarrota, mas, o novo rei, Dom João I de Avis, que já conhecia o caráter irrequieto do infante, envia-o à Inglaterra. Alguns anos depois, torna-se prisioneiro de piratas flamengos. Depois de um longo cativeiro, vai para a Espanha, onde passa a lutar contra Portugal.

Em “Arras por foro de Espanha”, Dom Diniz é o único que não se dobra aos caprichos da rainha, mas também não termina como um vencedor. Afasta-se de cena, à meia-noite, dentro de uma barca que “subia com dificuldade a corrente rápida do Douro”.

Quanto ao povo (a "arraia miúda" da Idade Média, segundo Alexandre Herculano), este, por si só, vale como personagem. Não há distinções entre o povo. Excetuando-se Fernão Vasques, eleito porta-voz da população, ninguém se destaca em particular. Mas o povo é grandioso ao lutar, e pequeno e insignificante na derrota. É para se lamentar a sorte de um povo que se acomoda à ideologia dominante, que se acomoda ao patriarcalismo milenar. Alcácer por Sua Senhoria!

Outros personagens aparecem (Frei Roy, Mestre Bartolomeu Chambão e outros) ajudando a formar os elos da intriga ficcional à moda romântica. Entre todos é ainda a figura ímpar da rainha que se destaca. Ela é a alma da narrativa. Ela é terrível em sua vingança, mas sem ela a história seria outra.


neumac@oi.com.br

terça-feira, 2 de novembro de 2010

CONSCIÊNCIA DA LINGUAGEM: NOVO DINAMISMO PSÍQUICO


CONSCIÊNCIA DA LINGUAGEM: NOVO DINAMISMO PSÍQUICO

NEUZA MACHADO

“Uma imagem literária imitada perde a sua virtude de animação. A literatura deve surpreender. Certamente, as imagens literárias podem explorar imagens fundamentais – e nosso trabalho geral consiste em classificar essas imagens fundamentais –, mas cada uma das imagens que surgem sob a pena de um escritor deve ter a sua diferencial de novidade. Uma imagem literária diz o que nunca será imaginado duas vezes. Pode-se ter algum mérito em recopiar um quadro. Não se terá nenhum em repetir uma imagem literária” (Bachelard).

Em meados do século XX, o escritor mineiro Guimarães Rosa surpreendeu os meios intelectuais brasileiros, valendo-se de uma linguagem fora dos padrões habituais, para desenvolver a sua inigualável arte literária. Naquele momento, Guimarães Rosa conseguiu a sua diferencial de novidade, recriando a antiga técnica de contar estórias exemplares à moda do sertão de Minas, mas retiradas criativamente de seu imaginário particular, singularíssimo. Graças a essa diferente forma de narrar, extraiu das recordações íntimas o aspecto altivo do homem sertanejo, sustentado pelo primitivismo de uma existência alheada dos valores modernos. O escritor, de origem sertaneja — rejeitando os valores da modernidade, as regras linguísticas formais, as imagens mascaradas (limitadas), e buscando o linguajar primordial (provocador), a imaginação material (reprodutora) aliada à imaginação criadora (dinâmica ) ―, tornou-se um ativo modelador de um universo diferente. Não quis apenas contemplar o sertão da infância, recriou-o, domou a matéria terra e venceu a natureza.

Guimarães Rosa, em suas primeiras narrativas, uniu terra e água em uma massa perfeita. Às vezes, sobressaindo-se mais a terra, outras, a água. Entretanto, se tivesse registrado apenas o seu ato de modelar o sertão da infância, por intermédio da imaginação reprodutora, não teria legado aos pósteros a sua indiscutível arte ficcional. Desenvolvendo o ato de bem ver a realidade sertaneja, o escritor mineiro explorou as imagens reprodutoras, fixas, transformando-as em imagens dinâmicas, próprias da ficção-arte. Por meio dessa exploração de imagens interativas soube atingir o domínio de uma imaginação fundamentalmente criadora, quando rejeitou a cultura realista e passou a bem sonhar o seu passado inesquecível, “permanecendo fiel ao onirismo dos arquétipos que [estavam] enraizados [em seu] inconsciente” (Bachelard)

Nas recordações da infância, momentos de pura inspiração o impelem à modelação de trechos narrativos de alta criatividade. Por exemplo, reconstituindo as façanhas infantis de um grupo de crianças, em “A partida do audaz navegante” (Primeiras Estórias), propicia-nos um retorno ao regaço materno, seja qual for a significação que queiramos dar a esta expressão: retorno ao útero materno, retorno aos braços carinhosos da mãe, retorno às origens, ou, mesmo, retomada dos valores puros da terra/sertão.

Bachelard nos alerta:

“Afastar a criança da cozinha é condená-la a um exílio que a aparta dos sonhos que nunca conhecerá. Os valores oníricos dos alimentos ativam-se ao se acompanhar a preparação. Quando estudarmos os sonhos da casa natal, veremos a persistência dos sonhos da cozinha. Esses sonhos mergulham num feliz arcaísmo. Feliz o homem que, em criança, “rodou em volta” da dona da casa” (Gaston Bachelard)

Nesta narrativa, que assinala um dos mais inspirados momentos criativos de Guimarães Rosa, há um retorno ao regaço materno revelando o homem que, em criança, conheceu as delícias feitas em fogão de lenha. O sertão roseano é o invólucro do sonho da casa natal, repleno de lembranças e recordações. Assim, por exemplo, uma certa manhã de chuva (água) mistura-se com a terra, formando a massa de lembranças imperecíveis. Desse composto de água e terra evola-se - ficcionalmente - o cheiro dos alimentos de outrora somado às recordações do passado infantil, passado em que o menino de então observava sua mamãe mandando “Maria Eva estrelar ovos com torresmos e descascar os mamões maduros” (op. cit.). Os sonhos da cozinha estão presentes e vivos nas lembranças (matéria ficcional) e recordações (matéria lírica) do narrador de antigas experiências infantis. Mas, o sonhador das vivências inesquecíveis, agora, já se aliou definitivamente à imaginação criadora e consegue transmitir ficcionalmente os inumeráveis planos de sua consciência singular.

Nos sonhos da casa natal, terra, chuva, cozinha e lama se misturam para realçar a figura materna. Num meio repleto de primitividade, mamãe é a mais bela, a melhor, e “cuida com orgulhos e olhares as três meninas e o menino” (op. cit.).

O Artista - aquele que saiu do sertão dos valores primitivos e adquiriu inúmeros talentos na moderna sociedade brasileira - remodela a figura materna por intermédio de um olhar infantil. Não estaríamos violando regras teórico-críticas, apoiados que estamos na idéia de compreensão do texto literário - fenomenologia -, se afirmássemos que é ele - o Artista Ficcional Guimarães Rosa - o menino que admira a mãe, e que esta admiração só se revelará valiosa mediante a percepção infantil aliada à criatividade do adulto. Graças à percepção infantil aquecida pelo fogo familiar, permanentemente aceso nas lembranças do passado, iluminando as recordações do adulto, a voz de mamãe se transforma em “uma voz de vogais doçuras e a manhã se faz de flores” (op. cit.).

No início, o elemento fogo se sobressai para o cozimento da massa formada pela terra e pela água. Na cozinha das recordações, os alimentos se tornam saborosos, e a doce voz materna também se transforma em alimento, nutrindo a criança, oferecendo-lhe condições de desenvolver o corpo e os sonhos.

A cozinha é o gineceu do sertão roseano, e a sua criação literária só foi possível graças a essa íntima e doce convivência com a terra e a água. Em seus devaneios de dilatação da massa que irá ao forno da criação literária, o criador sertanejo de um mundo ficcional (sustentado pelas lembranças de uma infância feliz), em que os valores poéticos se sobressaem, registra a imagem imperecível de mamãe dosando açúcares e farinhas para a feitura de um bolo, enquanto as crianças entrefiam a estória do audaz navegante, descobridor de lugares além do cotidiano.

Esta narrativa, oriunda dos sonhos dilatados do amanhecer - dos devaneios da vontade de um sonhador-modelador que sabe trabalhar sua criatividade ficcional -, é uma sensível massa de palavras bem dosadas. O estilo inconfundível de Guimarães Rosa se faz presente nesta aparentemente simples narrativa, mas, em suas camadas ocultas há uma profunda natureza complexa. “As verdadeiras fontes do estilo são fontes oníricas. Um estilo pessoal é o próprio sonho do ser” (Bachelard). Sob a proteção do olhar infantil, o inspiradíssimo narrador roseano acompanha os movimentos de mamãe, transforma Pele - a irmã - em uma criança diligentil, além de dar forma a uma imagem ímpar: Ciganinha - a outra irmã - lendo um livro sem virar a página. Percebe-se, neste discurso inovador, os valores imaginários da criança em seu mais alto grau. A massa perfeita encontrou seu elemento individualizador, pode transformar o audaz navegante e seu navio - núcleo de uma sub-estória dentro da narrativa - numa “coisa vacum, atamanhada, embatumada, semi-ressequida, obra pastoril no chão de limugem, e às pontas dos capins-chato deixado” (op. cit.). Um cogumelo branco se transforma no audaz navegante, bamboleando em cima da tal coisa - o navio -, que está prestes a ser tragada pela enchente produzida pela chuva anterior.

O escritor, agora vivenciando o cogito(3) da “consciência singular” (Bachelard), possui total conhecimento da linguagem infantil. Graças a essa nova convivência com um plano de difícil acesso, próximo das “inconsequências quânticas” (idem), a narrativa de um simples dia de chuva atrelado ao universo infantil transmite um novo “dinamismo psíquico” (idem). A imaginação material - matéria terrestre: o sertão composto de pedras, madeiras, metais e gomas - associa-se à imaginação das matérias inconsistentes e móveis - a água, o fogo e o ar -, reprodutora da percepção e da memória. Desta associação, surge a imaginação criadora do Artista Ficcional sertanejo, retirada de sua própria solidão do homem do século XX há muito apartado dos valores primários. O Criador Literário refaz a imaginação infantil, uma imaginação intermediária entre as pulsões inconscientes e as primeiras imagens que afloram na consciência. Surge, assim, um discurso diferente, insólito, renovando os arquétipos inconscientes da criança, aquela que reinventa o itinerário de aventuras do Audaz Navegante.

Inspirado pela linguagem inerente à criança, o narrador roseano remodela a linguagem ficcional, enriquecendo-a com as recordações da infância. A narrativa surpreende e encanta, porque o leitor refaz também os primórdios de seu próprio passado. Todas as mamães se transformam em fadas, surgindo inesperadamente - de contra-flor -, para socorrerem seus filhinhos.

O sonhador de um imaculado sertão (perfeição = matéria épica digladiando com a forma ficcional do século XX), distante temporalmente de sua realidade imediata, reinventa seu infantil passado inesquecível, as possibilidades perdidas, os sonhos revividos nos momentos de solidão.

“No sonho, as palavras reencontram amiúde o seu sentido antropomórfico profundo. Aliás, pode-se observar que a modelagem inconsciente não é coisista; é animalista. A criança entregue a si mesma modela a galinha ou o coelho. Cria vida” (Bachelard).

As palavras remodelam o homem e a vida, refazem as imagens do inconsciente, dão substância aos pensamentos e, aqui, dão substância aos pensamentos de um criador ficcional que se apossa engenhosamente do universo infantil. A modelagem inconsciente, retirada dos sonhos da infância, faz o leitor-eleito retornar às alegrias primeiras da descoberta da vida. Nessa região psíquica, entre as pulsões inconscientes e as primeiras imagens da consciência infantil, o narrador-mirim de um sertão imaculado, avatar do narrador moderno (submetido diariamente a experiências comunitárias conflitantes), recria seu antigo mundo familiar, transformando uma manhã de chuva normal em uma narrativa onírica e poética, propulsora de profundas meditações para esse mesmo leitor.

(neumac@oi.com.br)