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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

3 – MUNDO RURAL DESAGREGADO: TEMA DOS ESCRITORES BRASILEIROS DAS DÉCADAS DE 30 E 40 (SÉCULO XX)

NEUZA MACHADO


É também esse mundo rural desagregado que passou a ser o tema dos escritores das décadas de 30 e 40. A literatura desse período, segundo Antônio Cândido, estava centralizada na “dialética do localismo e do cosmopolitismo, manifestada pelos modos mais diversos[1]. E é nesse período também (1946) que Guimarães Rosa publicou Sagarana, uma coletânea de contos, na qual, excetuando A hora e vez de Augusto Matraga, se observou o “nacionalismo literário”, ou seja, a recriação do dialeto caipira, e o “inconformismo[2], em outras palavras, a rejeição a padrões preestabelecidos.

A idéia de “localismo e cosmopolitismo” na obra roseana da primeira fase se sobressai, porque o autor, a partir daquele momento, procurou valorizar um determinado espaço geográfico, mas, idealizou também, como diz Antônio Cândido, “um compromisso mais ou menos feliz de expressão com o padrão universal
[3].

Nas fases seguintes, a partir de A hora e vez de Augusto Matraga, espécie de narrativa-embrião de Grande Sertão: Veredas, não mais se observou o sertão roseano como um determinado local, pois o mesmo se transmudou em autêntico espaço universal.

Repensando a ENTREVISTA de Guimarães Rosa ao crítico Günter Lorenz (1965), percebe-se uma ligação fortíssima do escritor com suas origens européias. Na Entrevista ele afirmou que uma parte de sua família, pelo sobrenome, reportava-se a uma “origem portuguesa, mas na realidade [seria] um nome suevo que na época das migrações era Guimaranes, nome que também designava a capital de um estado suevo da Lusitânia
[4]. Afirmou ainda que, pela sua origem, estava “voltado para o remoto, para o estranho”.

Se as narrativas de Sagarana, excetuando, como já foi dito, a narrativa A hora e vez de Augusto Matraga, procuraram realçar o sertão mineiro (cf: “O burrinho pedrês”, “Sarapalha”, “São Marcos” e outras), as narrativas seguintes se ligaram a este aspecto remoto e estranho de suas origens. O sertão roseano, criado a partir de A hora e vez de Augusto Matraga, perdeu o aspecto de local para atingir o universal, porque, diferente do sertão de Minas, e ligado às transmutações vivenciais de seu criador, transformou-se em produto de uma mente já citadina e individual, auto-reflexiva e especulativa. Na verdade, este sertão da segunda fase de Guimarães Rosa, não se ligava ao “localismo literário” da década de 40, e muito menos procurava criar uma língua diversa com o intuito de se opor a padrões preestabelecidos. A linguagem sertaneja, ou a língua que se fala [ficcionalmente] no universo roseano, tende para o universal, porque metafisicamente caracteriza um espaço ligado ao plano da eternidade e da solidão, como o próprio Guimarães Rosa admitiu na ENTREVISTA.

"Goëthe nasceu no sertão, assim como Dostoievski, Tolstoi, Flaubert, Balzac; ele era, como os outros que eu admiro, um moralista, um homem que vivia com a língua e pensava no infinito. Acho que Göethe foi, em resumo, o único grande poeta da literatura mundial que não escrevia para o dia, mas para o infinito. Era um sertanejo".

"Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Göethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade e da solidão, onde Inneres und Äusseres sund nicht mehr zu trennen (“O interior e o exterior já não podem ser separados”)".
[5]

Nestas palavras não se observa o “conformismo” de quem fez/faz parte de uma sociedade subdesenvolvida, “conformismo” que caracterizava uma parte dos escritores do período de 1900 a 1945, porque o escritor, naquele momento, já se transformara em cidadão do mundo.

"Conheço bastante bem a literatura alemã. Por exemplo, o Simplizissimus é para mim muito importante. Amo Göethe, admiro e venero Thomas Mann, Robert Musil, Franz Kafka, a musicalidade de pensamento de Rilke, a importância monstruosa, espantosa de Freud. Todos estes autores me impressionaram e me influenciaram muito intensamente, sem dúvida. Entretanto, não sei o que fazer com autores mais jovens como Brecht. Todos eles perderam o sentido da metafísica da língua, todos eles se tornaram pregoeiros e deixaram de lado a alma, considerando-a fora de moda, em desacordo com a época e acreditando que o homem seria apenas um Wolfsburg-Mensch (“Homem de Wolfgsburg”)".
[6]

O escritor de substâncias mineiras se transformou em cidadão do mundo, e teve consciência de que recebeu influências européias. Como todos os escritores de sua geração, recebeu influências, como ele mesmo afirmou, mas em sua literatura não há a imitação consciente de padrões europeus, comportamento normal no período da noção aguda do subdesenvolvimento, segundo Antônio Cândido. Não seria correto procurar tal atitude em Guimarães Rosa. O que posso destacar, nesse sentido, estaria ligado a valores metafísicos e universais. Se houve influências que, em outros casos, induzem à imitação, tais influências se transmudaram em criatividade própria, a partir do momento em que atingiu o patamar da consciência pura
[7].

Ainda reconsiderando as palavras de Guimarães Rosa ao crítico Lorenz com atenção, vejo que quem fez todas aquelas preleções sobre a literatura alemã não foi o sertanejo, o nativo do sertão mineiro, foi o intelectual que alcançou o repouso reflexivo, de acordo com as teorias bachelardianas (op. cit.), repouso este que precedeu ao despertar de sua consciência individual.

Por minha parte, se penso em seu narrador de A hora e vez de Augusto Matraga e nos narradores das fases seguintes, vejo que, induzidos pelo ficcionista, assumiram o caminho individual que os levaria, logo a seguir, à auto-reflexão, a tal qualidade essencial exigida para se chegar ao objetivo individual, qualidade esta que caracteriza o indivíduo inteligente.


[1] CÂNDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. São Paulo: Nacional, 1980: 109
[2] Ibidem
[3] Ibidem
[4]ROSA, João Guimarães. In.: ARTE EM REVISTA. “Literatura e Vida” – Ano I – no 2, maio/agosto, 1979. Publicação do Centro de Estudos de Arte Contemporânea, p. 7
[5] Idem, p. 13 (Tradução da frase em alemão: “O interior e o exterior já não podem ser separados”)
[6] Idem: 14 (Tradução da expressão em alemão: “Homem de Wolfgsburg” = símbolo da civilização técnica)
[7] Cf. BACHELARD, Gaston. A dialética da duração. São Paulo: Ática, 1988.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

2 – COLONIZAÇÃO MENTAL: SERÁ QUE O BRASIL CONTINUA ASSIM?

NEUZA MACHADO


"Com o passar do tempo, dera-me conta de que a fraqueza maior do Terceiro Mundo estava no plano das idéias: éramos colonizados mentalmente, por um lado, e por outro permanecíamos prisioneiros de velhas doutrinas “revolucionárias” que haviam passado de moda nos centros metropolitanos".[1]

Revistando a História e observando as idéias de Celso Furtado, Sérgio Buarque de Holanda e Antônio Cândido, penso que esta colonização mental surgiu a partir de 1939, no decorrer da 2a Guerra Mundial, com o advento do fascismo, do nazismo, e, principalmente, com a elevação dos Estados Unidos em primeira potência mundial. Se o Brasil já era um “país colonizado”, historicamente mal formado, não foi difícil a “colonização mental”, a submissão às idéias externas, diferentes de sua própria realidade.

E foi a partir daí que o Brasil se industrializou e os camponeses começaram a abandonar o campo, buscando melhores condições de vida na cidade. Com isto, os centros urbanos mais visados pelos emigrantes — principalmente, os do Nordeste — se transformaram em cidades superpovoadas, redutos de miséria e degeneração. Nesse ínterim, enquanto o Brasil foi se aburguesando e se submetendo à “colonização mental”, os intelectuais (alguns) procuraram se refugiar na religião, a cultura procurou refletir os problemas do país, os artistas desenvolveram ideais políticos, enfim, a realidade brasileira passou a ser desnudada por uma minoria consciente.

"No dia em que o mundo rural se achou desagregado e começou a ceder rapidamente à invasão impiedosa do mundo das cidades, entrou também a decair, (...), todo o ciclo das influências ultramarinas específicas de que foram portadores os portugueses".

"Se a forma de nossa cultura ainda permanece largamente ibérica e lusitana, deve-se atribuir-se tal fato sobretudo às insuficiências do “americanismo”, que se resume até agora, em grande parte, numa sorte de exacerbamento de manifestações estranhas, de decisões impostas de fora, exteriores à terra. O americano ainda é interiormente inexistente".[2]

Esta desagregação do mundo rural começou no século XIX e atingiu seu ápice nos dois decênios iniciais do século XX. Assim, as reflexões de Sérgio Buarque de Holanda se ajustaram às de Antônio Cândido e Celso Furtado, quanto ao momento em que se iniciou, no Brasil, a consciência de subdesenvolvimento. É importante observar que Sérgio Buarque de Holanda já falava em “decisões impostas de fora” bem antes de Celso Furtado, se comparo as datas em que ambos raciocinaram sobre os problemas internos do Brasil.

[1] Idem: 14
[2] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 11. Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977: 127

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

1 - SÉCULO XX NO BRASIL: APRENDENDO A ADMINISTRAR CONFLITOS


NEUZA MACHADO



SERÁ QUE O BRASIL CONTINUA ASSIM?



CELSO FURTADO E AS ESTRUTURAS DO PODER MUNDIAL NOS ANOS 80



O avanço político, que é o mais difícil e importante de todos que logra o homem, faz-se aprendendo a administrar conflitos. Daí que só as sociedades democráticas o realizem com segurança. Trata-se de manter a sociedade aberta, num mundo de crescente interdependência, preservando e exercendo a capacidade de auto-governo. É um problema com mais incógnitas do que equações. Mas será que existe solução para todos os problemas que envolvem o destino dos homens?[1]

Em Os ares do mundo (publicado em 1991), Celso Furtado procurou reexaminar as estruturas do poder mundial (principalmente, as estruturas do poder dos Estados Unidos da América do Norte, naqueles anos bélicos) e as consequências desse domínio na questão desenvolvimento-subdesenvolvimento, questão esta que até hoje incomoda vários países subdesenvolvidos, estando longe de ser solucionada. Refletindo sobre a dependência a que estavam submetidos os países do chamado Terceiro Mundo, “presos na armadilha do subdesenvolvimento
[2], dominados por grandes potências mundiais, e reexaminando as substâncias ideológicas que estruturavam essas camadas de poder, Celso Furtado questionou os problemas dos países subdesenvolvidos, e, naquela época, incluindo o Brasil, e se perguntou, no primeiro capítulo de suas reflexões, “que rumo tomar?”[3]

Em um país hierarquizante ― nos anos finais do século XX ― onde uma minoria possuía as armas para dominar os menos favorecidos socialmente, minoria esta que também se submeteu a poderes externos, foi impossível (para a maioria dos brasileiro) parar para pensar o rumo a ser seguido. Na verdade, o povo, naquele momento, foi levado caoticamente pelas engrenagens de um poder cujas bases repousavam fora de seus limites sócio-existenciais.

Repensando o início da História do Brasil, constato que esta pergunta, “que rumo tomar?”, poderia ser formulada a partir do próprio desenvolvimento histórico-social do país. O próprio Celso Furtado informou que “as lutas sociais do século XX [foram] caudatárias de ideologias concebidas nos dois séculos anteriores, particularmente no XIX”.
[4] Com pesar, o sociólogo reconheceu que essas lutas não conseguiram reconstruir as estruturas inicialmente mal elaboradas. E foi exatamente esta mal-formação social que impediu (até o final dos anos noventa) a tão desejada autonomia ao Brasil, e que ainda impede os atuais países subdesenvolvidos (em termos gerais) de se elevarem economicamente.

Observando especificamente o Brasil, um país que foi ao longo de sua história marcado politicamente por etapas conflituosas, é possível (ainda hoje, décimo ano do século XXI) raciocinar a impossibilidade de aprender a administrar conflitos, incapacidade esta que o atinge continuamente, apesar dos esforços de alguns brasileiros valorosos, os quais lutam aqui mesmo, em território nacional, para que as mudanças positivas sejam realizadas (evidentemente, estou aqui aludindo a uma consciente minoria politizada).

Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, por sua vez, desnudou o modo de ser do homem brasileiro, a sua cordialidade; desnudou o caráter de quem herdou, historicamente, uma personalidade paradoxal misto de trabalho e aventura. Com ele, observo que o princípio do Brasil não favoreceu o desenvolvimento de uma aprendizagem segura, pois as condições naturais do país, naquele início, aliadas ao domínio de um povo, no qual o culto da personalidade impelia à separação ao invés da união, impediram tal aprendizagem. Assim, atrevo-me a falar da dificuldade do brasileiro de classes privilegiadas em aprender a administrar conflitos. Ainda hoje (reafirmo: início de século XXI), com os progressos já visíveis aqui em nossa Aldeia Particular, com o Brasil já galgando um patamar vitorioso, percebo esta quase impossibilidade de achar a solução para os problemas políticos/sociais que envolvem o destino da Nação Brasileira. Continuamos colonos, pior ainda, colonos mentais.

No que se relaciona à literatura, esta sempre procurou refletir esses problemas. Conscientemente ou intuitivamente os escritores brasileiros, cada qual submetido a sua linha estética, registraram as suas impressões, desenvolvendo considerações sobre a realidade que os cercava.

Antônio Cândido em Literatura e subdesenvolvimento ressaltou a idéia de Mário Vieira de Mello, sobre as duas fases que predominaram no Brasil no âmbito da literatura — a idéia de “país novo”, até 1930, e, posteriormente, de “país subdesenvolvido” —, e como os escritores de cada fase viram a realidade circundante. Desde o Descobrimento, os escritores elaboraram uma literatura exaltada e utópica, celebrando as belezas naturais e pouco se preocupando com os problemas sociais. A partir de 1930 surgiu a conscientização dos problemas e esta conscientização possibilitou uma repercussão que provocou a noção clara do subdesenvolvimento. A partir daí, arrefeceu-se a euforia inicial, a linguagem de celebração, a idéia de “terra bela - pátria grande”, e os escritores passaram a desenvolver uma ficção centralizada em uma visão pessimista, na qual afloraram a miséria e a incultura.


[1]FURTADO, Celso. Os ares do mundo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991: 16
[2] Idem: 15
[3] Idem: 19
[4] Idem: 15

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

XV - A TRANSMUTAÇÃO DISCURSIVA DO NARRADOR



XV - A TRANSMUTAÇÃO DISCURSIVA DO NARRADOR

NEUZA MACHADO


Urge quebrar esta monotonia, esta repetição de modelos. Faz-se necessário tomar a vez do herói, sair das comunidades fechadas, abandonar a narrativa sintagmática e assumir a narração de uma estória na qual a desintegração discursiva reflita o mundo caótico que circunda o espaço fechado do sertão e que não se encontra significado pelo narrador. Já não há lugar para a unidade narrativa. Quem narra já não se identifica com a matéria narrada. Encontra-se, agora, fragmentado, envolto por inúmeras recordações que se embaralham no mais fundo do eu. Aproxima-se o momento da verdadeira “queda” do herói — a morte ideológica — e o nascimento do personagem ficcional. Aproxima-se o momento da permutação de papéis. Agora, o herói é o narrador, semideus com poderes de vida e de morte. O poder de Nhô Augusto é transferido para o narrador moderno, e o poder do Artista ficcional também. Agora, o narrador é o autêntico representante do mundo burguês, retendo em suas mãos a condução da narrativa. Todo poder é poder de vida e de morte. A hora e vez do personagem Augusto Matraga depende do narrador, porque reflete o poder do Artista ficcional do século XX. O narrador submete o personagem a seus desígnios. Retomando Foucault: Como quando um general manda seus soldados para a guerra. O narrador, a partir de agora, será o único dono de um discurso narrativo que reflete as condições de seu momento histórico. Doravante, apenas o personagem Nhô Augusto continuará aparentemente o mesmo.

Esta transformação discursiva impõe-me raciocinar sobre a morte simbólica do narrador memorialista e o nascimento do narrador moderno. Este “sepulta” a lembrança (matéria memorialista) e faz surgir insólita recordação (matéria lírica) de um mundo que foi seu leitmotiv de vida — leitmotiv de vida do Artista —, mundo que, agora, encontra-se desintegrado, embaralhado, em suas recordações. Simbolicamente, repito, morre o narrador memorialista e nasce o narrador-personagem, narrador do século XX, aquele que sabe dos mais íntimos pensamentos do Artista.

Nhô Augusto continua no caminho religioso, pois teme não alcançar o Reino do Céu. No decorrer da narrativa, ele continua a pagar por suas culpas — as culpas burguesas do narrador.

Tenho é que ficar pagando minhas culpas, penando aqui mesmo no sozinho. Já fiz penitência estes anos todos, e não posso ter prejuízo deles. Se eu quisesse esperdiçar essa penitência feita, ficava sem uma coisa e sem outra.
[1]

O homem das comunidades antigas não conheceu o ônus da culpa. O personagem já não representa as antigas comunidades fechadas. Agora, o personagem — ficcional — revela seu Criador.

O personagem perseverou, mas começou a mudar as suas atitudes. Começou uma espécie de retomada do poder primitivo, mas de uma forma que não abalasse a sua consciência (a consciência burguesa do narrador).

... pouco a pouco, devagarinho, imperceptível, alguma coisa pegou a querer voltar para ele, a crescer-lhe do fundo para fora, sorrateira como a chegada do tempo das águas, que vinha vindo paralela.
[2]

Começou a mudar. Estava mais alegre e mais brejeiro. Estava mais poderoso.

Aí, então, tudo estava mesmo muito mudado, e Nhô Augusto, de repente, pensou com a idéia muito fácil, e o corpo muito bom. Quis se assustar, mas se riu:

— Deus está tirando o saco das minhas costas, mãe Quitéria! Agora eu sei que ele está se alembrando de mim...
[3]

Retomou os hábitos antigos, que havia rejeitado: a preguiça, o fumo. Não era pecado... o que ele devia era ficar alegre, sempre alegre
[4]; ter alegria não era pecado. Era uma “alegria” nietzscheana.

Consideremos a frase do personagem: Deus está tirando o saco das minhas costas, mãe Quitéria! Agora eu sei que ele está se alembrando de mim. Seria este o Deus dogmático que castiga e impõe preceitos de vida, ou o demiurgo do ficcional? Antes, o narrador não teve acesso aos pensamentos de Nhô Augusto, doravante, conhecerá todas as gradações psicológicas de sua vida interior.

Aí, então, tudo estava mesmo muito mudado, porque tudo mudara no plano do discurso narrativo. Quebrou-se a monotonia do discurso ordenado; instaurou-se o “reinado” do discurso desencontrado (diferente, poético, ilógico). O insólito em Guimarães Rosa, encontra-se ao nível do discurso.

Para reafirmar sua transformação discursiva, o narrador faz surgir, nesse momento de impasse da narrativa, a figura de seu Joãozinho Bem-Bem e seu bando. Vinham do Norte.
[5]

Vinham do Norte. A palavra “Norte” como significante de espaço ficcional. O arraial do Tombador seria o espaço intermediário, onde se daria o encontro dos dois personagens, representantes de dois planos narrativos diferentes: Nhô Augusto, herói do plano histórico-substancial, resgatado pela narrativa memorialista, caminhando em direção ao plano ficcional simbolizado pela palavra “Norte” — mundo ficcional — e adquirindo temporariamente existência histórica movido por substâncias ideológicas. Nhô Augusto, ao se transformar em carismático, encaminhou-se também para o Norte (do sertão), juntamente com seus pretos tutelares. Observe-se que o narrador apresenta um personagem de ficção, ao caracterizar a figura de seu Joãozinho Bem-Bem. No início (primeiro segmento da narrativa), quando apresentou a figura de Nhô Augusto, ele estava preso à lógica da História, submetido às imposições da memória. Ao apresentar a figura de seu Joãozinho Bem-Bem, isto não acontece. O narrador já se libertou.

O bando desfilou em formação espaçada, o chefe no meio. E o chefe — o mais forte e o mais alto de todos, com um lenço azul enrolado no chapéu de couro, com dentes brancos limados em acume, de olhar dominador e tosse rosnada, mas sorriso bonito e mansinho de moça — era o homem mais afamado dos dois sertões do rio: célebre do Jequitinhonha à Serra das Araras, da beira do Jequitaí à Barra do Verde-Grande, do Rio Gavião até aos Montes-Claros, de Carinhanha até Paracatu, maior do que Antônio Dó ou Indalécio; o arranca-toco, o treme-treme, o come brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arranca: Seu Joãozinho Bem-Bem.
[6]

O poder de seu Joãozinho Bem-Bem é especial: como já foi observado em sua descrição, irradiava também uma luz carismática (lenço azul, dentes brancos). Mas não carisma religioso. Seu carisma provinha de sua força, destemor, coragem e desapego a bens materiais (carisma guerreiro). Brigava e matava, mas só se houvesse motivos. Apadrinhava as brigas dos amigos ou, então, brigava e matava por motivo de política. Seus homens o obedeciam cegamente e, se fosse preciso, morreriam por ele. Costumava dizer: Gente minha só mata as mortes que eu mando, e morte que eu mando é só morte legal!
[7]

Como todo ser carismático, vivia só, desvencilhado dos laços familiares, não ligava para as mulheres. E as moças... Para mim não quero nenhuma, que mulher não me enfraquece: as mocinhas são para meus homens!
[8]

O narrador se vale deste novo personagem, para operar as modificações necessárias no plano do discurso. Agora, Nhô Augusto se encontra envolvido por atitudes de vida conflitantes, incertezas quanto ao futuro. O aspecto moral da narrativa memorialista desaparece e o narrador se esforça por ordenar o desarticulado. Os conflitos e incertezas refletem a desorientação (nomenclatura de Walter Benjamin) do discurso do narrador. Se antes as etapas de vida eram previsíveis, agora nem mesmo o narrador saberá como se dará o desfecho. Ninguém, inclusive o leitor, saberá prever o que virá a seguir. O narrador, a partir da chegada de seu Joãozinho Bem-Bem e seu bando, vai esforçar-se ao máximo para dar sentido às sensações que o incomodam e que acontecem em seu mundo ficcional.

Com a chegada de seu Joãozinho, a tentação voltou a perseguir Nhô Augusto. Seu Joãozinho percebeu que o dono da casa não era tão pacífico como demonstrava, e começou a tentá-lo, para que retornasse às brigas. Este provou novamente as delícias do poder: pegou em arma, atirou em um pássaro para experimentar a pontaria (para exercitar o seu poder). Logo depois se arrependeu e retomou a rezaria. Ficou triste novamente, acabrunhado. Na hora da partida do bando, seu Joãozinho ainda tenta convencer Nhô Augusto.

Mano Velho, o senhor gosta de brigar, e entende. Está-se vendo que não viveu sempre aqui, nesta grota, capinando roça e cortando lenha. (...) Quer se amadrinhar com o meu povo? Quer vir junto?

— Ah, não me tenta, que eu não posso, seu Joãozinho Bem-Bem.
[9]

À interferência do jagunço, está conflituado. Seria o antigo poder lhe corroendo a alma? Era só falar, era só bulir com a boca que seu Joãozinho Bem-Bem e seu bando acabavam com o major Consilva. Mas — qual! — aí era que se perdia mesmo, que Deus o castigava com mão mais dura...
[10]

Nhô Augusto se percebe atado à sua antiga penitência. — Agora que eu principiei e já andei um caminho tão grande, ninguém me faz virar e nem andar de-fasto!
[11]

Lukács fala do indivíduo problemático do romance moderno e do mundo que o cerca. Como imaginar Nhô Augusto um personagem conflituado, se se conhece a pureza de seu espaço existencial? Ora, personagem e espaço, no sertão roseano, são puros. O narrador, no momento personagem atuante, é quem reflete o impuro mundo moderno. Ele perde contato com a pureza primitiva do sertão, perde contato com as idéias disseminadas pela experiência de um povo ímpar. A aspiração do personagem, de ter a sua hora e vez, está problematizada, porque o problemático, e solitário, é o narrador. Este sim, é o indivíduo ilhado em um mundo de conformismo e convenção. Quem busca valores humanos autênticos e não os encontra? O narrador. Ele conheceu um imaculado sertão e era também um imaculado ser. Posteriormente, conheceu o mundo e seus valores inautênticos, e degradou-se. Buscou novamente a autenticidade do sertão, por meio das lembranças, da memória, mas não conseguiu encontrá-la. Na primeira etapa da narrativa memorialista (não confundir com narrativa de memórias), deixa entrever momentos de degradação nos personagens. Suas lembranças se encontram maculadas pela degradação do mundo moderno. Afastando-se do sertão, rompe com o primitivo.

Lembremos as afirmações de Rosa ao crítico Lorenz:

Não me interessa o dinheiro: venho de um mundo onde ele não adianta muito; lá se necessita de pão, armas, cavalos, e ainda se pratica o comércio da troca.
[12]

Comércio de troca para Guimarães Rosa eqüivale aos “valores de uso” assinalados por Marx. Seu narrador, em A hora e vez de Augusto Matraga, é paradoxal, porque expressa seus próprios paradoxos existenciais.

Por esta ótica, é possível compreender o desejo de poder do major, tentando aniquilar o poderio de Nhô Augusto; a ambição por dinheiro dos bate-paus (diz pra Nhô Augusto que sol de cima é dinheiro!). Por esta ótica, será possível afirmar que a narrativa capta a transição entre o mundo primitivo e o mundo burguês capitalista.

Em meio a plenitude de vida, e através da representação dessa plenitude, o romance dá notícia de quem vive.
[13]

Retomo o já dito:

Até um determinado momento, o narrador reproduz a trajetória de vida de alguma figura influente (ou o personagem é o somatório de várias figuras influentes) e, de cuja história o mesmo teve conhecimento por intermédio dos relatos dos antigos. Posteriormente, passa a criar a trajetória de vida do personagem.

Diz Benjamin: A experiência que anda de boca em boca é a fonte onde beberam todos os narradores.
[14]

Palavras de Guimarães Rosa:

Nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias, já no berço recebemos esse dom para toda a vida.
[15]

Narrar estórias corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens.
[16]

Depois da intervenção do personagem Tião, o próprio narrador não tem mais controle sobre o desenrolar dos acontecimentos. Por estas razões, o discurso se torna diferente, estranho, insólito; apreende-se nele o que Walter Benjamin chama de “desorientação verbal”.

Retomando agora o fio narrativo, verei um personagem novamente em vias de mudança. O narrador diz que Nhô Augusto não percebia os rumos que tomava. Isto, porque o Criador ficcional e sua criatura se estão transformando.

Nhô Augusto começa a sentir saudade da antiga vida, das mulheres. O lado mundano recomeça a latejar em seu sangue. Está mudado, mas não desiste de seu propósito: — Cada um tem a sua hora, e a minha vez há de chegar!

Esta frase daqui para frente será o único elemento que sustentará o fio narrativo.

Um dia resolve voltar.

Volta sozinho. O líder carismático readquire a pele do poder social? Não penso assim. A lógica do Acontecimento comandará a narrativa de ora em diante. Volta só, porque apenas os carismáticos necessitam de discípulos, e ele já abandonou este revestimento. Volta em um jumento à imitação de Jesus. Ainda possuindo seus dons, pois que os adquirira por mérito; tanto os possuía que todos sentiram a partida. Seu desejo de salvação continua intacto, mas não suporta o peso do carisma. — Qualquer paixão me adiverte!... Oh coisa boa a gente andar solto, sem obrigação nenhuma e bem com Deus!...
[17]

Andar solto, sem obrigação nenhuma, livre dos limites substanciais e normativos, sob o comando dos imprevistos, do não-conhecido, e, principalmente, bem com Deus.

Esse novo deus diferente do antigo: depois da partida de seu Joãozinho, observa-se uma crítica do narrador, quando este mostra Nhô Augusto a lamentar não ter aceitado o oferecimento, para, com isto, vingar-se de seus inimigos. Mas, reconhece que se agisse movido pela vingança, Deus o castigava com mão mais dura.
[18]

E só então foi que ele soube de que jeito estava pegado à sua penitência, e entendeu que essa história de se navegar com religião, e de querer tirar sua alma da boca do demônio, era a mesma coisa que entrar num brejão, que, para a frente, para trás e para os lados, é sempre dificultoso e atola sempre mais.
[19]

Para solucionar o impasse, o narrador recorre à imaginação. Agora, já tem acesso à interioridade de sua criatura:

Á noite, tomou um trago sem ser por regra, o que foi bem bom, porque ele viajou, do acordado para o sono, montado num sonho bonito, no qual havia um Deus valentão, o mais solerte de todos os valentões, assim parecido com seu Joãozinho Bem-Bem, e que o mandava ir brigar, só para lhe experimentar a força, pois que ficava lá em-cima, sem descuido, garantindo tudo.
[20]

Graças ao sonho, Nhô Augusto entra em contato com um deus que garante tudo, passa a andar solto e bem com Deus, um deus valentão que o mandava brigar só para experimentar-lhe o poder.

O narrador também está solto, sem obrigação nenhuma e sob as ordens desse deus-que-garante-tudo.

Mudanças ocorrem no discurso. O narrador se deixa contagiar pelas minúcias do mundo externo do sertão que estão recolhidas em seu íntimo. Recolhe os fragmentos de suas lembranças, transformando-as em acontecimentos. Há uma superabundância de pensamentos que se entrechocam e se ajustam, e o discurso retórico (característica do literário, segundo Lefebve
[21]) impõe suas diretrizes.

De repente, na altura, a manhã gargalhou: um bando de maitacas passava, tinindo guizos, partindo vidros, estralejando de rir. E outro. Mais outro. E ainda outro, mais abaixo, com as maitacas verdinhas, grulhantes, gargalhantes, incapazes de acertarem as vozes na disciplina de um coro.

E agora os periquitos, os periquitinhos de guinchos timpânicos, uma esquadrilha sobrevoando outra... E mesmo, de vez em quando, discutindo, brigando, um casal de papagaios ciumentos. Todos tinham muita pressa: os únicos que interromperam, por momentos, a viagem, foram os alegres tuins, os minúsculos tuins de cabecinhas amarelas, que não levam nada a sério, e que choveram nos pés de mamão e fizeram recreio, aos pares, sem sustar o alarido — rrrl, rrril! rrrl-rrril!...
[22]

O insólito da ficção em nível de discurso textual: os fonemas r, i, l agrupados de forma a caracterizarem o alarido dos tuins. Por que a manhã gargalhou com a revoada dos pássaros?

Mas o que não se interrompia era o trânsito das gárrulas maitacas. Um bando grazinava alto, risonho, para o que ia na frente: — Me espera!... — E o grito tremia e ficava nos ares, para outro escalão, que avançava lá atrás.
[23]

Os estranhamentos, em nível de discurso, nas transformações sofridas pelo narrador e pelo narrado. Estes se encontram sob as exigências do mágico mundo ficcional e todas as contribuições poéticas serão bem-vindas. A mimésis literária ficcional se sobressai apenas no texto visível. Nhô Augusto é um simples receptor das variações mentais de quem narra. Agora, o discurso é poético, repleto de metáforas, antíteses e estranhamentos. Agora, o narrador faz seu personagem cantar velhas cantigas e encantar-se com a natureza.

Os estranhamentos, o insólito irrompendo do texto:

E Nhô Augusto pegou a cantar a cantiga, muito velha, do capiau exilado:

“Eu quero ver a moreninha tabaroa,
arregaçada, enchendo o pote na lagoa...”


Cantou, longo tempo. Até que todas as asas saíssem do céu.
[24]

“Asas” conotando “pássaros”. “Asas” impondo a visualização da grandiosidade do espetáculo do bando de maitacas, maracanãs e tuins voando em direção ao sul, em períodos cíclicos. (Futuramente, ao Sul: ele vai tentar o retorno, mas não conseguirá).

Outro estranhamento. Depois que os pássaros passam, ele raciocina: Não passam mais... Ô papagaiada vagabunda! Já devem de estar longe daqui...
[25] A seguir, observa-se a perplexidade do narrador, comandando o ato de narrar: Longe, onde?[26], se não há distâncias geográficas no mundo da ficção. Eis o insólito. Há uma intercalação de versos, através do ato de cantar de Nhô Augusto.

“Como corisca, como ronca a trovoada,
No meu sertão, na minha terra abençoada...”
[27]

O narrador apresentara um bonito dia ensolarado. Novamente, impõe sua perplexidade, diante de uma descoberta que se delineia subjetivamente, ainda incubada: Longe, onde? Intercala outros versos, obrigando o leitor a perceber um discurso insólito.

“Quero ir namorar com as pequenas,
com as morenas do Norte de Minas...”
[28]

Como desejar namorar as morenas do Norte de Minas, se ele se encontra no Norte? Longe, onde, então?

“Norte” é o mundo ficcional. No literário não há fronteiras (Longe, onde?), não há distancias temporais, não há imposições lingüísticas, não impera a lógica da razão. Longe, onde?, se tudo é possível em um mundo de um deus-que-garante-tudo.

O personagem, agora, é o somatório de todos os heróis, quer sejam humanos ou literários: Jesus, cavaleiro medieval, cavaleiro andante, Quixote, pícaro. Seu retorno é pautado por acontecimentos díspares, poéticos e insólitos. Não há metas a alcançar, não há pressa de se chegar a um determinado sítio. A viagem de Nhô Augusto, de volta ao seu local de origem, é um passeio poético, passeio do narrador, visitando as recordações do sertão misturadas às lembranças de antigas narrativas. Para não se afastar totalmente do mundo da ficção, se vale do burrico, a montaria de Nhô Augusto, deixando a critério do animal os rumos da viagem (da narrativa). A “desorientação verbal” (cf. Benjamin) demonstra a impossibilidade de se desenvolver uma narrativa memorialista em um mundo que já perdeu suas características comunitárias. Assim, Nhô Augusto, solto e bem com “deus”, sofre um novo imprevisto.

Mas, somadas as léguas e deduzidos os desvios, vinham eles sempre para o sul, na direção das maitacas viajoras. Agora, amiudava-se o aparecimento de pessoas – mais ranchos, mais casas, povoados, fazendas, depois, arraiais brotando do chão. E então, de repente, estiveram a muito pouca distância do arraial do Murici.

— Não me importo! Aonde o jegue quiser me levar, nós vamos, porque estamos indo é com Deus!...

E assim entraram no arraial do Rala-Coco, onde havia, no momento, uma agitação assustada no povo.
[29]

Se antes o arraial do Tombador se caracterizou como espaço intermediário para a permutação de papéis dos personagens, ou seja, Nhô Augusto saindo do Histórico para o Ficcional, e seu Joãozinho saindo do ficcional para adquirir existência histórica, agora, se dá o contrário, no arraial do Rala-Coco: Nhô Augusto quer reconquistar seus poderes históricos, retornando ao arraial do Murici, seu espaço de origem. Seu Joãozinho procura retornar ao Ficcional, de onde “aparentemente” havia saído. Ao mesmo tempo, também, o narrador e o personagem permutam seus papéis na estória narrada. Seu Joãozinho jamais saiu do ficcional. O ficcional como um espelho refletindo o real-substancial. Na opacidade do espelho, ao contrário do vidro e sua natureza translúcida. Caminhando em direção ao Sul, Nhô Augusto, em verdade, caminha sempre em direção ao “Norte”, ou seja, torna-se personagem ficcional. Ele não volta, não retoma o Histórico. A respeito de seu Joãozinho, e suas proezas históricas, o narrador abstém-se de falar. Percebe-se que ele está retornando para o Norte (descendo para a Bahia...
[30]), depois de ter ajudado a um amigo, e sua condição de personagem ficcional continua inalterada. O arraial do Rala-Coco (plano intermediário) é o lugar onde se dá o reencontro. O arraial em questão, ligado às três dimensões: social, mítica e ficcional, está a pouca distância do arraial do Murici, porque no mundo ficcional não existem fronteiras geográficas.

Os imprevistos se sucedem: a morte do Juruminho; novo convite de seu Joãozinho, para que Nhô Augusto faça parte do bando; oferecimento das armas de Juruminho, essa estava sendo a maior de suas tentações
[31]; recusa de Nhô Augusto; e, finalmente, o imprevisto central que desencadeará o desfecho da narrativa: a chegada do velho desvalido, que pede clemência para sua família, ameaçada por seu Joãozinho, por ter sido um de seus filhos o matador do Juruminho. Seu Joãozinho queria vingar-se da morte de seu capanga, matando um irmão do assassino e “presenteando” as irmãs a seu bando.

O velho pedia e implorava, e foi aos poucos despertando a consciência de Nhô Augusto (do narrador?). Em determinado momento, depois de implorar e não ser atendido, o velho tomou-se de fúria e enfrentou o jagunço: — Pois então, satanás, eu chamo a força de Deus pra ajudar minha fraqueza no ferro da tua força maldita!
[32]

E a força de deus aparece. O que vem a ser “força de Deus”?

A força de deus e o carisma recém-rejeitado continuavam incólumes no personagem. Nhô Augusto interfere:

— Não faz isso, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, que o desgraçado do velho está pedindo em nome de Nosso Senhor e da Virgem Maria! E o que vocês estão querendo fazer em casa dele é coisa que nem Deus não manda e nem o diabo faz!

Nhô Augusto havia falado; e a sua mão esquerda acariciava a lâmina da lapiana, enquanto a direita pousava, despreocupada, no pescoço da carabina.
[33]

Nhô Augusto havia falado! Esta assertiva prova o retorno do poder, um poder que já não se encontra sob as ordens da História. Nhô Augusto falou e acariciou a lâmina da lapiana e a carabina, dados irrefutáveis de poder: voz de comando, força física escorada por armas, transformação facial, ocasionada pelo esforço de se fazer obedecer. Poder da força de Deus; poder excepcional e carisma sustentado por um deus-que-garante-tudo.

Dera tom calmo às palavras, mas puxava forte respiração soprosa, que quase o levantava do selim e o punha no assento outra vez. Os olhos cresciam, todo ele crescia, como um touro que acha os vaqueiros excessivamente abundantes e cisma de ficar sozinho no meio do curral.
[34]

O discurso não é ideológico, continua ficcional.

Seu Joãozinho percebe o sério. No mundo das essências conflitantes, o enfrentar-se também não é sinal de estima?

O detonador da luta foi um capanga de seu Joãozinho, o Teófilo Sussuarana, homem bronco, que partiu para cima de Nhô Augusto. Este percebeu que a sua vez chegara: — Epa! Nomopadrofilhospritossantamém! Avança cambada de filhos-da-mãe, que chegou minha vez!
[35]

Seu Joãozinho reivindicou o direito de luta com Nhô Augusto sem interferência. E na epifania, na manifestação final: — Sai, Cangussu! Foge, daí, Epifânio! Deixa nós dois brigar sozinhos!.
[36]

Foi uma glória. Os dois sozinhos em luta. O povo observava à distância, enquanto as balas se entrecortavam, e as facas se entrechocavam. Nhô Augusto chamando o outro de “meu parente”. Eqüivalem-se, pois se ambos morrem.

No decisivo da narrativa, vê-se a força do poético:

— Se entrega, mano velho, que eu não quero lhe matar...
— Joga a faca fora, dá viva a Deus, e corre, seu Joãozinho Bem-Bem...
— Mano velho! Agora é que tu vai me dizer “quantos palmos é que tem do calcanhar ao cotovelo!...
— Se arrepende dos pecados, que senão vai sem contrição, e vai direitinho pra o inferno, meu parente seu Joãozinho Bem-Bem!
— Ui, estou morto...
[37]

Nhô Augusto esfaqueara mortalmente seu Joãozinho, mas também se vê ferido de morte.

Dois personagens poderosos se enfrentaram; dois personagens possuidores de idênticos dons. Não seria justo que um fosse o vencedor. Ambos perderam; ambos venceram. Como na matéria trágica, os dois têm igualmente razão — por isso se aniquilam. O ato da morte simboliza o renascimento, o “sentido de vida” perene só acessível por meio do imaginário.

Pelo ponto de vista sociológico, os dois não podiam fracassar, pois ambos eram forças do Poder. Nas teorias de Weber encontro algo que me reconduz a este momento.

Os fundadores das religiões mundiais e os profetas, bem como os heróis militares e políticos, são os arquétipos do líder carismático. Milagres e revelações, feitos heróicos de valor e êxitos surpreendentes são marcas características de sua estatura. O fracasso é a sua ruína.
[38]

Se ambos não podiam fracassar, a solução melhor foi a dupla morte dos dois personagens. A morte como uma espécie de redenção, de compensação. Os dois personagens seriam lembrados; aquela briga seria sempre lembrada.

O povo começava a idolatrar Nhô Augusto:

Foi Deus quem mandou esse homem do jumento, por mor de salvar as famílias da gente!...
[39]

E o velho choroso exclamava:

— Traz meus filhos, para agradecerem a ele, para beijarem os pés dele!... Não deixem este santo morrer assim... P’ra que foi que foram inventar arma de fogo, meu Deus?!...
[40]

Morrendo, o personagem do sertão roseano tinha o rosto radiante. Estava santificado e glorificado (nas esferas superiores do pensamento puro). Experimentou o Poder do Ontem Eterno, suportou a Força de Deus, e soube desenvolver seu carisma. Somado a tudo isto, um deus-que-garante-tudo, desconhecido e onírico, estivera ali, até o fim, dando sentido à sua vida ficcional. Sua hora havia chegado, ou por outra, já chegara há muito tempo, quando o narrador sertanejo do século XX abandonou o tom memorialista e “tomou a vez” do herói.


[1] Ibidem: 29
[2] Ibidem
[3] Ibidem: 30
[4] Ibidem
[5] Ibidem
[6] Ibidem: 31
[7] Ibidem: 34
[8] Ibidem: 48
[9] Ibidem: 37
[10] Ibidem: 38
[11] Ibidem
[12] ROSA (1979): 11
[13] BENJAMIN (1980): 60
[14] Ibidem: 58
[15] ROSA (1979): 8
[16] Ibidem
[17] ROSA (1986): 38
[18] Ibidem
[19] Ibidem
[20] Ibidem
[21] LEFEBVE, Maurice-Jean. Estrutura do discurso da poesia e da narrativa. Coimbra: Almedina, 1980.
[22] ROSA (1986): 39-40
[23] Ibidem: 40
[24] Ibidem
[25] Ibidem: 41
[26] Ibidem
[27] Ibidem
[28] Ibidem
[29] Ibidem: 44
[30] Ibidem: 45
[31] Ibidem: 47
[32] Ibidem: 48
[33] Ibidem
[34] Ibidem: 49
[35] Ibidem
[36] Ibidem: 50
[37] Ibidem
[38] WEBER (1979): 70
[39] ROSA (1976): 51
[40] Ibidem: 52


MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez. Rio de Janeiro: NMachado, 2006. (ISBN 85-904306-2-6)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

XIV - A AUTORIDADE DO DOM DA GRAÇA


XIV - A AUTORIDADE DO DOM DA GRAÇA

NEUZA MACHADO


Em A Hora e Vez de Augusto Matraga, o narrador abandona a proposta de narrativa centralizada no mítico (herói) e concentra na substância carismática o seu anseio de reestruturação do personagem. A face carismática de Nhô Augusto começa a se delinear a partir de seus padecimentos físicos e morais.

O narrador, sintagmático, deseja “aconselhar”, passar adiante as experiências comunitárias do sertão. Por enquanto, ainda não tomou a vez dentro da estória narrada.

O carisma de Nhô Augusto começa a delimitar-se por intermédio desse desejo do narrador de reestrutura-lo, e, ao mesmo tempo, reestruturar-se. Ele se encontra ainda no plano diegético e vale-se de forças substanciais, no caso substância religiosa, para dar continuidade à narrativa. Há ainda o fio narrativo linear estruturando o sentido do ato de narrar. Por esta perspectiva, se vê envolvido pelos dogmas religiosos que compõem o espaço comunitário do sertão, e, por sua vez, “toma” seu futuro personagem ficcional, representante, no momento, de uma face de sua vida. Percebo neste narrador, especificamente, aquele que conhece um determinado espaço, onde as experiências de guerra e as parábolas moralistas são passadas de geração a geração. A “queda” e a tentativa de reestruturação simbolizam as alterações substanciais do Mundo.

Esta segunda fase/face do personagem se assimila (se repenso as diretrizes weberianas) à "autoridade do dom da graça".

Por sorte, um preto que morava na boca do brejo viu quando o corpo de Nhô Augusto caiu precipício abaixo, e viu também quando os capangas do major se afastaram. O preto e sua mulher encontraram vida no corpo maltratado e procuraram fazê-lo recuperar-se.

No princípio, nos raros momentos de lucidez, pedia que o matassem; mas, aos poucos, quis viver. Enquanto se recuperava, podia pensar.

Sobretudo, pensar. Não é pelo pensamento que o homem reencontra seus poderes perdidos? O homem que pensa, possui poder. Observem os intelectuais. Pensar é o início do poder. Pensar e saber.

O personagem começa a pensar em uma nova forma de reestruturar-se. A seguir, faz-se necessário defender-se contra o espaço (o mundo com suas fortes ideologias) e os acontecimentos imprevisíveis, mas o espaço social, nesta etapa da narrativa, escamoteia tal pretensão, impondo-lhe a substância religiosa que sobrevive sob diversos matizes no sertão.

Cavada pelo pensamento, veio à tona a perdida religiosidade que se escondia no passado, plantada na infância pela avó que o criara, agora estimulada pela preta velha Quitéria que lhe salvara a vida. Dogmas religiosos, atitudes de vida, apelos morais, imposições normativas: cercas conceituais, limitadoras e frustrantes.

O narrador memorialista recomeça.

No princípio da narrativa, a representação do poder hierárquico em decadência. Ali observo o personagem Nhô Augusto prestes a perder a “aura”. A autoridade do “ontem eterno” em vias de extinção, em um mundo que procurou se conservar comunitário. Entretanto, já houve essa ruptura. O espaço comunitário do sertão resistiu às investidas do progresso moderno durante vários séculos, mas se encontra agora nos últimos estágios de decomposição. Faz-se urgente reerguer-se. A “queda” simboliza os momentos críticos da Vida. É lícito observar que, depois das grandes desgraças, surgem os líderes carismáticos, procurando reordenar a desordem.

Nhô Augusto pensa em uma nova forma de preservar o poder. Não o antigo, mas um poder que o eleve acima do comum dos mortais, pois o narrador agora se submete à religiosidade e ao comando da narrativa de espaço.

Um dia o personagem resolveu confessar-se. O padre veio, trazido pelos pretos, às escondidas. O novo homem, que emergia da carcaça amassada do antigo e sanguinário Senhor-de-terra poderoso, necessitava da absolvição de seus pecados, do perdão daquele Deus do qual estivera tão distanciado. O padre o absolveu e garantiu-lhe que Deus não desampara os que se arrependem. Por intermédio do padre, a voz do pensamento religioso impôs seus preceitos.

Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina de sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria... cada um tem a sua hora e vez: você há de ter a sua.
[1]

O carisma significa o “dom da graça”. Somente os privilegiados, os líderes poderosamente dotados de milagres e revelações, feitos heróicos e êxitos no que se propõem a fazer, o possuem. Assim, o personagem, que acabara de sofrer uma “morte” sócio-substancial, percebe, por intermédio das palavras do padre, a sua chance de reestruturar-se.

Para este recomeço, se necessita de um “novo” revestimento para o personagem, e de um “novo” cenário. Assim, o narrador transporta o cenário para um sítio que Nhô Augusto possuía, e nem sequer conhecia, perdido no sertão. Nhô Augusto levou consigo os pretos samaritanos, que a ele se apegaram e não o quiseram largar.

Ao sair, Nhô Augusto se ajoelhou, no meio da estrada, abriu os braços em cruz, e jurou: — Eu vou para o Céu, e vou mesmo, por bem ou por mal!... E a minha vez há de chegar... Pra o Céu eu vou, nem que seja a porrete!...
[2]

Seria o aparecimento do líder carismático? À imitação de Jesus Cristo, Nhô Augusto sai em peregrinação, levando consigo os primeiros apóstolos.

Segundo Weber, o que é carisma:

1o) Os líderes naturais nas dificuldades foram os portadores de dons específicos do corpo e do espírito, dons esses considerados como sobrenaturais, não acessíveis a todos.

2o) O carisma só conhece a determinação interna e a contenção interna. O seu portador toma a tarefa que lhe é adequada e exige obediência a um séquito em virtude de sua missão.

3o) O carisma vive neste mundo, embora não seja deste mundo.

4o) O carisma, e isto é decisivo, sempre rejeita como indigno qualquer lucro pecuniário que seja metódico e racional. Em geral, o carisma rejeita todo comportamento econômico racional.

5o) Para fazer justiça à sua missão, os portadores do carisma, o mestre bem como seus discípulos e seguidores, devem manter-se distantes das ocupações rotineiras, bem como distantes das obrigações rotineiras de família.
[3]

Nhô Augusto, se não possuía todos estes pré-requisitos carismáticos, estava no caminho de os adquirir.

E assim se deu que, lá no povoado do Tombador (...) apareceu, um dia, um homem esquisito, que ninguém podia entender.

Mas todos gostaram dele, porque era meio doido e meio santo; e compreender deixaram para depois.
[4]

Este trecho remete à primeira afirmativa de Weber, pois se Nhô Augusto era meio doido e meio santo, possuía dons específicos do corpo e do espírito, dons que, na maioria das vezes, são considerados sobrenaturais.

Na segunda afirmativa, o autor diz que o carisma só conhece a determinação e a contenção interna.

Quando o Tião da Thereza, personagem providencial, passou lá pelo Tombador, à procura de trezentas reses, e o encontrou, logo foi dando as notícias que ninguém tinha pedido. Nhô Augusto sentiu a ferida se reabrindo, mas se conteve, e pediu ao Tião que esquecesse o encontro e continuasse vendo-o como um homem que já morrera:
Não é mentira muita, porque é a mesma coisa em como se eu tivesse morrido mesmo... Não tem mais nenhum Augusto Esteves das Pindaíbas, Tião...
[5]

Verdade. Este carismático não é Nhô Augusto das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Este poder carismático representa uma outra face do Brasil incrustado no sertão, representa uma camada do povo sertanejo, repleno de experiências e normas religiosas. Representa as oscilações ideológicas do narrador. Representa o oposto do homem-mau — Augusto Esteves —, ou seja, o homem-bom, o carismático.

Se há desprezo no olhar do Tião — personagem da anterior sequência —, há, por outro lado, a determinação na atitude de Nhô Augusto. Sim, era melhor rezar mais, trabalhar mais e escorar firme, para alcançar o reino-do-céu.
[6]

O carisma só conhece a determinação interna e a contenção interna (segunda afirmativa). O carisma vive neste mundo, embora não seja deste mundo (terceira afirmativa).

Na quarta assertiva, Weber informa que o carisma rejeita lucros pecuniários. Não restam dúvidas: Nhô Augusto já desenvolvera seu lado carismático.

Trabalhava que nem um afadigado por dinheiro, mas, no feito, não tinha nenhuma ganância e nem se importava com acrescentes; o que vivia era querendo ajudar os outros. Capinava para si e para os vizinhos do seu fogo, no querer de repartir, dando de amor o que possuísse.
[7]

Quanto à última afirmação, que os carismáticos devem manter-se distantes dos laços deste mundo:

Quem quisesse, porém, durante esse tempo, ter dó de Nhô Augusto, faria grossa bobagem, porque ele não tinha tentações, nada desejava, cansava o corpo no pesado e dava rezas a sua alma.

Também não fumava mais, não bebia, não olhava para o bom parecer das mulheres, não falava junto em discussão.
[8]

Os dogmas religiosos impuseram, até aqui, atitudes de vida. Encontra-se o narrador preso à exterioridade da narrativa, ao desejo de retratar os fatos retirados da matéria histórica.

Em breve, o contador de estórias despertará e caminhará sob o domínio do narrador moderno (aquele que faz parte do mundo desordenado do final da Era Moderna, já se distanciando historicamente dos valores da medieva ordem do sertão mineiro). Em breve, o Artista ficcional dará uma nova vida aos personagens. Em breve, Nhô Augusto se transformará em personagem ficcional (personagem exemplar) e o narrador passará a centralizar a narrativa.

Devo ressaltar a figura de seu Joãozinho como outro líder carismático. Não um carismático religioso, mas guerreiro. Falarei sobre este personagem mais adiante, e o relacionarei à última afirmativa de Weber.

Por ora, observo que já se delineia uma nova transformação na narrativa, submetida à transformação discursiva do narrador.

Depois do episódio de Tião da Thereza, o personagem Nhô Augusto, já vivenciando sua fase de transição, recomeçou a pensar no antigo poder e a desprestigiar um pouco seu novo modo de vida.

O poder, de acordo com Foucault, instaura-se a partir de um exercício do poder. Onde há poder, o exercício do poder é acionado. Não há como pensar o Poder, simplesmente, observa-se seus sinais e materialização. O poder — o exercício do poder — se realiza sob uma organização, em que todos que dispõem dele são peças-chave, desde o guarda civil ao Presidente. Não há como localizá-lo, pois ele é prerrogativa de uma maioria (ou minoria) que o exerce como conduta arbitrária, em maior ou menor grau.
[9]

O poder carismático não satisfaz ao personagem, porque ele já conhecera o poder arbitrário. O religioso possui poder, mas esse poder se opera em nome de um outro poder maior. Daí, para a apresentação do autêntico desenvolvimento ficcional (paradigmático), surge uma outra nova transformação. Daí, o desejo de retomar o antigo prestígio; o desejo de rebelar-se contra as imposições religiosas. Daí, a transformação do narrador, conhecedor das transformações históricas do Poder.

Mas, daí em seguida, ele não guardou mais poder para espantar a tristeza. E, com a tristeza, uma vontade doente de fazer coisas malfeitas, uma vontade sem calor no corpo, só pensada: como que, se bebesse e cigarrasse, e ficasse sem trabalhar nem rezar, haveria de recuperar sua força de homem e seu acerto de outro tempo, junto com a pressa das coisas, como os outros sabiam viver.

Mas, e a vergonheira atrasada? E o castigo? O padre bem que tinha falado:

“— Você, em toda a sua vida, não tem feito senão pecados muito graves, e Deus mandou estes sofrimentos só para um pecador ter idéia do que o fogo do inferno é!... (...)
[10]

Ainda os preceitos religiosos, o mito do castigo divino sempre renovado através dos tempos.


[1] Ibidem: 22
[2] Ibidem: 23
[3] WEBER (1979): 285-286
[4] ROSA (1986): 24
[5] Ibidem
[6] Ibidem: 27
[7] Ibidem: 24
[8] Ibidem: 25
[9] FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979
[10] ROSA (1986): 27


MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez. Rio de Janeiro: NMachado, 2006. (ISBN 85-904306-2-6)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

XIII - A AUTORIDADE DO ONTEM ETERNO


NEUZA MACHADO




Weber questiona: Por que os homens obedecem?[1]

Em primeiro lugar, afirma, há a autoridade do ontem eterno. Os subjugados se conformam com o domínio exercido pelo Patriarca. Em princípio, Augusto Esteves se assemelha à autoridade do ontem eterno, porque continua uma tradição. Seu poder foi herdado do pai, o Coronel Afonsão Esteves das Pindaíbas e do Saco-da-Embira.

Fazer um nome que se respeite não é tarefa para entretenimento, é serviço pesado, para o qual o pioneiro necessita gastar muita energia. Necessita provar sua coragem, impor sua autoridade para se fazer respeitar. Com tais atitudes, esse homem, que foi candidato a um nome, passa a ser temido e odiado, ao mesmo tempo, idolatrado, e sua descendência deverá, por força das circunstâncias, continuar tal obra.

O narrador de A Hora e Vez de Augusto Matraga nos apresenta uma pequena comunidade e seu herói: ambos em vias de se degradarem.

Eis o conflito do narrador a degradação não está no espaço apreendido — sua sensibilidade (sua criatividade) capta a pureza remanescente dos antigos núcleos —; a degradação encontra-se nele próprio, porque, porta-voz que é do Artista ficcional, conhece as várias faces/fases do Homem moderno.

Eis o conflito da narrativa: a memória (matéria épica) contrapõe-se às lembranças de um mundo para sempre perdido (matéria romanesca/ficcional). O que foi transmitido por sucessivas gerações, encontra-se agora em vias de extinção. O narrador se dá conta de que esta comunidade existe apenas em suas recordações (matéria lírica). O narrador é o representante desta comunidade primitiva e, ao mesmo tempo, burguesa. Por isto, ele é primitivo e burguês. Porque se desenvolve na dialética daquele que o idealizou, cujas origens reproduzem as comunidades fechadas do passado. Assim como Nhô Augusto herdou a autoridade do “ontem eterno”, ele herdou esta “autoridade”, como duplo de um Sábio que narra suas próprias experiências de vida (matéria histórica, paraliterária), como herdeiro de um nome sertanejo. Essas experiências de vida não são pessoais ─ mas, enquanto curso de vida são verdadeiras ─, são experiências transcendentais, irracionais, experiências de quem se coloca como porta-voz da burguesia sertaneja, edificada nos pequenos vilarejos, dominados por Senhores-de-terra poderosos.

Nhô Augusto herdou um pequeno Império e, durante algum tempo, nele reinou. Enquanto existiu a sua autoridade, ele foi representação do poder. Observo isto pela sua atitude superior ao arrematar, no leilão, a Sariema, a muito amada pelo capiauzinho “enamorado”, o capanga do major Consilva.

O povo evidentemente aplaudiu e glorificou a atitude do Poderoso. O povo necessita de um líder, necessita de um condutor.

O poder e prestígio do personagem, até ali, continuavam inalterados. Mas, havia um outro ambicionando sua posição privilegiada e procurando as brechas para derrubá-lo: o major Consilva, “velho” inimigo da família Esteves.

Recorde o Leitor a resposta de Nhô Augusto, quando o Quim Recadeiro retornou dizendo que o major havia “comprado” os bate-paus: Major de borra! Só de pique, porque era inimigo do meu pai.
[2]

O major procurou e encontrou um meio de desmoralizá-lo. Sinal de que o dito poder não estava bem edificado e ameaçava ruir: mulheres, jogos, dívidas; tudo isto proporcionava a sua decadência.

O poder social do personagem se encontrava ameaçado por um inimigo mais perigoso que o major Consilva: o contra-poder econômico da decadência do sertão. Se Nhô Augusto estava prestes a perder tudo o que possuía (família, terras), era natural que outro reivindicasse sua glória e prestígio.

O narrador roseano, em princípio, impõe-se visualizar a figura imponente de Nhô Augusto, mas, logo depois do leilão, mostra que ele está a poucos passos da decadência.

As sucessivas transformações, ao longo da análise, são significantes dos vários estágios de vida estacionados no espaço do sertão, sobrepondo-se infinitamente, imunes à ação do tempo.

Somente o narrador do século XX apreende essas sutilezas, subjacentes em um espaço onde as Idades do Mundo se confundem e se completam. Só o narrador apreende as várias etapas do tempo, entrelaçando-se e rejeitando-se, mas prestes a se anularem, graças à fragmentação do mundo moderno. Etapas de tempo que se sobrepõem e se eternizarão enquanto houver um narrador que as conte, por intermédio da memória ou através da recordação, e um ouvinte que compactue com seu ato de narrar.

A queda do personagem, suas etapas de vida representam as transformações de uma determinada burguesia que se acomodou nos pequenos vilarejos do sertão de Minas Gerais. Já não há Senhores-de-terra, mas as grandes famílias que comandavam politicamente essas localidades ainda permanecem dominando, engajadas em partidos políticos e alardeando suas origens. Os atos de heroísmo ou covardia são fatos do passado e quase não há narradores para relembrá-los.

Por este prisma, afirmo que, nesta narrativa especialmente, o narrador de Guimarães Rosa apresenta o momento de crise vivido por seu personagem Nhô Augusto em acordo com a crise sócio-econômica que ocorreu no Brasil, principalmente na sociedade agrária sertaneja, a partir dos anos trinta do século XX. O impasse, as mudanças existenciais do personagem, a própria transformação discursiva do narrador, representam, inclusive, a mudança de poder político; ainda: o contra-poder se transformando em poder de fato.

Quando chega o dia da casa cair — que, com ou sem terremoto, é um dia de chegada infalível — o dono pode estar: de dentro, ou de fora. É melhor de fora! E é a só coisa que um qualquer-um está no poder de fazer. Mesmo estando de dentro, mais vale todo vestido e perto da rua. Mas, Nhô Augusto, não: estava deitado na cama — o pior lugar que há, para se receber uma surpresa má.
[3]

O major, personificação do contra-poder que aspira ao poder, “compra” os capangas de Nhô Augusto. O poder do herói ruíra.

Reavaliando o que foi afirmado acima: Teríamos, neste trecho, a imagem de um momento de transição do Brasil? No espaço do sertão várias etapas do Brasil se sobrepõem, alheias à ação do tempo. Este trecho, significante de mudança narrativa, representa os valores de uso (a submissão primitiva do povo a um Senhor-de-terra) estando em vias de sofrer uma profunda transformação; ao mesmo tempo, representa os valores de troca, mediatizados pelo dinheiro, que comandam o mundo burguês.

É interessante observar os motivos da debandada. Se, enquanto possuiu recursos e meios, para ser um homem poderoso, Nhô Augusto mandava e desmandava em seus subordinados, agora, que se encontrava pobre, não necessitava mais ser obedecido. Um outro poder — contra-poder — estava a caminho, e os bate-paus aceitaram mudar de comando.

Aqui entra um problema sério: o das classes sociais.

Na definição de Weber, hoje considerada reacionária (mas que diz a verdade sobre o ficcional), as classes sociais

(...) não são comunidades; representam simplesmente bases possíveis, e freqüentes, de ação comunal. Podemos falar de uma classe quando: 1) certo número de pessoas tem em comum um componente causal específico em suas oportunidades de vida, e na medida em que 2) esse componente é representado exclusivamente pelos interesses econômicos da posse de bens e oportunidades de renda, e 3) é representado sob as condições de mercado de produto ou mercado de trabalho.
[4]

Quando Nhô Augusto mandou o Quim Recadeiro chamar os bate-paus, ainda não sabia que o major Consilva os havia “comprados” com uma melhor oferta de pagamento. Esquecera-se que andava mal de vida e que, há muito tempo, já não pagava o ordenado de seus homens de confiança. A obediência perde o sentido quando o homem perde o poder.

Vejamos o trecho:

Dali a pouco, porém, tornava o Quim, com nova desolação: os bate-paus não vinham... Não queriam ficar mais com Nhô Augusto... O major Consilva tinha ajustado, um e mais um, os quatro, para seus capangas, pagando bem. Não vinham mesmo. O mais merecido, o cabeça, até mandara dizer, faltando ao respeito:

— Fala com Nhô Augusto que sol de cima é dinheiro!... pra ele pagar o que está nos devendo... E é mandar por portador calado, que nós não podemos escutar prosa de outro, que seu major disse que não quer.
[5]

Eis aqui a inevitável “dinâmica do poder”, com suas competições e pretensões, assinaladas por Max Weber e já mencionadas anteriormente.

Para o narrador, o major Consilva representa a certeza de que o sertão, enquanto espaço exterior aos conflitos do mundo, com suas superposições sociais e temporais, ímpares, permanecerá intocável, resistindo às investidas degradantes da sociedade moderna. Enquanto esse espaço exterior for captado por um olhar solitário, e reconhecido como espaço onde se ancora a tradição de um povo, este mesmo narrador terá a certeza de que seu mundo de origem não se extinguiu. Apenas, em termos de narrativa, esse espaço ficará para trás, encubado, como certas plantas que “dormem” sob a terra, retornando à vida de tempos em tempos.

As etapas de vida do personagem, as etapas de discurso-vida do narrador, as etapas do mundo burguês sertanejo, em aceleradas transformações, necessitam ser significadas. Todos os envolvidos na narrativa, não apenas Nhô Augusto, sentem o momento da perda de poder, sentem o momento da perda de valores, das mudanças existenciais. O significante nuclear desse momento, no âmbito da ficção, é a surra aplicada no personagem. Nhô Augusto apanhou, todos apanharam: o narrador, a sociedade burguesa sertaneja, o leitor, que compactuou e se apoderou da matéria do narrador e do infortúnio do personagem, como se fosse sua desgraça que estivesse sendo narrada. Assim, o personagem representante da burguesia, o narrador burguês, o leitor burguês, todos sentindo a vingança do mais fraco, mediatizada por outro poder, para vingar-se de quem o ofendeu.

Nhô Augusto apanhara de seu bate-paus, assessorados pelo capiauzinho, apaixonado de Sariema. Foi marcado como rês; não teve tempo de se vingar do abandono da Dionóra. Nhô Augusto fora à chácara do major confiando em seu anterior poder e se esquecera que esse poder residia exatamente naqueles quatro bate-paus, os quais agora obedeciam ao major. Era a hora da vingança do mais fraco.

Assim, o sertanejo sem-terra de agora, descendente de algum senhor do sertão. Sabe-se vinculado pelo nome, que traz como uma marca, a uma dinastia de desbravadores de terra, mas se pergunta por que estas terras já não são suas? Estas terras agora pertencem a famílias que outrora foram subordinadas de seus antepassados. Algum “Nhô Augusto Matraga”, imprudente, perdeu-as.


[1] Ibidem: 99
[2] ROSA (1986): 16
[3] Ibidem: 15
[4] WEBER (1979): 212
[5] ROSA (1986): 15

MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez. Rio de Janeiro: NMachado, 2006. (ISBN 85-904306-2-6)