Quer se comunicar com a gente? Entre em contato pelo e-mail neumac@oi.com.br. E aproveite para visitar nossos outros blogs, o "Neuza Machado 2", Caffe com Litteratura e o Neuza Machado - Letras, onde colocamos diversos estudos literários, ensaios e textos, escritos com o entusiasmo e o carinho de quem ama literatura.

domingo, 31 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A VALORIZAÇÃO DO CAFÉ NO GOVERNO DO PRESIDENTE ARTHUR BERNARDES



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A VALORIZAÇÃO DO CAFÉ NO GOVERNO DO PRESIDENTE ARTHUR BERNARDES


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 




Na época do que vou contar, o Presidente da República era o senhor Arthur Bernardes. Ele valorizou o café, que antes valia oito mil réis, e passou para cinquenta mil réis, que foi a grande novidade de todos. Aqueles que não tinham café derrubavam matas e plantavam café. Outros capinavam os pastos para plantar café.

 

Era um movimento grande nas estradas: carros de bois que vinham de Santa Margarida, de São João do Manhuaçu, de São Francisco do Glória, e de outros lugares, com fileira de até quinze a vinte carros, todos cantarolando estrada a fora, aquela cantilena morosa própria dos carros de bois, até chegar em Carangola, aonde era vendido o café, para exportação em trem de ferro. No decorrer da viagem, durante quatro dias, os carreiros e candeeiros arranchavam-se em casebres de beira de estrada, ou até mesmo ao relento.

 

O transporte de café era feito também em lombo de burro, cada tropa com dez burros, fazendo fileira também de dez a quinze lotes de burros. Os tropeiros vinham gritando, batendo no couro dos animais, jogando tolete de pau naqueles burros da frente. Era um Deus nos acuda, porque a estrada era ruim e apertada e os tropeiros eram muito grosseiros e achavam que a estrada era só deles. E quando encontravam um carreiro, que não arredava o carro, para dar passagem pra eles, era aquela discussão.

 

E, às vezes, saíam até brigas de pancadaria, parecia que o povo havia enlouquecido com aquela alta do café. Mesmo com o preço alto do café, as outras mercadorias continuaram com os preços antigos, não houve alteração nos preços, tudo continuou no mesmo.

 

Eu me recordo de um dia em que, nós meninos, vínhamos da Escola para casa. Logo que saímos, fora do Arraial, começamos a encontrar carros de bois que vinham de Carangola, aonde os sitiantes foram vender o seu café. Eram muitos carros, enfileirados, todos vazios, com os candeeiros tocando os carros, e os carreiros vinham atrás do último carro, com as mãos cheias de notas, em dinheiro, contando o dinheiro, e andando a pé atrás do carro.

 

Nós éramos doze meninos que vinham da Escola, naquela brincadeira. De repente, um deu um grito: “– Olha lá uma nota!” A nota estava a uns dez metros de distância. Todos nós corremos pra pegar a nota, mas tinha um das pernas compridas, e que chegou primeiro, e apanhou a nota, e desabalou na carreira. O menino das pernas compridas correu pra valer, e todos nós corremos atrás dele, mas não apanhamos a nota, pois ele era muito veloz na carreira.

 

E ele chegou em casa do pai dele, e entrou correndo, e nós atrás querendo que o dinheiro fosse dividido. Mas, a mãe dele disse: “– O direito é do meu filho. O dinheiro tava perdido. Aquele que panhou primeiro é o dono do achado”. Mas, mesmo assim, ele passou muitos dias sem andar junto conosco, com medo de ser agredido.

 

Estava chegando o dia de compra de uniforme, para a festa de examinação, e a professora Dona Guiomar exigia todos uniformizados. O dinheiro achado deu para comprar o uniforme daquele aluno, sem precisar do dinheiro do pai. Foi um tempo bom para quem tinha lavoura de café.

 

Nos outros anos seguintes, o café baixou de preço, e foi a triste derrota de muitos fazendeiros. Aqueles que confiaram no café fizeram dívidas volumosas e não puderam pagá-las. E precisaram entregar as Fazendas, e passaram a viver de empregados, todos tocando lavoura à meia com os novos donos de suas fazendas. Alguns fazendeiros ainda salvaram suas fazendas, com a moratória de dez anos para pagarem, decreto-lei, dado por Getúlio Vargas, depois de mil novecentos e trinta.

sábado, 30 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: CRIANÇAS BRIGANDO NO CAMINHO DA ESCOLA



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: CRIANÇAS BRIGANDO NO CAMINHO DA ESCOLA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 

 


Voltando à família Souza Costa. Em mil novecentos e vinte, quando eu entrei para a Escola, éramos doze alunos. Nós caminhávamos a pé até a Escola de Dona Guiomar. De distância, alguns de meus colegas, até seis quilômetros. Na ida à Escola, nós íamos separados, mas, na volta, voltávamos reunidos, fazendo bagunça, por vezes, até, brigávamos uns contra outros.

 

Lembro-me de um dia em que eu briguei com um colega, porque ele dizia que nós éramos a tropa dele, porque ele era o mais forte e nós tínhamos que obedecer às ordens dele. Com esta ideia maligna, ele cortou uma vara de guaxima e dava com a vara em nossas costas, e gritava: “– Anda pra frente, meus burros!” Os outros colegas obedeceram as ordens dele, mas eu não quis aceitar a brincadeira. Ele dizia pra mim: “– Toinzim, ocê não é de nada!”, e me deu um empurrão. Eu me atraquei com ele justamente quando nós estávamos passando em frente a uma ribanceira, e em baixo passava um córrego d’água. Nós fomos rolando até cair dentro da água. Aí, acabou a briga e saímos todos molhados.

 

Mas, não ficou nisso só, pois, naquela época, as contas eram feitas em uma pedra escura [pedra = pequena lousa], quase quadrada, e, na luta, que nós rolamos até cair dentro d’água, a pedra ficou em pedaços dentro do embornal escolar. Porque nós carregávamos o material escolar em um embornal de pano, alceado no ombro.

 

Eu tinha meu irmão, mais velho do que eu quatro anos, o Eurico, mas ele não se envolveu em nossa briga, mas dizia que ia contar à professora Dona Guiomar e, também, quando chegasse em casa, ia contar ao pai que eu tinha brigado com o colega e tinha quebrado a pedra. E contou mesmo. Meu pai, o Zeca, deu-me uma coça com um cabresto de cavalo, e sempre me dizendo: “– Não é pelo valor da pedra que eu lhe bato, lhe castigo, é porque eu não quero que meus filhos briguem com ninguém. Eu sempre digo a vocês: quando virem uma briga, fujam de perto!”

 

Mas, minha mãe Antoninha não pensava assim. Quando meu pai me pegou pra bater, a minha mãe disse para meu pai: “– Ocê bateu no Antônio, mas o Eurico também precisa apanhar, porque a obrigação dele é ajudar o irmão mais novo e não deixar o irmão, sozinho, lutar com outro mais forte do que ele”. Mas meu pai não deu importância ao que minha mãe dizia, e ela, vendo que ele não ia bater no Eurico, disse: “– Quem vai bater no Eurico sou eu!” O meu irmão Eurico desabalou numa carreira daquelas, e ela correndo atrás dele. Por falta de sorte do Eurico, o nosso irmão mais velho, por nome Olavo, vinha descendo um morro, pra chegar em nossa casa, e minha mãe gritou: “– Pega o Eurico, Olavo!”, e ele pegou. Ela batia e dizia: “– Isto é pra quando ocê ver o seu irmão em qualquer dificuldade, ajudar. O seu dever é ajudar o irmão mais novo, e não deixar ele sozinho quando ele precisar do seu auxílio”. Agente brigava, mas não ficava de mal. Éramos uma família unida. 
 

quinta-feira, 28 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: CASO VERÍDICO ACONTECIDO NO ALTO DE CARANGOLA EM UMA SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: CASO VERÍDICO ACONTECIDO NO ALTO DE CARANGOLA EM UMA SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA


 


 

Minha mãe Antoninha contava um caso verídico, acontecido pouco abaixo do Arraial de Alto-Carangola, quase no final do século XIX. Nessa época, minha mãe tinha quase quinze anos, era ainda uma mocinha, quando ocorreu a notícia de um homem que tinha virado bicho no Alto-Carangola. Todos ficaram assombrados com aquela notícia, um homem virar bicho!?, não era possível nem acreditar em tal notícia. Mas era preciso verificar se era verdade mesmo. Aí, reuniu-se minha mãe com mais algumas colegas e foram ver de perto se era verdade que um homem tinha virado bicho.

 

Minha mãe Antoninha e as colegas foram até ao tal lugar indicado e constataram a verdade. Elas chegaram e viram dentro de um quarto um homem cabeludo deitado em uma cama de esteira, no chão. O homem estava com o corpo coberto de cabelo, com os dedos enrolados, com as unhas grandes e falava muito. Tinha muita gente que foi fazer visita, e todos de longe. Ninguém se atrevia a chegar perto do homem.

 

Mas, naquele momento em que minha mãe ali estava, chegou um amigo do homem que tinha virado bicho, por nome João Martins, e perguntou pelo o Egídio, como ele estava passando. De lá do quarto, onde ele estava deitado, ele ouviu a voz do amigo e deu um grito: “– Chega pra cá, João Martins. Eu preciso falar com você”. Esse fato, desse homem que virou bicho no Alto-Carangola, era muito comentado por muitos, pois o lugar ficou assombrado por muitos anos.

 

Eu conheci a casa do Egídio Fagundes, de chão, pé direito baixo, de pau-a-pique e de estuque, coberta com telha. A casa ficava em uma curva da estrada, do lado esquerdo pra quem sobe, quase chegando em Alto-Carangola, que, ultimamente, passou a chamar-se Arizona [*Orizânia]. Diziam que, se alguém passasse naquele lugar e dissesse, “é aqui que o homem virou bicho?”, ele aparecia.

 

Diziam, os mais antigos do lugar, que ele não morreu, desapareceu de uma noite para o dia. Ninguém viu a morte de Egídio Fagundes. Uma história triste e comovente de um moço que não chegou a ficar velho.

 

Contava-se que, em uma noite de sexta-feira da paixão, Egídio Fagundes arriou uma mula para repassá-la, e sua mãe detestou aquela atitude, querer repassar animal naquele dia, por ser sexta-feira santa. O moço respondeu que não tinha a ver uma coisa com a outra, e não quis atender ao pedido da mãe. Enquanto ele foi trocar de roupa, sua mãe soltou a mula e, quando ele voltou, e viu que a mula estava solta, ficou muito nervoso, e disse pra própria mãe: “– Agora vou te montar!”, e montou mesmo, na própria mãe, que o havia gerado e criado, até àquele dia, com todo carinho. Não se sabe se a mãe rogou praga nele, só se sabe que, daquela hora em diante, ele amuou em cima da cama e não levantou mais, desaparecendo sem ninguém ver o seu fim.

 

Quando eu nasci, minha mãe Antoninha já estava com trinta e dois anos, já tinha passado dezessete anos depois desse acontecimento. Alguns anos depois, eu já contava vinte e oito anos, eu e alguns companheiros músicos fomos tocar em uma festa em Alto-Carangola. A festa terminou às dez horas da noite e nós resolvemos voltar para casa. Até o momento que saímos da festa, dava pra passar naquele lugar, mas, à meia-noite, quando nos aproximamos do lugar, quando já estávamos em frente da casa, um dos colegas gritou: “– É aqui que o homem virou bicho!”, desabalamos numa correria e ninguém queria ficar para trás.

quarta-feira, 27 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: ALTO DE CARANGOLA NO TEMPO DA MATA VIRGEM



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: ALTO DE CARANGOLA NO TEMPO DA MATA VIRGEM


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 
 
 


Alto de Carangola, no tempo da mata virgem, tinha nome de Quilombo, por ser o lugar aonde os escravos se escondiam dentro das matas, por não quererem sujeitar-se ao trabalho forçado que o Sinhô exigia deles. Os escravos fugiam para o quilombo e formavam um verdadeiro exército e faziam muitos roubos. Eles viviam iguais aos índios, mas, mais conhecedores do que se passava nas Fazendas. Eles saiam de noite e roubavam o que fosse necessário para o sustento deles, trabalhar não era com eles.

 

Quando um escravo fugia da Fazenda, já se sabia que ele estava no Quilombo. E, para chegar lá, quem se atrevia em ir com pouca gente?  Naquela época não existia policiamento para fazer prisão de fugitivo. Em lugar atrasado, longe do comércio, os próprios fazendeiros saíam com alguns de seus parentes e amigos, e com alguns empregados de confiança, e iam até ao Quilombo, e traziam os fugitivos. E botavam o fugitivo no tronco até castigar bem. Depois, tiravam do tronco, e o escravo era obrigado a trabalhar com a perna algemada na perna de outro escravo que não devia aquele castigo. Se fosse fazer uma capina de café em carreira, aquele escravo que não devia nada não saía da sua carreira, mas, o outro, o que devia o castigo, de pé em pé, ele tinha que atravessar, para conseguir levar a capina, até chegar ao final.

 

Alto de Carangola continuou, por muito tempo, com o nome de Quilombo. Mesmo quando eu era ainda bem menino, muitos falavam Quilombo, referindo-se ao Alto de Carangola. Ali, no Alto de Carangola, existiu um homem que virou bicho. Sobre o homem que virou bicho, o Egídio Fagundes, o caso foi muito comentado durante muitos anos, dizia-se sempre, referindo-se ao Egídio Fagundes e ao lugar do acontecido: o Bicho do Quilombo. E, hoje em dia, o lugar não é chamado nem de Quilombo, nem de Alto de Carangola, é conhecido com o nome de Arizona [*Orizânia].

terça-feira, 26 de março de 2013

AS ANTIGAS FESTAS RELIGIOSAS EM SANTO ANTÔNIO DO ARROZAL



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: AS ANTIGAS FESTAS RELIGIOSAS EM SANTO ANTÔNIO DO ARROZAL


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 
 
 

 
Santo Antônio do Arrozal, que tinha também o nome de Choro quando eu estudava lá, tinha seis casas comerciais, de fazendas [panos, tecidos] e armarinhos, duas padarias, duas farmácias, quatro casas de bebidas e miudezas, ferraria, barbearia. Eram muitos turcos que comerciavam, negociavam até com toucinho em canoa. O senhor Luiz de Sales era o homem que comandava e organizava as festas, de mês de Maria, de Santo Antônio, de São Sebastião. De mês em mês, havia missa. O padre da Comarca de Divino ia direto pra casa do senhor Luiz de Sales.

 

Em ocasiões de festas, o senhor Luiz de Sales mandava cartas pedindo leilão, e meninas, para coroar Nossa Senhora. A igreja era pequena, mas, em todos os dias do mês de maio, ninguém faltava com a presença na igreja, para assistir à reza, em homenagem a Nossa Senhora, ou Santo Antônio, ou São Sebastião.

 

E, no dia da festa, vinha a Banda de Música do senhor Raimundo Ramos, vinha do Município de Matipó, com todos os seus filhos, filhas e genros, todos músicos. Era uma família reunida. O senhor Raimundo era maestro, e tocava clarinete.

 

Do Divino do Carangola, vinham o padre e os fogueteiros, com aqueles enormes arrumados de foguetes-de-cauda bem compridas.

 

Meu pai e minha mãe eram os puxadores da reza, eles rezavam durante todo o mês, e minhas irmãs também ajudavam a fazer o coro. Eu acompanhava, mas não ajudava a rezar. Mas, como eu tocava violão e cantava samba, marcha, valsa, minha mãe, um dia, fez-me um convite, dizendo: “– Você canta bem, tem boa voz, hoje você vai-me ajudar a rezar”. Confesso que fiquei surpreso com aquele convite, pois eu gostava mesmo era de tocar em baile, fazer serenata, não tinha a menor tenção em cantar na igreja, mas, não queria desagradar minha mãe. Aí, eu ensaiei com minha mãe e minhas irmãs, e fomos pra igreja. Minha mãe ficou tão contente, que me entregou a direção de todos os cânticos.

 

Naquela época, sempre havia festa em dois arraiais: Choro e Indayá. Meu pai era contratado para rezar nesses dois arraiais. Sendo que Indayá ficava mais longe e, assim, precisava mudar-se pra lá, com a família, durante o tempo que fosse preciso, um mês, ou até dois. Às vezes, faziam duas festas seguidas.

 

Faz pouco tempo que estive em Minas Gerais [*ano da viagem de Antônio à terra natal: 1984], aonde fui nascido e criado. Divino melhorou bastante, mas, Indayá tá no mesmo. Mas, o arraial do Choro não tem mais aquelas casas, que tinha naquele tempo. Até a Igreja arrancaram. Só se vê casinhas sarapecadas, longe uma da outra, tudo diferente. Se agente não tivesse conhecimento de como era aquele lugar no passado, nunca podia pensar que aquele lugar já foi tão movimentado. Dia de sábado, então, era uma verdadeira festa de casamento, com acompanhamento, todos a cavalo, disputando corridas, vinha gente de Bom Jesus, da Samambaia, do Alto-Carangola, do Córrego dos Dornellas, e dos Henriques, e de todos os lados.


segunda-feira, 25 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A ESCOLA DE DONA GUIOMAR NO ARRAIAL DO CHORO



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A ESCOLA DE DONA GUIOMAR NO ARRAIAL DO CHORO


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 

 

 

Eu conheci o Arraial do Choro, cujo nome próprio é Santo Antônio do Arrozal, numa época muito promissora. Tinha uma Escola Pública Estadual, com uma professora de primeira classe por nome dona Guiomar Rodrigues de Amorim, casada com o senhor Caetano, que era o escrivão de paz. Ainda me lembro dos nomes dos filhos do casal, que já frequentavam as aulas. O mais velho dos irmãos, Wilson, depois, Marica, Joca e Lourdinha. Havia mais dois pequenos, que não frequentavam as aulas.

 

Dona Guiomar ensinava até o quinto ano. Depois, o aluno saía preparado para entrar no Ginásio. A casa da Escola era pequena, mal dava pra uns sessenta a oitenta alunos. Tinha duas fileiras de bancos. Na frente, os meninos mais atrasados, os mais adiantados ficavam na retaguarda. Ao lado, um quadro negro. Dona Guiomar ficava atrás de uma mesinha, sentada, e, em cima da mesinha, uma vara de marmelo e uma régua de uns trinta centímetros. Ela tanto batia com a vara, como batia com a régua. Pra ela, não tinha tamanho de aluno, o aluno podia estar com quinze ou dezesseis anos, se precisasse apanhar, ela batia, até fazer vergão. Na hora de estudar, era o maior silêncio, ninguém podia nem cochichar.

 

Lembro-me do primeiro dia em que eu entrei na Escola. Ela passou o a b c pra mim, para eu estudar em silêncio, eu comecei lendo baixo, mas, ela ouviu o meu cochicho e veio silenciosamente, até onde eu estava sentado, e deu de leve em minha cabeça com a vara de marmelo, e disse: “– Estuda, mais baixo!”

 

Além do primeiro dia de aula em que ela me corrigiu, eu me lembro de um outro dia, em que ela me deu umas varadas. Nesse dia, eu precisei mesmo de apanhar. Eu já estava bem adiantado, já fazendo conta de multiplicar, conta passada no quadro negro, bem adiantado mesmo. Não sei bem porque eu esquentei a cabeça, e não havia jeito de eu terminar a conta. O erro estava sobre um número, e eu não conseguia resolver a conta. Dona Guiomar estava me observando, e quis me ajudar, e disse: “– Antônio Costa, você está tomando muito café. O erro da conta está no número tal”. Ela dizia até o número, onde estava o erro, e eu, nem assim, entendia onde estava o erro. Aí, ela já veio com a vara na mão, e deu-me umas varadas, e dizendo: “– Deixa de tomar muito café, pois nem eu falando qual o número do erro, você não acerta?!”

 

Eu só tive três anos de Escola Pública. Fiquei só com o terceiro ano, porque dona Guiomar mudou-se para o Espírito Santo, e nunca mais tivemos notícia dela. Na véspera da mudança sair do Choro com destino a Alegre, cidade do Espírito Santo, meu pai levou eu e um meu irmão, chamado Eurico, que também fora aluno de dona Guiomar, para que nós nos despedíssemos da professora e de sua família. Ela disse a meu pai: “– Senhor José, dos dois filhos do senhor, eu levo um sentimento”. E meu pai perguntou: “– Pode me dizer qual é o sentimento?” E ela respondeu: “– O sentimento que eu levo é de não deixar o Antônio muito adiantado, o sentimento que eu levo do Eurico, é de não poder tirar esta buta dele”. 

domingo, 24 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: QUANDO MINHA MÃE ANTONINHA FICOU DOENTE



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: QUANDO MINHA MÃE ANTONINHA FICOU DOENTE


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 



 Antônia Pereira de Jesus - Antoninha

 

Luiz de Sales era amigo de seus amigos. Recordo-me de uma vez que minha mãe estava muito mal, dois meses de cama, sofrendo uma dor no peito que impedia a respiração. Parecia mesmo que ia morrer, pois já não se alimentava, só gemendo, dia e noite. Como meu pai era compadre e amigo de Luiz de Sales, recebeu dele, naquela ocasião, uma valiosa ajuda.  Meu pai ia passando, em frente à casa de Luiz de Sales, para ir à farmácia, para dar informação da doença de minha mãe ao farmacêutico, e, também, apanhar remédio para a dor de peito que ela sentia, aí, o senhor Luiz de Sales perguntou a meu pai como ia passando minha mãe. Meu pai respondeu que minha mãe não estava bem, e que ele ia até a farmácia, para dar informação ao farmacêutico que estava tratando de minha mãe.

 

Para nossa felicidade, naquele dia, estavam os políticos hospedados em casa do senhor Luiz de Sales, e, aí, o senhor Luiz disse a meu pai: “ – Compadre Zeca, volta pra sua casa e põe a comadre Antoninha no quarto da sala, que eu vou levar o Doutor Waldemar Soares para fazer um exame na comadre. Meu pai, naquele mesmo instante, voltou pra casa e fez conforme o senhor Luiz de Sales mandara.

 

Com menos de duas horas, o senhor Luiz de Sales e o doutor Waldemar Soares estavam em nossa casa, pois a distância não era longe. Quando eles chegaram em nossa casa, o doutor Waldemar examinou minha mãe e disse pra meu pai: “– Eu vou fazer uma experiência sobre este mal, que está nesta doente. Se for água, eu curo ela aqui mesmo, mas, se for pus, o senhor terá que levar ela até Carangola. Aí, o doutor mandou minha mãe deitar-se de bruço, fincou uma agulha nas costas de minha mãe, e sugou um líquido amarelado. Não era pus. Ele disse a meu pai: “– Não é preciso levar ela a Carangola. Aqui mesmo, eu curo ela”. Meu pai disse ao doutor Waldemar, assim: “– Doutor, amanhã eu vou buscar o remédio”. Isto, já era quatro horas da tarde. E o doutor disse pra meu pai: “– O senhor vai é hoje, não pode deixar pra amanhã”.

 

Meu pai tinha um cavalo de confiança, que podia viajar dia e noite, e o cavalo não afrouxava. Meu pai montou ao cavalo às seis horas da tarde e viajou até Carangola. Antes do amanhecer, apanhou o remédio que o doutor tinha receitado. Entre meio-dia e uma hora, minha mãe já estava tomando o remédio. No decorrer de três dias, minha mãe já estava bem melhor, a dor já tinha desaparecido. Ela ainda estava bem fraca, mas, com o espaço de uns vinte dias, meu pai levou a informação de seu restabelecimento ao doutor Waldemar, que receitou fortificante pra ela tomar. E, ela ficou curada de um mal, que o doutor deu o nome de pleuris, água no pulmão.

 

O mais importante de tudo isto foi a cura de minha mãe, mas, houve um outro fato também importante. O meu pai só pagou os remédios, o doutor nada cobrou do exame e da viagem, porque era época de acontecimento político. Quem viu o Arraial do Choro, naquela época, e o vê hoje em dia abandonado, sente até vontade de chorar, assim como seu próprio nome, dado pelos fundadores do lugar: Choro.


sábado, 23 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: RECORDANDO AS CAMPANHAS POLÍTICAS DAQUELE TEMPO



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: RECORDANDO AS CAMPANHAS POLÍTICAS DAQUELE TEMPO


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA
 
 

 

 

Voltando à Fazenda Cachoeira dos Pereiras. Na década de 1910, quase no final, não existia automóvel, nem estrada. O transporte era feito em carro de boi e em lombo de burros. Até mesmo os homens daquela época faziam as campanhas políticas montados em animais. Até mesmo os doutores enfrentavam aquelas estradas poeiradas no tempo da seca. E, em tempos de chuvas, atoleiros, ladeiras escorregadias, subida de morros e descida, por estradas lamacentas, pontes esburacadas, enchentes, quando havia chuvas fortes, que, às vezes, interrompia a passagem.

 

Eu era bem criança, mas recordo bem daquele tempo em que os doutores faziam a campanha política montados em burros, cavalos, e bem prevenidos. Os animais com ferraduras pregadas nos cascos, que era para não escorregar. Os arreios bem compostos, com peitoral prateado, freio com cabeçada prateada, rabicho prateado, um coxinilho grande por cima do arreio, e, os homens bem vestidos, com trajes de viajante, chapéu de lebre, com aba grande, na cabeça, paletó de caxemira, com calça-culote de brim amarelo, um lenço no pescoço com duas pontas bem compridas descendo até ao peito, calçados com botina de pelica e perneira, que era para proteger a calça-culote. Era assim que os políticos faziam suas campanhas.

 

Da cidade de Carangola até ao Alto-Carangola devia ter de oito a dez quilômetros, mas, os políticos não iam diretamente, eles iam parando, tanto nos Arraiais como, também, em Fazendas, e, até, em casa de pobre eles passavam.

 

Nós morávamos perto da estrada onde eles passavam, e nós ficávamos apreciando eles em fileira, até na virada do morro. No pé do morro, morava tio Marcolino, que muito mal assinava o nome, mas era um homem fanático por política. Sabendo que eles iam passar por ali, tio Marcolino prevenia a sua casa humilde, e ficava esperando. Quando eles iam passando, o tio Marcolino convidava-os para chegar, pra tomar um café, e eles chegavam. Não era pouca gente não. Entre doutores, e empregados, e cabos-eleitorais, devia ter umas quinze a vinte pessoas. Como eles encontravam ali, naquela casa humilde, um bom lanche: café simples, café com leite, pão de sal, biscoito de polvilho, água fresca pra beber, uma bica d’água em correnteza, aonde eles lavavam as mãos, o rosto, era tão grande a satisfação, que eles faziam até discurso naquela casa, talvez, seja por força da cana, pois o tio Marcolino não ficava sem uma cachaça da boa.

 

Dali, eles seguiam para um Arraial pequeno, aonde tinha um turco muito rico, por nome Luiz de Sales, que hospedava todos os viajantes que tratavam de negócios. E, também, em época de eleições, iam pra casa de Luiz de Sales, que era uma casa muito grande, com muitos quartos de hóspedes. Tinha também, embaixo do assoalho da casa, dois quartos bem grandes, um de guardar milho em palha, e o outro era para os viajantes guardarem os arreios dos animais.

 

Dali, eles seguiam para o Alto-Carangola, onde tinha a Pensão de Dona Mariquinha Meireles. Mas, nesse intervalo, que eles ficavam no Arraial do Choro, que era conhecido também por Arraial de Santo Antônio do Arrozal, eles visitavam Fazendas, ali perto, como a do Capitão Francisco Victor da Silva, que era conhecido como Chico Victor, a Fazenda do José Vianna, outro grande fazendeiro do lugar, e outros mais. Era assim a política daquele tempo.  

sexta-feira, 22 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: DEPOIS QUE VOVÓ CHIQUINHA MORREU



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: DEPOIS QUE VOVÓ CHIQUINHA MORREU


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 



 

Depois que vovó Chiquinha morreu, vovô José Antônio viveu ainda doze anos. No início de sua viuvez, vovô quis ter a sua casa. Meu pai fez uma pequena casa, perto de nossa casa, e vovô passou a morar só. Mas, tia Floripes tinha muitos filhos e mandou o filho caçula, para fazer companhia a vovô. Isto foi pr’a pouco tempo. O menino não quis ficar com vovô e voltou pra casa de sua mãe. Vovô continuou morando sozinho em sua humilde casinha.

 

Mas não estava bem, vovô morando sozinho. A casa de meu pai tinha de sobra um quarto, e meu pai fez franqueza a vovô, para morar em nossa casa. E vovô aceitou, e viveu ainda mais doze anos, depois da morte de vovó. Durante esse tempo que vovô viveu em nossa casa, vovô não tinha obrigação nenhuma a cuidar. A vida de vovô era só comer, dormir, tocar viola e passear. Até a mula de vovô, nós, meninos, buscávamos no pasto. Vovô só tinha o trabalho de arriar a mula e sair pelas casas dos filhos e alguns netos casados, que todos recebiam vovô com muita satisfação.

 

Mas, quando chegava o tempo de planta de milho, vovô tinha que fazer a sua roça, ora na casa de um filho, ora na casa de outro. Vovô tinha sempre a ajuda dos netos no preparo da terra, no plantio do milho, na capina, e na colheita. Todos ajudavam vovô, só para ver ele feliz, alegre. O milho que colhia, ele vendia pra quem ele quisesse. Meu pai não exigia nada de meu avô. Vovô viveu até chegar à idade de oitenta e três anos com um espírito de jovem. No ano em que morreu, plantou a sua roça, só não pode colher, porque chegou o fim de sua vida na Terra. Sofreu uma intoxicação de urina e ele morreu num grande sofrimento.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: VOVÓ CHIQUINHA CONTANDO HISTÓRIAS DA FAMÍLIA AOS NETOS



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: VOVÓ CHIQUINHA CONTANDO HISTÓRIAS DA FAMÍLIA AOS NETOS


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 

 

 

Vovô José Antônio de Souza Moreira fez ainda mais uma mudança pra terreno de fazendeiro. Dali, da Fazenda de Chico Victor, ele mudou-se pra uma Fazenda de João de Almeida, que tinha sido comprada de pouco de um João das Moças. Esta Fazenda, ainda hoje, fica em Vargem Grande, perto de Bom Jesus. Na época, era Joaquim de Almeida quem tomava conta da Fazenda do pai. Joaquim de Almeida considerava muito meu avô. Nesta época, tio Camilo já tinha se casado, e vovô José Antônio e vovó Chiquinha já estavam sós, os dois. Mas, mesmo assim, vovô morou nesta Fazenda cinco anos, pois a lavoura que vovô tocava era muito boa para café, e dava também mantimento. Mas vovô José Antônio não pode continuar nesta Fazenda por motivo de doença.

 

Vovó Chiquinha ficou doente e meu pai trouxe os dois pra dentro de nossa casa. Vovó conseguiu recuperar-se e ainda viveu mais uns poucos anos e morreu. Nesses poucos anos, que vovó conviveu em nossa casa, era a nossa alegria, porque vovó Chiquinha era contadeira de estórias. Quando chegava a noite, nós, meninos, nos reuníamos em seu quarto, ela, sentada na cama, contava estória muito bonita e engraçada, sempre com seu cachimbim na boca. Ela era muito calma em tudo, muito paciente e compreensiva.

 

Vovó contava também um caso verídico, que aconteceu com um tio dela por nome Joaquim. Dizia vovó que tio Joaquim, casado com tia Maria, tinha oito filhos e vivia com dificuldade. Tinha um Sítio pequeno e ele trabalhava só, pois os filhos eram pequenos e de pouca idade, não podiam ajudá-lo na roça. Tio Joaquim era muito confiado em Deus, rezava muito, mas sempre cuidando de suas plantações. Um dia tio Joaquim teve uma idéia: “Ficaria bom se eu fizesse um monhozinho aqui no meu Sítio. Que bom seria moer o meu milho no meu monho, e não ser preciso barganhar o milho em troca de fubá, deixando o lucro pra outro”. E, pensando assim, ele começou. “Primeiro, vou tirar a água, depois da água tirada, vou comprar as pedras, depois, o resto eu faço com as minhas mãos a obra. E, assim, ele começou na tirada da água, sozinho, sem a ajuda de ninguém, só pedia a ajuda de Deus. Tio Joaquim levou muito tempo na tirada da água. Quando terminou a tirada da água, ele começou no serviço de carpinteiro. Levou muito tempo também no serviço de carpinteiro. Terminou o serviço de carpinteiro, ele comprou as pedras, duas pedras pequenas, porque era um moinho de pouca água. Mas, na tirada da água até chegar ao moinho, a vala de passagem da água tinha que atravessar uma lombada, que dificultou muito o trabalho de tio Joaquim, mas, ele conseguiu a passagem da água. Assentou as pedras, nivelou tudo direitinho. Tudo muito bem, o moinho já estava pronto, moendo o milho, tava tudo como ele queria.

 

Mas, como alegria de pobre dura pouco, com pouco mais de um ano, que o moinho estava dando alegria a tio Joaquim, uma certa noite, choveu uma chuva pesada e, no outro dia, o moinho estava parado, não tinha água no moinho. Tio Joaquim coçou a cabeça, resmungou sozinho, e foi ver o que tinha acontecido. Qual foi a sua surpresa? No lugar, aonde tinha atravessado a lombada, a força da água da chuva tinha deslocado uma grande pedra, que secou a passagem da água. Tio Joaquim suspirou, queixou-se com Maria, e ela só dizia a Joaquim: “– Não tem jeito não! A pedra é muito grande e o nosso monho não vai moer nosso milho”.

 

Tio Joaquim teve uma idéia: “ – Aqui, só Deus pode me ajudar!”. E buscou, com muita fé, do fundo do coração, uma palavra de Deus. “– Deus podia mandar um raio, que rachasse esta pedra”, e foram dormir. Essa outra noite foi também uma noite de chuva pesada. No outro dia, o moinho estava rodando. Assim como veio uma chuva e tapou a passagem da água, veio outra chuva, e o raio partiu a pedra, para a alegria de tio Joaquim. Mas, não ficou nisto só não.

 

Contava minha avó que, tia Maria adoeceu, e estava mesmo para morrer, quando tio Joaquim pensou: “Como eu vou ficar sem Maria, com oito filhos menores, pois Maria não quer comer nada, já faz muitos dias, de cama, só deitada, e só dizendo que vai morrer. Não!, Maria não pode morrer. Assim como Deus atendeu ao meu pedido, mandando um raio e partindo a pedra, eu vou fazer um outro pedido: Ó, meu Deus, leva eu em lugar da Maria”. E Deus atendeu ao pedido de tio Joaquim.

 

Diziam os meus avós que, no outro dia, tia Maria disse pra tio Joaquim: “Mata um franguinho. Vou ver se como ao menos a pontinha da asa”. Tio Joaquim fez o pedido de tia Maria e ela comeu a asa do frango. No outro dia, ela já comeu mais e, no terceiro dia, ela levantou e andou um pouquinho. E foi melhorando. E, quando ela já estava trabalhando, o tio Joaquim caiu de cama e, em poucos dias, morreu o tio Joaquim. Esta história de tio Joaquim era muito comentada, por todos os que conheceram o tio Joaquim. Isto foi acontecido em Laranjal, no município de Cataguases, no Estado de Minas Gerais.
 

quarta-feira, 20 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: VOVÔ TRABALHANDO E VOVÓ CHIQUINHA PESCANDO NO RIO CARANGOLA



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: VOVÔ TRABALHANDO E VOVÓ CHIQUINHA PESCANDO NO RIO CARANGOLA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 
 
 
Rio Carangola - Minas Gerais - Brasil

 

Com a mudança de Chico de Souza para São Pedro do Glória, meu avô José Antônio não quis acompanhá-lo. Preferiu mudar-se pra perto dos filhos, que já estavam casados e moravam em Cachoeira dos Pereiras (hoje, o lugar é conhecido como Cachoeira dos Alves). Nessa época, vovô e vovó Chiquinha estavam apenas com o filho caçula, por nome Camilo de Souza.

 

Meu pai Zeca de Souza, sendo o mais velho dos irmãos, casado com Antônia, filha de Joaquim Pereira. João, casado com Maria Cotinha (talvez, o sobrenome fosse Coutinho), filha de Antoninha, irmã de meu avô Joaquim Pereira; Maria, que foi casada com Manuel Lopes, que morreu ainda moço. Maria, depois de viúva, foi pedida em casamento por um irmão de minha mãe, por nome Joantônio, e Floripes, a caçula das filhas de vovô, também foi pedida em casamento por outro irmão de minha mãe, por nome Luiz Pereira, que era conhecido por Luizinho. Ana, a filha mais velha de meu avô José Antônio, foi a primeira que se casou com José Peroba, e estava morando na Zona Norte de Minas.

 

A tia Antoninha, que era sogra de tio João Pereira, e que ainda morava em Cachoeira, deu para meu avô Souza uma casa para ele morar, o tempo que fosse preciso, juntamente com sua família. Eu tenho ainda recordação da casa em que meu avô morou. Era uma casa modesta, de chão batido, parede de pau a pique, barreada com barro. Mas, ali, minha avó Chiquinha vivia muito contente, pois, perto, passava o rio Carangola, que era rico de peixes, e minha avó Chiquinha gostava de pescar. Todas as tardes, vovó Chiquinha tava na beira do rio pescando. E vovô José Antônio, que ainda tinha muita disposição para o trabalho, como ficava bem perto da Fazenda de tio Bastião Alves, vovô trabalhava diariamente para tio Bastião Alves, que tinha uma grande turma de trabalhadores de empregados, e os filhos, que eram também muito trabalhadores.

 

Os filhos de tio Bastião Alves tinham grande consideração por meu avô. Eles trabalhavam brincando, caçoando, o dia todo. Nas roçadas, o trabalhador tinha que ter a foice bem afiada. Aquele que não amolava a foice era castigado pela turma, os companheiros jogavam pau em cima dele. Na plantação de milho ou feijão, era dez litros de sementes para duas pessoas plantar; era a tarefa, quando acabasse o dia, tava ganho. E, assim, vovô José Antônio de Souza Moreira trabalhou na Fazenda de tio Bastião Alves por muito tempo.

 

Dali, da Fazenda de tio Bastião, vovô foi pra Fazenda de Chico Victor, pra tocar lavoura à meia. Também esta casa, que vovô morou nela, ficava pouco distante do rio Carangola, e vovó, sempre que tinha um tempinho, ficava na beira do rio, com o cachimbinho na boca. Vovó Chiquinha gostava de fazer guisado, e a comida tinha que ter bastante tempero, tinha que ser saborosa, por isso, era considerada uma boa cozinheira. Vovó sempre tinha, no fundo da lata de gordura, um bom pedaço de carne reservado. Da casa de vovó Chiquinha até a nossa casa não era muito longe, só tinha que virar um morro e chegar em nossa casa. Por isso, não precisava de companhia para vir em nossa casa.

terça-feira, 19 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: OS FILHOS LEGÍTIMOS DO PRIMO RICO ANTÔNIO DE SOUZA MOREIRA E MANEZINHO, O FILHO ILEGÍTIMO


 
A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: OS FILHOS LEGÍTIMOS DO PRIMO RICO ANTÔNIO DE SOUZA MOREIRA E MANEZINHO, O FILHO ILEGÍTIMO

 
ANTÔNIO DE SOUSA COSTA
 

 
 
 

 
Dizia meu avô que o compadre e primo Antônio de Souza Moreira era casado quatro vezes e teve filho com todas as mulheres, sendo que elas morriam e ele ficava pouco tempo viúvo. E sendo que ele tinha um filho natural, que era o seu primeiro filho, pois ele era ainda solteiro quando esse filho nasceu. Esse filho natural chamava-se Manoel de Souza, que tinha o apelido de Manezinho de Souza, e era filho de uma escura, empregada dos pais de Antônio de Souza Moreira. Manezinho de Souza era grande violeiro, tocava viola muito bem, tanto tocava rasgado na viola, como acompanhava cantando as suas cantigas.

 

Esse Manezinho de Souza e era o pai de tio Marcolino. O Manezinho de Souza viveu os seus últimos anos em casa de seu filho Marcolino.

 

Os outros filhos legítimos de Antônio de Souza Moreira, eu conheci quase todos. Na sede da Fazenda – eu ainda bem criança – conheci Chico de Souza, o primeiro filho nascido do primeiro matrimônio de Antônio de Souza Moreira. Morando mais acima estava Candinho de Souza; mais acima, Aprígio de Souza; e, na cabeceira do Córrego, aonde era o Sítio de meu avô José Antônio, morava Jove de Souza, que posteriormente ficou sendo dono de toda a propriedade que era de seu pai Antônio de Souza Moreira.

 

Antes de Chico de Souza vender a Fazenda para o irmão Jove de Souza, meu avô José Antônio trabalhou para ele. Meu avô trabalhou muitos anos na Fazenda do Chico de Souza, pois eles eram compadres e muito amigos. Vovô José Antônio de Souza Moreira não era considerado como empregado, pois era de toda consideração do patrão e da patroa, que era chamada comadre Maria.

 

Chico de Souza era um homem muito bravo, valente mesmo, e baderneiro. Batia com soiteira de tocar animal, dava tiros nos outros, tinha uma mula preta que entendia ele. Onde ela estivesse, ele chamava: “– Vem cá, Dióta”. A mula vinha. Chico de Souza era muito vaidoso, além de Dona Maria, que era a esposa, ele tinha outras mulheres por fora. Mesmo na Fazenda, tinha “amiga” [amante], e quem sofria com isso era Dona Maria, que não podia falar nada contra a vida do marido.  Minha mãe, que era comadre de Dona Maria e muito sua amiga dizia que, várias vezes, ouviu Dona Maria dizer para ela: “– Comadre Antoninha, eu tenho fé em Deus que, um dia, o Chico haverá de ser meu só!” Parece que Deus ouviu aquela mulher tão sofrida. Chico de Souza foi fracassando nos seus negócios, até que foi preciso vender a Fazenda para o irmão Jove, que não só comprou a Fazenda do Chico, comprou também a do irmão Candinho e do irmão Aprígio. Esta grande Fazenda ficou de herança pros filhos de Jove e, hoje em dia, é dos netos de Jove de Souza.

 

Chico de Souza ainda viveu muitos anos ao lado de Dona Maria, sua esposa legítima. Vendeu a Fazenda e ainda sobrou algum dinheiro, o qual deu para comprar um Sítio bem grande. Nesse Sítio havia uma grande casa de moradia e grande área de terra para plantações de cereais. Não eram terras boas para plantação de lavouras de café, era um terreno frio, mas muito bom para frutas de todas as espécies. Chico levou também o filho casado por nome Levino e quatro filhos solteiros. Tinha outros filhos casados, bem situados, que não precisaram acompanhá-lo. Chico de Souza deixou a vaidade, deixou também a valentia. Sendo um bom administrador, começou uma nova vida. Os filhos, na plantação de cereais. Em casa, ele, Dona Maria e Virgínia, uma sua filha que ficou solteirona, porque amava apaixonadamente um mulato, que era tropeiro de seu pai, quando era rico, e, seu pai, não deixou que o casamento fosse realizado. O mais importante desta história é que o tropeiro, mesmo sabendo que o patrão não deixava o casamento ser realizado, porque, além de ser pobre, cor bronzeada, era também empregado do pai da moça, mesmo assim, acompanhou a mudança de Chico de Souza até chegar em São Pedro do Glória, um alto de serra. O tropeiro era mesmo trabalhador. Em pouco tempo, tropeiro, já tinha a sua tropa de burros, e mesmo sabendo que não casava com Virgínia, ajudou o ex-patrão, em suas necessidades. Os irmãos e amigos também ajudavam Chico de Souza.
 

segunda-feira, 18 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU AVÔ JOSÉ ANTÔNIO E O PRIMO RICO ANTÔNIO DE SOUZA MOREIRA



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU AVÔ JOSÉ ANTÔNIO E O PRIMO RICO ANTÔNIO DE SOUZA MOREIRA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 
 
 
 


Voltando ao meu avô, por parte de pai, José Antônio de Souza Moreira. Dizia meu avô que, quando ele deixou Laranjal e veio morar em Divino de Carangola, ele não tinha recurso necessário para movimentar o seu Sítio e fazer a produção crescer. Precisava de alguém que lhe desse a mão. 

 

Ele tinha um primo rico, por nome Antônio de Souza Moreira, dono de uma grande Fazenda, que fazia divisa com a de meu avô, e que foi o mesmo que influiu meu avô para a compra desse Sítio. Então meu avô José Antônio procurou o primo Antônio de Souza Moreira e fez a proposta ao primo, dizendo que estava precisando de uma pessoa amiga, que pudesse emprestar a ele uma certa quantia de dinheiro, que era para movimentar o sítio e fazer plantações de café e todos os cereais, incluindo fumo. O primo Antônio de Souza Moreira concordou em fornecer a meu avô o que fosse preciso. Aí, meu avô começou a apanhar dinheiro e, até, algum mantimento, porque meu avô tinha vendido tudo o que possuía para poder comprar o Sítio e fazer a mudança.

 

Passado o primeiro ano, meu avô José Antônio não foi feliz na sua colheita. Ele separou da colheita os mantimentos da despesa de casa, e o restante que sobrou não deu para saldar a dívida. O primo Antônio de Souza Moreira não fez questão nenhuma, sempre dizendo: “– Primo Zé, o que ocê precisá, pode buscá. Eu tenho confiança em ocê, pois conheço ocê desde Laranjal, sei que ocê é homem direito e cumpridor de sua palavra”.

 

Veio o segundo ano, e a mesma coisa. E o terceiro ano, tudo do mesmo, aquela dívida sempre enrolada. E foi acumulando, até que um dia, o primo rico disse pra meu avô: “– Compadre Zé, ocê não vai poder me pagar a conta, que já anda muito alta. Agora eu preciso receber, não posso esperar mais”. Eles já eram até compadres, pois vovô casou uma das filhas e convidou o primo para ser testemunha do casamento. Aí, vovô pediu a ele que esperasse mais um pouco, porque não dava para pagar toda a dívida, mas o primo e compadre Antônio de Souza Moreira não aceitou proposta nenhuma de meu avô José Antônio, queria mesmo era o pagamento da dívida. Meu avô ficou muito aborrecido, porque teria de entregar o Sítio e ser obrigado a trabalhar de meeiro, tocando lavoura à meia com os fazendeiros. Com a compra do Sítio de meu avô, o compadre Antônio de Souza Moreira ficou mais rico ainda, mas foi por pouco tempo, ele morreu, deixando uma grande fortuna para os muitos filhos.

domingo, 17 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A AVENTURA DE TIO MANOEL PEREIRA



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A AVENTURA DE TIO MANOEL PEREIRA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 
 




Voltando à família João Pereira da Cunha, o Barba de Argolão. Desta vez, quero falar sobre Manoel Pereira, um irmão de meu avô Joaquim Pereira da Cunha. Eu ainda era bem criança quando ouvia falar sobre uma aventura de tio Manoel Pereira. Ele era casado com tia Rosalina, com quem teve muitos filhos.

 

Eu não conheci todos os filhos de tio Manoel Pereira, porque, quando eu nasci, tio Manoel já tinha se mudado pra Zona Norte de Minas. Mas eu conheci três dos filhos de tio Manoel Pereira: O mais velho por nome Francisco Pereira, Antônio Pereira e Reinor Pereira. Conheci também tio Manoel Pereira. Por duas vezes, ele veio passear em nossa casa, em Cachoeira dos Pereiras, hoje conhecida como Cachoeira dos Alves. Tio Manoel Pereira não era um homem forte como era o meu avô Joaquim Pereira, tio Manoel era franzino de corpo, de estatura média.  Tia Rosalina, esta eu não conheci, mas sempre ouvia falar sobre ela e tio Manoel Pereira, que viviam muito felizes, porque um entendia o outro muito bem.

 

Certa vez, tia Rosalina desejou beber água do tombo da cachoeira. Para ela, aquela água era mais gostosa, mais saborosa do que todas as águas. Em princípio, tio Manoel procurou convencê-la, que era impossível satisfazê-la, pois corria o risco de ele morrer e ela ficar viúva. Mas não adiantou nada, e ela sempre insistindo com ele. Até que ele resolveu arriscar a vida, para satisfazê-la. Então, ele pediu auxílio aos irmãos, que colaboraram com ele. Fizeram cordas bem reforçadas, amarraram as cordas pela cintura de Manoel, e ficaram segurando, com toda a força que possuíam, enquanto Manoel descia, na correnteza das águas, até chegar aonde ela dizia: “– É aí. É desta água que eu quero beber!” Os irmãos puxaram as cordas e retiraram ele, que trazia, em uma vasilha, aquela água, que a sua mulher desejou beber.

 

Mas, eu tenho cá pra mim, que o tio Manoel Pereira não gostou dessa aventura, talvez preocupado com a possibilidade de ter que repeti-la. Podia ser que a tia Rosalina tivesse outro desejo de beber daquela água tão clarinha, e ele, para satisfazê-la, fosse obrigado a descer novamente no tombo da cachoeira. Por isso, ele tratou de mudar-se. Todos os parentes diziam que o tio Manoel trocou o Sítio por uma égua e um cacho de banana, e logo se retirou da localidade Cachoeira.


sexta-feira, 15 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: VOLTANDO À FAMÍLIA PATERNA SOUZA MOREIRA



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: VOLTANDO À FAMÍLIA PATERNA SOUZA MOREIRA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA


 
 
 


Voltando à família Souza Moreira. Quase no final do século XIX, quando meu avô José Antônio de Souza Moreira deixou Laranjal e foi morar em Divino de Carangola, Zona da Mata, em Minas Gerais, o tio Zeca Moreira, que era casado com Maria Dussanto, irmã de meu avô Souza, também se mudou para a Zona da Mata. Tio Zeca Moreira comprou uma Fazenda pouco acima de Divino de Carangola, juntamente com tia Dussanto, como era chamada pelo meu pai. Levaram também a minha avó-bis Severina, que era a mãe de tia Dussanto. Eu tenho algumas recordações de como era a minha avó-bis.

 

Meu pai Zeca de Souza comprou dois carros de milho em palha de tio Zeca Moreira. No dia em que foram buscar o milho, eu pedi a meu pai para ir também. Embora eu fosse um menino, bem criança, podia ter cinco ou seis anos de idade, meu pai consentiu que eu fosse. Os carreiros eram dois irmãos, Juca Schetine e Agripino Schetine, e meu pai e eu fomos dentro do carro. Assim que chegamos na Fazenda do tio Zeca Moreira, meu pai, os carreiros e os filhos de tio Zeca foram apanhar o milho na roça. Eu fiquei em casa, porque era ainda muito pequeno para andar em mato. Aí, eu fiquei conhecendo a mãe de meu avô, que meu pai sempre falava nela, a vovó Severina.

 

Depois da morte de seu pai José de Souza Moreira, vovó Severina ainda viveu em companhia dos filhos, em Laranjal, mas, com quem ela se dava mais, era com a filha Dussanto. Quando o tio Zeca Moreira deixou Laranjal e veio morar em Divino do Carangola, vovó Severina veio com ele. Já com bastante idade, ela não gostava de ficar sem um serviço. Nos fundos da casa havia uma grande varanda, e ali era aonde vovó Severina trabalhava. O serviço dela era só fazer sabão. Havia uma fornalha feita de pedra e barro, um tacho de cobre assentado em cima da fornalha cheio de torresmo ou sebo de boi, um barreleiro cheio de cinza, com água pingando, adequada, que era para cortar a gordura do sabão, e vovó Severina tinha um tamborete de madeira, onde ela ficava sentada, mexendo o sabão até chegar ao ponto certo. Vovó Severina era baixinha, de olhos azuis, cabelos lisos já bem branquinhos, alegre, conversava muito. Fiquei muito tempo ao lado dela, apreciando como ela mexia o sabão.

 

Depois, eu fui até ao engenho de cana movido a água. Estava ali alguns dos filhos do tio Zeca Moreira, com os empregados, fabricando rapadura. Até hoje em dia tenho recordação, como as canas caianas (canas de Caiena) eram macias, para chupar o caldo. Era uma Fazenda de muita fartura.

 

Quando os dois carros chegaram cheios de milho em palha no terreiro da Fazenda, e os carreiros soltaram os bois, para descansarem e beber água, tio Zeca chamou meu pai e os carreiros para o almoço.

 

Tio Zeca Moreira estava naquele dia muito contente, conversando com meu pai e os dois moços carreiros, filhos de um grande amigo do tio Zeca Moreira. O pai desses moços, que foram fazer esse carreto para meu pai, chamava-se Jenuário Schetine, mas era conhecido por Jenuarinho. Jenuarinho era compadre de meu pai e muito amigo da família. Assim que os bois descansaram, os dois moços pegaram os bois, despediram-se, e voltamos com os carros, cantarolando estrada a fora.

 

Quando chegamos em frente à Fazenda de tio Bastião Pereira, tio de minha mãe, já estava anoitecendo. Naquela época, não havia estrada boa, eram subidas e descidas, cheias de curvas, atoleiros, pontes de madeira de paus roliços. Ao passar por cima de uma ponte, que cobria o rego d’água do moinho de tio Bastião Pereira, o carro do Juca, muito pesado, abalou a ponte, a ponte começou a desmanchar. O carro do Agripino vinha atrás e, quando chegou em cima da ponte, as madeiras roliças se juntaram na frente das rodas do carro de bois, e carro tombou, esparramando milho por todos os lados. Isto já era noite. Levantaram o carro, acertaram a esteira do carro, que, com o tombo, tinha sido arrancada do carro, com os fueiros, e começaram a carregar o milho pra dentro do carro.

 

Nesta hora, chegou um filho de tio Bastião Pereira, por nome João Pereira, o mais velho dos irmãos, e disse para meu pai: “– Ocês ainda não jantaram, devem estar com fome!” Meu pai disse ao João Pereira: “– Nós ainda não jantamos, mas nós vamos jantar em casa. Se ocê quiser dar comida ao meu menino, eu aceito”. Aí, João Pereira me levou até a casa dele e mandou a mulher, por nome Filomena, arranjar um prato de comida pra mim. A comida estava muito boa, mas a linguiça estava apimentada, e eu não gosto de pimenta, mas a fome era tanta que eu comi a comida toda, e, até hoje, relembro aquela comida tão boa.