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domingo, 28 de fevereiro de 2010

SERTÃO: CASA DA INFÂNCIA




SERTÃO: CASA DA INFÂNCIA

NEUZA MACHADO



A Poética da Casa de Gaston Bachelard (A Água e os Sonhos) possibilita ao teórico da literatura, possuidor do conhecimento de como se interpretar um texto literário pelos princípios da fenomenologia, uma incursão/excursão ao Sertão Ficcional de Guimarães de Rosa. Suas primeiras narrativas, escritas sob o impacto da descoberta de um mundo sertanejo incomum, apresentam a parte externa, pitoresca, de um espaço geográfico, memorável, resgatado das impressões da infância. Entretanto, o sertão mineiro, como representação legítima da casa inesquecível do escritor, só começa a ser recuperado criativamente a partir de A Hora e Vez de Augusto Matraga, revelando seus recantos secretos, seus refúgios, seus abrigos. O narrador, nesta narrativa, já evidenciando uma mudança de perspectiva (saíndo da perspectiva horizontal para a perspectiva interativa, questionadora), recordando o sertão, auxiliado pela contribuição da matéria lírica, recorda a casa da infância daquele que o concebeu ficcionalmente, e é por isso que o escritor sertanejo, num determinado trecho, liberta-se do jugo do narrador experiente, para recordar a antiga morada. É seu passado inesquecível que se sobressai, quando se descontrola discursivamente, em sua narração dos acontecimentos que pautam a volta de Nhô Augusto ao Arraial do Murici. A volta do personagem representa o retorno das recordações de uma infância privilegiada. Por esta razão, observa-se o tom poético, o discurso estranho, diferente, o qual se verifica a partir da decisão de Nhô Augusto de regressar a seu arraial de origem. O ficcionista, sob a influência da consciência fervilhante, obriga o seu narrador do momento a partilhar de suas próprias emoções, nomeando os pormenores da caminhada e interagindo com os sentimentos inerentes a seu personagem ficcional.

O narrador informa que Nhô Augusto não percebia os rumos que tomava. Afirmo, desvinculando-me da constantemente modificada orientação analítico-estruturalista (com inovadora consciência interativa): o Artista literário do século XX não percebia os rumos que a narrativa tomava. Bachelard orienta-me: a casa — o sertão — faz o ficcionista devanear, faz seu narrador poetizar. Sertão inesquecível. Narrador - já agora pós-moderno - que não consegue esquecer o castelo intrigante e misterioso de seu heróico passado sertanejo, o qual permanece vívido em suas recordações. Valores verdadeiros de uma antiga realidade imaginosa. Não são os valores objetivos que contam. Contam mais os momentos marcantes da infância e adolescência vividos naquele lugar, os quais permaneceram indeléveis no íntimo do Artista. Narrador-Poeta ou Poeta-Narrador, ou simplesmente Poeta? Os poetas não delegam poderes, apenas sentem, recordam, devaneam, não transitam entre dois mundos diferentes, se encontram além da objetividade histórica. Por tais motivos, centralizei minha investigação sobre a poética da casa, ao interagir interpretativamente com a narrativa A Hora e Vez de Augusto Matraga, nos trechos que reproduzem a interferência da matéria lírica na criação ficcional do narrador.

Bachelard cita Jung em sua Introdução:

"Temos que descobrir uma construção e explicá-la: seu andar superior foi construído no século XIX, o térreo data do século XVI e o exame mais minucioso da construção mostra que ela foi feita sobre uma torre do século II. No porão descobriram fundações romanas e, debaixo do porão, acha-se uma caverna em cujo solo se descobrem ferramentas de sílex, na camada superior, e restos de fauna glaciária nas camadas mais profundas. Tal seria mais ou menos a estrutura de nossa alma" (Bachelard).

O sertão literário de Guimarães Rosa está nas bases da estrutura de vida do narrador, extensivo portanto às bases de estrutura de vida do ficcionista. O andar superior foi construído no século XX; o térreo (ligado ao sertão mineiro) data do século XVI, início da História do Brasil; mas, se houver uma observação minuciosa, será possível compreender que esse Sertão tem seu alicerce cravado na Era Medieval. Observando as camadas mais profundas, apreende-se uma origem sueva localizada numa fase pré-medieval de Portugal, em um tronco familiar bárbaro, cujo apelido (sobrenome) de família era Guimaranes.

Eis o depoimento de Guimarães Rosa ao crítico Lorenz:

"Para sermos exatos, devo dizer-lhe que nasci em Cordisburgo, uma cidadezinha não muito interessante, mas para mim, sim, de muita importância. Além disso, em Minas Gerais: sou mineiro. E isto sim é o importante, pois quando escrevo, sempre me sinto transportado para esse mundo: Cordisburgo. Não acha que soa como algo muito distante? Sabe também que uma parte de minha família é, pelo sobrenome, de origem portuguesa, mas na realidade é um sobrenome suevo que na época das migrações era Guimaranes, nome que também designava a capital de um estado suevo na Lusitânia? Portanto, pela minha origem, estou voltado para o remoto, o estranho. Você certamente conhece a história dos suevos. Foi um povo que, como os celtas, emigrou para todos os lugares sem poder lançar raízes em nenhum. Este destino, que foi tão intensamente transmitido a Portugal, talvez tenha sido culpado por meus antepassados se apegarem com tanto desespero àquele pedaço de terra que se chama o sertão. E eu também estou apegado a ele" (Guimarães Rosa).

O Sertão ficcional roseano simboliza a casa inesquecível do Artista Literário. Dentro desta casa íntima há um determinado Sertão que não se esquece, por isto ele diz a Lorenz, na Entrevista, que leva o sertão dentro dele e que o mundo em que vive é também o sertão. Sua literatura nasceu de sua vida íntima e sua verdade existencial se orienta através das recordações do sertão. A memória (matéria épica) é insuficiente para transmitir sentimentos que remontam a pré-fase da humanidade, inserida na alma de um único homem. Pelo prisma psicológico/filosófico de Gaston Bachelard (Poética do Espaço), a primeira morada será sempre a base de futuras recordações.

As primeiras vivências, mesmo aparentemente esquecidas, permanecem alojadas, armazenadas em íntimos compartimentos secretos. O interior desse sertão (sua intimidade, sua primeira morada) transparece por meio do olhar nostálgico de seu narrador. Se a narrativa, nas últimas seqüências, se processa mediante um discurso diferente do comumente usado para reproduzir a realidade, isto se dá graças à complexidade de se recordar de quem narra. A recordação (matéria lírica) é caótica e, pelo ponto de vista da criação, valiosa. Por estas razões, as imagens finais se encontram dispersas e, ao mesmo tempo, há um corpo de imagens, fervilhante, que as legitima no âmbito da ficcionalidade.

Seguindo ainda as teorizações de Bachelard, percebe-se que esse acúmulo de imagens (ou imaginação além dos limites) aumenta os valores da verdadeira realidade do sertão mineiro no sentido material. O sertão mineiro foi a primeira morada do escritor Guimarães Rosa, o Sertão literário roseano concentra as imagens dessa casa. No sertão da infância, antes de tomar para si as rédeas de sua própria proteção, ele foi um ser protegido. Foi ali que conheceu o calor do fogão a lenha e o aconchego do afeto familiar. Depois o mundo o envolveu.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

GUIMARÃES ROSA: AS PERSPECTIVAS BACHELARDIANAS - 9




AS PERSPECTIVAS BACHELARDIANAS

NEUZA MACHADO


Por último, um esclarecimento sobre as quatro perspectivas do pensamento, assinaladas por Bachelard e recuperadas transmutativamente nestas argumentações para o embasamento de meu particular reconhecimento da obra roseana. São elas as perspectivas anulada, dialetizada, maravilhada e de intensidade material infinita, as três últimas ligadas aos aspectos materiais do pensamento, valendo-se, cada uma, numa ordem hierárquica, dos pensamentos formal, material, falado e criador.

A perspectiva anulada estaria simplesmente ligada ao pensamento formal: linear, sintagmático, descritivo. A adjetivação anulada não significa depreciação, significa apenas a forma correta que o filósofo encontrou para nomear a perspectiva do sujeito que olha sempre horizontalmente, sem questionamentos existenciais. A perspectiva anulada reproduz os reflexos exteriores da realidade (as cores e as formas de uma natureza encantadora e sem máculas).

A perspectiva dialetizada, apesar de ainda estar presa ao plano sintagmático, já direciona o olhar questionador, oscilante, para a descoberta do que se oculta na natureza, em outras palavras, é uma perspectiva ligada aos aspectos materiais da realidade (presa oscilatoriamente à imaginação material), caracterizada apenas pelo elemento terra. A visão dialetizada torna-se aguçada, penetrante, propensa a movimentos pendulares, transformando o que se deseja ver em objeto, ou mesmo se colocando no interior desse objeto, para ver com maior nitidez.

A perspectiva maravilhada está intimamente unida à perspectiva dialetizada. Depois do olhar inquisidor e oscilante, ainda linear (perspectiva dialetizada), surge um novo olhar maravilhado, propenso à verticalização do pensamento criador. O sujeito se extasia diante da grandeza que descobre. As minúcias da realidade se dilatam indefinidamente, porque a visão do sujeito começa o seu processo de elevação em direção a um olhar paradigmático, próximo ao individualismo. A perspectiva maravilhada propõe-se então a descrever o interior da matéria observada. Nesse estágio, o observador/sonhador não pára mais de observar/sonhar. Ao alcançar esse estágio, Guimarães Rosa premiou-nos com a sua grande obra Grande Sertão: Veredas.

Posteriormente, submetido à perspectiva substancial infinita, o olhar do sonhador/ intérprete se desprende totalmente do plano horizontal, porque o sujeito já se transformou em indivíduo e já alcançou o estágio da pura intuição. O olhar agora não se prende apenas à descrição das formas da matéria (exteriores e interiores), prende-se à descrição dos movimentos da matéria, detectando imagens novas, criando imagens dinâmicas a partir das imagens estáveis. O olhar móvel e paradigmático propiciará então uma descrição minuciosa das qualidades voláteis da matéria, ou melhor, das matérias que compõem a realidade vital, já que observará, por vários ângulos interativos, as formas antes indefinidas: o fogo, a água e o ar. As obras finais de Guimarães Rosa, a começar de Primeiras Estórias, adquiriram forma ficcional através dessa perspectiva.

Fechando minhas considerações sobre as perspectivas, já poderei afirmar, conscientemente, que as perspectivas dialetizada, maravilhada e a substancial infinita necessitam, no plano narrativo, da contribuição do pensamento formal. No âmbito da ficção, este plano formal do pensamento exigirá do estudioso muita atenção, uma vez que o cogito(1) (pensamento formal, linear), será sempre a base que sustentará os outros patamares dos cogitos verticais. Um texto ficcional vertical, por mais elevado ou profundo que seja, necessitará sempre da sedução das formas, do encanto que emana do pitoresco, para que possa realizar seu objetivo final: receber a atenção do Leitor.

Realçando mais uma vez minhas premissas, limitarei a minha proposta para um interativo posicionamento crítico, brasileiro, a quatro módulos, para o desenvolvimento e fecho de meu objetivo: (a) falar do Artista ficcional Guimarães Rosa e suas faces sociais, de sua obra e matéria eleita; (b) de seu momento de repouso ativado (estado reflexivo situado num tempo suspenso entre o antes e o depois), momento de intermediação que projeta ou não o pensador para uma ascensão aos cogitos superiores; (c) abordar a problemática da psicanálise da criação (os cogitos e os elementos que marcaram a produção literária de Guimarães Rosa, além de sua própria introjeção no seu universo ficcional), problemática esta dialetizada ad infinitum pelo ficcionista, o qual não se desprende em absoluto dos cogitos dois e três, (d) mesmo constatando-se a sua familiaridade com o cogito(4) (a facilidade em transformar o ilógico em lógico, no universo da Ficção-Arte).

O além do cogito(3) fechará minhas elucubrações teóricas sobre o escritor e sua Obra, momento em que procurarei provar que o cogito(4), mesmo sendo um plano de difícil acesso (fora dos limites vitais, no qual poderiam ser incluídos os Loucos e os Visionários), é uma dimensão que foi alcançada, criativamente, pelos escritores brasileiros do século XX. Na impossibilidade de desenvolver um reconhecimento crítico globalizante sobre esses escritores, destacarei um singular intérprete ficcional da realidade interiorana de Minas Gerais, Guimarães Rosa, independente das teorias que o avaliam como narrador de estórias sertanejas.

Para reforçar minhas convicções teóricas, as quais levaram-me a pensar e repensar a forma correta de como sustentar a defesa de meu objetivo central, contei, evidentemente, com a contribuição filosófica de Gaston Bachelard, sobre a duração e sua positividade/negatividade e vice-versa e suas providenciais argumentações sobre as matérias que compõem a vida. Além de Bachelard, assinalarei, também, as contribuições sociológicas de Max Weber e Walter Benjamim, e de outros pensadores e teóricos. Deste modo, pelo ponto de vista da interdisciplinaridade, foi possível detectar tais contribuições sociológicas e, diluídas ao longo destas páginas, as contribuições de vários estudiosos da hermenêutica do texto literário, além de se apreender com clareza minha formação de base semiológica, alicerce analítico para os demais paradigmas críticos da atualidade.

Finalizando, o que se busca nesta Proposição é reconhecer a escalada sócio/mental do Artista brasileiro Guimarães Rosa, nato do sertão e cidadão do mundo, aos cogitos superiores da consciência pura. Depois do reconhecimento, passarei a evidenciar a sua incursão/excursão ao plano intermediário entre o mundo vital e o mundo espiritual e o seu retorno ao plano do cogito(3) do pensamento puro, representado, nas suas últimas fases criativas, por um discurso insolitíssimo (Vazio Criador), beirando os limites frágeis da normalidade.

Neuza Machado (Doutora e Mestre em Ciência da Literatura / Teoria Literária - Formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro)

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

GUIMARÃES ROSA: IMAGINAÇÃO FORMAL x IMAGINAÇÃO CRIADORA - 8

NEUZA MACHADO



IMAGINAÇÃO FORMAL x IMAGINAÇÃO CRIADORA

NEUZA MACHADO


Ainda dialogando com Bachelard ― para o desenvolvimento de minha proposição teórico-interpretativa sobre a criatividade ficcional de Guimarães Rosa ―, reflito nas duas linhas distintas de imaginação destacadas em seus estudos filosóficos: a imaginação que dá vida à causa formal e a imaginação que dá vida à causa material. Essas duas imaginações classificam, separadamente, as forças imaginantes da mente. A imaginação que dá vida à causa formal se submete ao impulso do pensamento que tem desejo de novidade, buscando nas formas exteriores da realidade apenas os aspectos pitorescos e primaveris. A imaginação que dá vida à causa material, ao contrário, escava o fundo do ser, procurando encontrar o primitivo e o eterno. É portanto a imaginação que busca o aprofundamento na substância.

A imaginação que dá vida à causa material (imaginação material) é própria da matéria terrestre. Repleta de imagens estáveis e tranquilas, poderá ser modelada, uma vez que se atém aos aspectos perceptíveis/palpáveis da realidade.

Essas duas linhas da imaginação estão presas à realidade concreta. A imaginação formal se prende à forma exterior da matéria. A diferença é que, enquanto uma (a imaginação formal) se diverte com o inesperado, a outra (a imaginação que dá vida à causa material) quer aprofundar-se na história e buscar na natureza o princípio de tudo, o princípio da própria matéria.

Paralelamente a essas duas imaginações da matéria terrestre, há também a imaginação falada e a imaginação criadora:

A imaginação falada é a imaginação que reproduz a realidade, submetida à percepção e à memória e não pode ser modelada pelas mãos. Ela é modelada pela fala e pela percepção do impalpável. Esse tipo de imaginação não se aplica à matéria terra: é a imaginação das matérias inconsistentes e móveis (a água, o fogo, o ar), composta por imagens instáveis.

A imaginação criadora, ao invés de simplesmente reproduzir, duplica — ou recria — a realidade, produzindo uma nova realidade. Ela não é apenas formada, materializada, falada; ela ultrapassa a realidade, já que, poderosamente criadora, vigora em função do irreal, reconhecendo os valores da solidão. Na imaginação criadora, as imagens são imaginadas, fazem parte do imaginário-em-aberto do indivíduo, pois que se originam do fundo do ser que imagina. O ser, possuidor da imaginação criadora, produz em seu íntimo as imagens que formarão posteriormente uma realidade (literária) diferente da realidade substancial. Assim, a imaginação criadora está indissoluvelmente ligada à imaginação literária (falada/escrita). Há a separação, porque nem sempre os possuidores da imaginação criadora desenvolvem seus talentos literários.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

GUIMARÃES ROSA: IMAGINAÇÃO x IMAGINÁRIO-EM-ABERTO - 7

NEUZA MACHADO


IMAGINAÇÃO x IMAGINÁRIO-EM-ABERTO

NEUZA MACHADO


No que se refere a minha distinção entre sujeito e indivíduo, penso que alguns esclarecimentos serão necessários. Os termos sujeito e indivíduo farão parte do desenvolvimento de minhas reflexões, significando cada um os cogitos que compõem a vida emocional-racional do ser. O sujeito, simbolizando o ser adstrito às leis e normas (conformado e limitado ao cogito(1)), e indivíduo, simbolizando o ser possuidor de idéias próprias, particulares, componente de um pequeno grupo que busca a evolução do pensamento, cada um a seu modo, possuidor, enfim, de uma consciência singular.

O conceito de imaginação, recuperado nestas páginas para uma compreensão teórico-filosófica da obra de Guimarães Rosa, prende-se à orientação bachelardiana que a vê como faculdade de deformar imagens ao invés de "formar imagens". (A faculdade de deformar imagens não poderá ser avaliada ou interpretada, aqui, depreciativamente. Bachelard não desenvolveu suas idéias filosóficas submetido a juízos preestabelecidos). A "formação de imagens" liga-se mais à percepção do sujeito integrado ao Mundo (seja ele representante de qualquer segmento da Arte), e sua imaginação seria simplesmente evasiva, aberta, submetida às substâncias sociais. A imaginação dinâmica do Artista literário brasileiro do século XX (literatura-arte), poderosamente deformadora, ao contrário, é um convite a uma incursão-excursão ao imaginário-em-aberto (evidentemente, submetida ao racionalismo da consciência singular), ou seja, um convite para uma incursão/excursão rumo ao Desconhecido (Mundo do Silêncio, Mundo do Vazio Criador, ou qualquer denominação oriunda das inúmeras nomenclaturas teórico-críticas já existentes).

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

GUIMARÃES ROSA: ASCENSÃO AO CONCRETO DA FORMA FICCIONAL - 6



ASCENSÃO AO CONCRETO DA FORMA FICCIONAL

NEUZA MACHADO


Recapitulando a temática dos cogitos, no cogito(1) (cogito primário) percebe-se que todo pensamento gera uma representação no mundo físico, uma causalidade eficiente. Quando o pensamento não é concretizado imediatamente, gera um impasse (uma argumentação), e esse impasse obriga a uma busca de novas formas de concretização do pensamento inicial. Este momento de impasse (reflexões, questionamentos) localiza-se no cogito(2).

No cogito(2), o pensamento ativado, nascido de um primeiro pensamento, gera uma reflexão (ou uma interrogação, quando não há a possibilidade de concretizar o pensamento), que poderá ou não levar a uma causalidade final (cogito(2)) ou a várias causalidades díspares (cogito(3)). Este impasse é uma interrupção, um desvio, na cadeia causal. Entre causa e efeitointervenções que modificam o fim esperado, intervenções essas que preparam a renovação do probabilismo de acontecimentos, os quais não estão em absoluto ligados à determinação causal. Se a causalidade final (cogito(2)) não for alcançada, propiciará uma nova lacuna, possibilitando uma nova busca, que poderá ou não atingir ao plano do cogito(3) da consciência pura.

Sobre o cogito(3): Quando se chega a este estágio de repouso ativado (ou repouso fervilhante), o ser, aquele já desenvolveu tais capacidades de pensamento, poderá conseguir quase tudo o que necessita no plano da vida consciente. Por isto, Bachelard (A Dialética da Duração) afirma que o indivíduo que alcança esse nível de conhecimento de sua atividade psíquica passa a ter uma particular felicidade. No cogito(3), plano lacunar, quase espiritual (abeirando-se do espiritual), o que o indivíduo imaginar, em termos de idéia, já toma uma forma definida, que poderá adquirir vida no mundo dos fenômenos, se ele assim o desejar. O que este indivíduo imaginar, no plano do pensamento puro, ao nível do cogito(3), tem tanta força, aparece tão bem definido, que ele saberá como dar forma a essa imaginação no mundo real. O ser especial, singular, o que consegue alcançar o cogito(3), não tem necessidade da representação (primária) da realidade vital — ordinária, linear —, pois a representação desse cogito se basta da forma que foi alcançada no tempo do pensamento, que é tão definida quanto seria se ela fosse representada no plano do tempo vital. É nesse espaço do pensamento (ainda nos limites da realidade vital, mas acima do tempo vital) que a vida espiritual (cogito(4)) torna-se estética pura, vida esta que só se tornará possível dentro do tempo descontínuo. Penso, revigorada por tais idéias, na literatura do século XX e início do século XXI, especificamente, como oriunda do cogito(4), plano da espiritualidade, descontínuo, mas formalizada esteticamente no cogito(3), plano do pensamento puro e inovador.

A instantaneidade das formalizações bem ordenadas do tempo do pensamento não admite sucessão de níveis; os níveis ficam juntos numa ordem própria, tendendo para fora do eixo horizontal. É por causa dessa tendência para fora que existe a percepção intuitiva de uma sucessão de níveis. Em cada nível, existe uma qualidade psicológica que, em nível um, por exemplo, por estar preso à realidade, preenche as lacunas, para manter a idéia linear de continuidade. Para quem está no cogito(1), ou mesmo no cogito(2) (cogito este já propenso ao pensamento lacunar), a vida temporal de quem se encontra no cogito(3) denota a presença de espaços mentais vazios. Nesse estágio, o pensamento transmutativo (privilégio do cogito(2), mas poucas vezes reativado) se evidencia com maior riqueza. Toda a vida do pensador (pensador singular, original) será fundamentada na força das formas (pensamentos) ainda não conceituadas, as quais darão coerência a sua vida mental, dissociada das razões corriqueiras.

Por estas razões, invadi esta dimensão particular do ficcionista Guimarães Rosa, impulsionada pelos estudos de Bachelard sobre a duração, desenvolvendo o que chamarei aqui de Psicanálise da Criação. Da filosofia bachelardiana retirei a minha idéia de uma consciente ascensão do escritor aos últimos estágios do pensamento, próximos ao cogito(4) da espiritualidade, plano totalmente lacunar, consentindo assim, a si mesmo, uma continuidade psíquica de suas origens no âmbito da Arte.

A força das formas desconhecidas (não conceituadas, intuídas), força que oferece coerência à vida lacunar, dissociada das razões corriqueiras, é o que Bachelard chama de estética pura, usando outras palavras, a transcendência formal/material, a ultrapassagem do tempo (sucessivo) das formas reais. O que se intui no cogito(3), para ter coerência, para ter duração e representação no mundo vital, terá de ser justificado por razões (juízos, conceitos), as quais passaram antes por atitudes psicológicas formalizadas e diversificadas. A razão, proveniente da definição psicológica, dará apoio (consistência) às intuições vislumbradas pelo pensador.

Fundamentando-me na idéia da transcendência dos pensamentos formal e material (o além do cogito(3)), desenvolvi a tese da sobrecarregação dinâmica dos significados, ou seja, quando se sobrecarrega a dinâmica dos significados, a linguagem transcende o discurso numa dimensão novamente inicial (do Desconhecido, do Abismo, do Silêncio, do Não-dito, do Amorfo), e esta transcendência, ao contrário de esconder o seu significado, como enigma, dá às claras o seu sentido como Arte, realizando uma transformação que impulsiona o Leitor ao exacerbamento da realidade, ultrapassando a Loucura e efetivando depois uma ascensão ao concreto da forma literária, isto é, na recriação literária dos três cogitos socialmente aceitos.

Quero realçar, aqui, a minha própria leitura sobre esta ascensão ao concreto da forma ficcional-arte, realizada primeiramente pelo Artista literário, ao formalizar seus pensamentos criativos, e em seguida pelo Leitor, ao compactuar e colaborar com o texto lido. Depois de ter conhecido a escalada dimensional do escritor Guimarães Rosa, brasileiro, nascido em um pequeno burgo incrustado no Sertão das Gerais, até o último estágio do pensamento permitido pela razão, o Leitor conseguirá também alcançar o mundo do imaginário-em-aberto, aproximando-se, por intermédio da leitura, do plano descontínuo da espiritualidade.

O ficcionista moderno, preso a seu momento estético, alcança a região limítrofe que separa o plano vital do plano da espiritualidade, mas não se afasta do cogito(3), cogito vital, ao contrário, reafirmo, equilibra-se entre os dois cogitos (cogito(3) e cogito(4)), concretizando o que vislumbrou no mundo amorfo e descontínuo, sob a forma ficcional.

Empenho-me em afirmar que não é o texto (literatura-arte), mas é o Artista ficional brasileiro Guimarães Rosa, inserido em uma realidade insólita, lacunar, de país terceiromundista (décadas de 50 e 60), que ultrapassa o terceiro cogito, aproximando-se do tempo espiritual (cogito(4)). Por sua ligação vital com a História do século XX, ele adquiriu o privilégio de intuir e recriar, literariamente, os descontínuos de sua própria vivência de brasileiro, desde a infância no sertão até aos mais elevados cargos sociais. Na verdade (não seria incorreto afirmar), quem ultrapassa o terceiro cogito é a realidade brasileira, além do narrador e de suas narrativas. A nossa lógica não se identifica completamente com o racionalismo europeu. No Brasil, mesmo nas cidades, nas camadas primárias, é a lógica do Sertão (Mitos, Ambigüidades, Imagens, Símbolos) que completa o imaginário da população e o seu mundo referencial.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

GUIMARÃES ROSA: REPOUSO FERVILHANTE ANTECEDENDO A CRIAÇÃO FICCIONAL - 5



REPOUSO FERVILHANTE ANTECEDENDO A CRIAÇÃO FICCIONAL ROSEANA

NEUZA MACHADO


Para Bachelard, a vontade do pensador se origina do repouso fervilhante. Há uma grande diferença entre o repouso, ato de descansar a mente das paixões cotidianas, e o repouso fervilhante do pensamento (repouso ativado), algo ainda meio vazio, em suspenso, oscilando entre o antes e depois do tempo do pensamento. O indivíduo, consciente de seus pensamentos, adquire o direito de colocar sua inteligência a serviço de fervilhantes questionamentos ou reflexões, os quais poderão ou não renovar as formas ideológicas já instituídas socialmente.

Ao momento que sucede o repouso ativado, início de novas e originais formas de pensamento, Bachelard denomina de juízo de descoberta.

O repouso fervilhante (ou repouso ativado) traduz-se, em princípio, por um esvaziamento da mente em relação aos conceitos usuais, uma reflexão que induz a uma breve imobilidade mental, na qual se acrisolam pensamentos díspares, os quais serão reordenados inversamente em seguida e direcionados para novas e surpreendentes descobertas mentais.

O juízo de descoberta, originário desse repouso ativado, é diferente também do juízo afirmativo, juízo este postulado por Henri Bergson e reavaliado por Gaston Bachelard. O juízo afirmativo, juízo das formas já institucionalizadas, apenas acentua o caráter de uma afirmação. Por exemplo, dois juízos em que o primeiro afirma que uma mesa é branca, apenas deixa transparecer o caráter determinado e direto do juízo exposto; quando se afirma o contrário, ou seja, que a mesa não é branca, observa-se simplesmente o caráter indeterminado e indireto do segundo juízo. O juízo de descoberta modifica os valores da verificação sobre a mesa branca. Ao invés de repetir a cor ou não da mesa, propicia a descoberta de uma singular mesa branca, especialíssima; suscita um debate positivo sobre uma diferente e polêmica mesa branca, gerando espanto, exclamações, discussões, fundados em dúvidas preliminares. Descobre-se enfim a existência de uma especialíssima mesa branca, em meio a tantas e tantas mesas brancas ou não. Galileu, por exemplo, descobriu o movimento da Terra e foi castigado por seu atrevimento.

Ainda acompanhando o raciocínio de Bachelard, as confirmações do juízo afirmativo nem sempre demonstram conhecimento positivo. Tal conhecimento deverá ser observado nas ondulações dos argumentos gerados pela dúvida preliminar (polemizada), tal conhecimento poderá ser constantemente destruído e reconstruído, às vezes nunca terminando a construção, mas, sobretudo, deverá aspirar ao impulso renovador do pensamento transmutativo.

Sobre a filosofia de Henri Bergson, quero esclarecer que Bachelard não a rejeita, em absoluto; apenas utiliza-se dela para desenvolver suas reformulações sobre a questão da duração, reformulações que têm também uma ligação reflexiva com Albert Einstein e Gaston Roupnel, como já foi dito antes. De minha parte, o que apreendi da filosofia de Henri Bergson, sobre a duração, evolou-se de uma reflexão rápida do quarto capítulo de seu livro L'Évolution Creatrice, “Le Devenir Réel et le faux Évolutionisme”; a contra-argumentação é genuinamente de Gaston Bachelard, realçada em suas adesões e críticas ao pensamento do filósofo da metafísica do pleno. Não darei profundidade aos estudos de Bergson por razões estratégicas. Com isto, evitarei uma provável introdução de um elemento novo em minhas teorizações, o que dificultaria o objetivo de meus juízos diferenciados sobre uma entre inúmeras formas de o estudioso da literatura se envolver com o texto literário. Entretanto, as atuais exigências acadêmicas, relativas à interdisciplinaridade, estarão aqui realçadas. Esta inovadora orientação crítico-pedagógica traduz-se como um alerta em face deste recente momento de transição histórico-socio-literário para o Terceiro Milênio.

Depois da intermediação, refletirei sobre a temática dos cogitos propriamente dita, ligando-a, num processo interativo, ao universo literário de Guimarães Rosa, ressaltando os quatro elementos que sustentam a vida (terra, água, fogo e ar), os quais estão presentes na obra roseana sob o predomínio da imaginário criador ativado, alicerçando-a e propiciando, seletivamente, a ascensão do escritor aos cogitos superiores.

Os quatro elementos agirão como degraus e serão eles os responsáveis pela mudança de pensamento do ficcionista de ascendência sertaneja, desde Sagarana (pequenas narrativas experientes, ligadas aos aspectos exteriores do sertão) até a fase final, na qual se detectam a sua ascensão ao plano intermediário (entre o cogito(3) e o cogito(4)) e a posterior concretização de seus pensamentos criativos singulares, originários desse plano incomum. A esta parte intermediária, ligada à temática dos cogitos e aos elementos vitais, chamarei Psicanálise da Criação.

Sobre este título, Psicanálise da Criação, quero esclarecer que o termo surgiu em minhas incursões teóricas ao universo filosófico-psicológico de Bachelard, já que ele se auto-define como psicólogo de livros. Adotei esta terminologia para explicar o terceiro momento da atividade criativa de Guimarães Rosa. Psicanálise da Criação passará a ser, aqui, exclusivamente, o título de um capítulo de minhas explanações teóricas, sem um compromisso interdisciplinar com a Psicanálise do Texto Literário propriamente dita, representando apenas o meu particular método de abordagem, unindo a Ciência da Literatura à filosofia bachelardiana. Este título se fez necessário, porque, procurando desvendar as desordens mentais do moderno (ou pós-moderno?) narrador roseano das últimas fases (Primeiras Estórias, Estas Estórias e Tutaméia), atingi teoricamente a vida psíquica consciente e inconsciente do Artista ficcional brasileiro do século XX, independente de ser ele Guimarães Rosa ou não, preso ao seu próprio tempo histórico desordenado.

(Observação: É importante afirmar e reafirmar sempre que a palavra desordem, realçada aqui e em algumas páginas dos capítulos seguintes, não possui caráter depreciativo. A palavra em questão deverá ser compreendida pelo seu significado etimológico).

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

GUIMARÃES ROSA: O TEMPO SUSPENSO ENTRE O ANTES E O DEPOIS - 4

GUIMARÃES ROSA: O TEMPO SUSPENSO ENTRE O ANTES E O DEPOIS

NEUZA MACHADO


Referindo-me ao escritor Guimarães Rosa e ao seu lugar de origem, tratarei do tema das máscaras sociais, no intuito de demonstrar a sua ascensão socio-intelectual de bras
ileiro, do sertão do Estado de Minas Gerais ― lugar que ainda resguarda anteriores vivências primitivas, m
esmo inserido no mundo moderno das cidades ―, e o seu retorno às origens sob o predomínio da Arte Literária.

O tema das máscaras sociais privilegiará uma reflexão sobre este homem incomum, herdeiro das experientes normas de seus ancestrais, em face da moderna e intelectualizada cultura das metrópolis e magalópolis. Como indivíduo laborioso, socialmente e intelectualmente reverenciado, entrará na primeira parte desta propedêutica, quando verificarei a relação do Ficcionista Singular ― superior, culto, integrado à sociedade elitista ― com o sertão da infância, espaço este linguisticamente criticado e socialmente rejeitado pelas camadas urbanas mais elevadas.

A seguir, destacarei a intermediação entre este processo inicial e o princípio da verificação do conteúdo narrativo-ficcional repleto de matéria de procedência poética. Neste capítulo, estarei dialogando com os pensamentos filosóficos de Gaston Bachelard sobre o tempo suspenso entre o antes e o depois, tempo este que não se adéqua às exigências vitais, lineares, do tempo histórico. Esclarecendo melhor, retomarei reflexivamente o entendimento bachelardiano sobre a questão do repouso fervilhante (diferente da idéia de repouso como descanso das preocupações cotidianas), propiciador de um juízo de descoberta, ondulatório, o qual leva à realização de uma possibilidade; no caso específico, à realização da possibilidade de existência literária de um sertão insólito, oriundo das recordações do passado (recordação: matéria lírica interagindo com o espaço ficcional). Esta intermediação mostrará a temática dos cogitos superpostos, propiciando o direcionamento de minhas idéias transmutativas para a elaboração e fechamento de meu objetivo preferencial.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

GUIMARÃES ROSA: REALIDADE VITAL x REALIDADE ESPIRITUAL - 3

NEUZA MACHADO



REALIDADE VITAL x REALIDADE ESPIRITUAL

NEUZA MACHADO


Para a compreensão de minhas posteriores argumentações, penso que será necessário explicar (por um processo de abordagem nitidamente tautológico) que o cogito(4), segundo Bachelard, não se liga ao plano vital (de causa e efeito), mas ao plano espiritual de difícil ascensão, e o meio racional para reconhecê-lo seria pensar o intervalo vazio entre ambos.

Por esta via, se repenso exclusivamente a ficção-arte brasileira do século XX, dou-me conta de que ela é originária do Mundo do Silêncio (também conhecido por Vazio Criador ou Vazio Bashoniano). Os escritores das estéticas modernistas e pós-modernistas e os atuais estudiosos de teoria literária são os venturosos conhecedores desse mundo sem formas estabelecidas. Os Artistas — ficcionistas e poetas — dessas estéticas (íntimos dessa realidade insólita) iniciam suas criações no auge de suas oposições aos hábitos inveterados da realidade que os cerca. Rejeitando os limites vitais, chocam-se com a vida ordinária e tentam, literariamente, fazer o tempo refluir sobre si mesmo, racionalizando e, ao mesmo tempo, sentimentalizando em um grau superior ― um grau já distanciado dos sentimentos telúricos (esteticamente) ― suas próprias realidades subjetivas, procurando renovar velhos conceitos ou criando novas substâncias. É necessário ressaltar que, no que se refere aos modernistas e pós-modernistas brasileiros, o ato de sentimentalizar intimamente e esteticamente é bem diferente do lírico sentimentalizar romântico, é um sentimentalizar que passa pelo crivo da razão.

Ao invés de se originar do plano histórico (contínuo, linear), a autêntica criação ficcional brasileira do século XX (incluindo as narrativas sertanejas de Guimarães Rosa a partir de A Hora e Vez de Augusto Matraga, obras literárias reconhecidamente verticais) tem sua origem no mundo do Vazio Criador (o já nomeado Mundo do Silêncio). Originária deste mundo informe, ela só fará parte do plano dos fenômenos já conceituados depois do repouso ativado do escritor, quando o sentimento inicial, sentimento telúrico, tornar-se parte integrante da duração pela razão, transformando-se, como já foi dito, em um sentimento renovado.

Para demonstrar esta transformação literária nos textos ficcionais de Guimarães Rosa, busquei a contribuição da filosofia de Bachelard. A partir deste auxílio, poderei reafirmar a minha proposta teórico-crítica, seguindo evidentemente um roteiro previamente elaborado, no qual destacarei alguns temas importantes, consciente de que os mesmos contribuirão para reforçar o desenvolvimento de minhas argumentações, unindo as idéias que formarão o alicerce de meu objetivo. Assim, verificarei, em primeiro lugar, a relação do escritor com a obra, considerando que as narrativas de Guimarães Rosa aqui realçadas têm com o sertão da infância, da adolescência e das recordações uma relação interna indissolúvel, já que foi dito que este sertão em especial é o inventor da obra ficcional roseana, e o contrário também vale: o texto ficcional criou o sertão roseano.

Na primeira parte de meus assertos teóricos [asserções, assertivas], falarei do sertão mineiro propriamente dito, o sertão sócio-cultural, atavicamente preso à infância do escritor Guimarães Rosa, evidentemente, revelador do aspecto paradoxal de sua personalidade, por um lado, comprometida com os valores da modernidade (ao vivenciar cotidianamente essa modernidade), entretanto, por outro lado e ao mesmo tempo, muito mais comprometida com os valores sertanejos. É lícito observar que o escritor de origem sertaneja, em sua ficção poética (conceituação do próprio Guimarães Rosa, na Entrevista ao crítico alemão Günter Lorenz), procura ressaltar um determinado sertão, aquele de sua infância, que se encontra distanciado, temporal e socialmente, da realidade sócio-geográfica do sertão do Estado de Minas Gerais, realidade esta refletora da deterioração de uma sociedade brasileira mal-edificada.

Partindo do princípio de que a questão é importante, já que se liga aos temas tempo e espaço, e consequentemente ao tema dos cogitos superpostos, observarei, em um pequeno capítulo, pela ótica poético-filosófica de Gaston Bachelard, alguns trechos da obra ficcional de Guimarães Rosa, vigilante à possibilidade de ver (ou perceber) no referido sertão roseano a casa inesquecível e seus recantos secretos, da qual fala o filósofo-camponês (nascido em França, na região vinícula da Champanha) em sua Poética do Espaço.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

GUIMARÃES ROSA: TEORIA LITERÁRIA x FILOSOFIA BACHELARDIANA - 2

NEUZA MACHADO



TEORIA LITERÁRIA x FILOSOFIA BACHELARDIANA

NEUZA MACHADO


Restabelecendo um importante juízo de Bachelard, registrado em seu livro A Dialética da Duração, no qual admite a possibilidade de intervalos temporais propiciando o surgimento de obstáculos, desvios, impedimentos, que poderão ou não quebrar as cadeias causais (ou seja, entre causa e efeito há sempre uma intervenção de acontecimentos possíveis que não estão ligados ao dado causal), colocarei aqui em evidência meus pensamentos dialetizados, situando-os exatamente nesse plano de probabilidades. Este meu ponto de vista teórico-crítico, interagindo aqui com a filosofia bachelardiana, é uma teoria não-causal no plano da Arte, uma vez que estarei buscando novas argumentações críticas (transmutando pensamentos já avaliados, aspirando a uma renovação nos atuais estudos da literatura brasileira), próximas de nossa realidade cultural, objetivando desenvolver um intercâmbio de idéias comunitárias com nossos artistas literários.

Não estarei presa simplesmente à causa, mas interessada em ultrapassar os obstáculos, visando muito mais o que poderá surgir como novidade no âmbito da Teoria ou da Crítica Literária, neste início de Terceiro Milênio. Penso assim movimentar-me para um novo posicionamento teórico-crítico, que abarque a realidade literária da qual faço parte como leitora-intérprete consciente da urgência de invenção de uma variante crítica autóctone que acompanhe a criação literária de nossos escritores. Uma teoria causal, objetivando um fim imediato, por ora, seria impossível, devido aos inevitáveis obstáculos, mas nada irá impedir-me de aventurar-me nas veredas das probabilidades quantificadas, probabilidades estas que darão conta posteriormente dos resultados que procuro obter.

Nestas páginas iniciais, torna-se indispensável esclarecer que o meu envolvimento intelectual com a filosofia bachelardiana surgiu de uma íntima recusa em seguir fielmente os modelos europeus ― analítico-cientificistas ― de como se desenvolver um estudo literário. É importante realçar que esses modelos foram projetados para o estudo de obras literárias voltadas para a realidade européia, as quais, em absoluto, não se ajustam à nossa realidade. As pesquisas acadêmicas, sobre a literatura brasileira, deveriam pautar-se por um conhecimento teórico-interpretativo próprio, um direcionamento crítico que se identifique mais com as idéias criativas de nossos narradores e poetas. Por tais motivos, repito: as teorias e críticas literárias européias foram inventadas para suprirem as necessidades de análise e/ou compreensão de textos literários europeus. É preciso enfatizar que essas teorias não abrangem o todo de nosso universo literário, uma vez que não foram pensadas em função de nossas vivências. Entretanto, mesmo afirmando a minha intenção de dialogar com os conceitos bachelardianos (conceitos filosóficos oriundos da Europa), quero reafirmar que, ao longo desta sondagem interdisciplinar, o meu ponto de vista sobre a ficção roseana desenvolver-se-á sob uma particular interpretação dessas idéias.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

GUIMARÃES ROSA: DO PENSAMENTO CONTÍNUO À TRANSCENDÊNCIA FORMAL - 1

NEUZA MACHADO

OS COGITOS SUPERPOSTOS

NEUZA MACHADO


Em diálogo fenomenológico com Gaston Bachelard, torno necessário demonstrar que, por intermédio da Arte Literária, há a possibilidade de se alcançar o cogito(4) da realidade espiritual sem que, com isto, o indivíduo (orientado por exigências do intelecto) se desequilibre no plano das atitudes de vida socialmente aceitas.

Neste caso específico, nas páginas seguintes, estarei a dialetizar e a reinterpretar algumas narrativas de Guimarães Rosa, seguindo uma provável cronologia, efetivando provar que o Artista brasileiro, nato do sertão, conseguiu elevar-se ao referido cogito no plano da Literatura-Arte.

O cogito(4), na filosofia bachelardiana, é um estágio de pensamento de difícil ascensão, já ligado ao plano do Espírito, o qual possibilita ao ser humano projetar-se para fora da linha vital. Por este ângulo, Gaston Bachelard admite a possibilidade de vários cogitos superpostos, inclusive a possibilidade de cogitos desconhecidos acima do cogito(4). Porém, visando o equilíbrio mental/social do homem, destaca apenas três potências do pensamento (cogito(1), cogito(2) e cogito(3)), afirmando que estas forças são as únicas que ainda oferecem uma particular felicidade ao indivíduo (conhecedor do cogito(3) do pensamento puro), além de proporcionarem a aceitação de idéias elevadas por parte dos representantes dos cogitos um e dois.

Por este ponto de vista, aqueles que alcançam o cogito(3) não se desprendem totalmente dos cogitos um e dois, vivendo numa interação salutar com os outros membros da sociedade, no plano do cogito ao cubo (plano vital), e recebendo desses uma respeitosa reverência. Em outras palavras, os que recebem a marca da individualidade são aceitos como excepcionais, mas não são considerados totalmente excêntricos pelo grupo social a que pertencem, ao contrário, suas idéias são bem recebidas e imitadas.

Enquanto os cogitos um e dois são lineares — cogito(1): primário / cogito(2): transitivo —, o cogito(3) é lacunar, pois é propriedade exclusiva do indivíduo que pensa além dos pensamentos instituídos. O cogito(3) seria assim o plano mental do ser humano possuidor da chamada consciência pura (ou consciência singular). A consciência pura seria a consciência daqueles que não se deixam envolver pelos valores vitais.

A ascensão ao cogito(4) (plano espiritual), segundo Gaston Bachelard, oferece perigos ao pensador, pois se situa fora das exigências vitais. Entretanto, poderá ser pressentido por estudiosos capacitados, por intermédio de insólitos textos ou de estranhos desenhos das chamadas pessoas iluminadas.

No que diz respeito ao reconhecimento do cogito(4) nas narrativas de Guimarães Rosa, as quais serão aqui realçadas, e certamente nos capítulos a elas destinados, apresento a minha posição de teórico-crítica exclusivamente ligada à Teoria Literária, uma vez que dialogarei a seguir com as teorias filosóficas de Gaston Bachelard pelo ponto de vista da interdisciplinaridade, reivindicando, sempre que for necessário, a minha condição dual de analista e intérprete do texto literário, de acordo com os preceitos da interdisciplinaridade. Centralizando meus argumentos interpretativos no cogito(4), procurando provar que o referido cogito pode ser detectado no plano da Literatura-Arte, intenciono desvincular-me das tradicionais barreiras dos modelos críticos formalistas/cientificistas, por meio da contribuição de pensamentos oriundos da filosofia assinalada, admitindo assim novas possibilidades de incursão crítica no universo literário.

MACHADO, Neuza. Do Pensamento Contínuo à Transcendência Formal. Rio de Janeiro: NMachado / ISBN: 85-904306-1-8

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

VI - CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESCRITOR, O NARRADOR E A NARRATIVA

NEUZA MACHADO


“Sabemos que a obra exige necessariamente a presença do artista criador. O que chamamos arte coletiva é a arte criada pelo indivíduo a tal ponto identificado às aspirações e valores do seu tempo, que parece dissolver-se nele, sobretudo levando em conta que, nestes casos, perde-se quase sempre a identidade do criador-protótipo”.[1]

Para Antônio Cândido, a obra de arte exige a presença do criador. No caso específico da arte literária, modalidade narrativa ficcional, alguns teóricos procuram separar artista e narrador, como, por exemplo, o francês Roland Barthes, estruturalista (sua primeira fase), quando diz que o narrador é personagem como outro qualquer, e que não se deve confundi-lo com o artista (citação repetida ad infinitum, nas Faculdades de Letras brasileiras, por alguns professores de teoria da literatura que não se preocupam com as devidas reciclagens, e que não param para pensar que o próprio Roland Barthes modificou seus pensamentos teóricos ao longo de sua carreira intelectual). Conscientemente, contrariando a assertiva do consagrado teórico francês (assertiva, como já disse, de sua primeira fase estruturalista), penso no narrador do século XX (incluindo os narradores de Guimarães Rosa a partir desta narrativa) também como personagem atuante, realçando-o como parte integrante do criador de narrativas ficcionais, pois nele se instala ou se desenvolve a face ficcional do escritor modernista.

Na obra em questão (A Hora e Vez de Augusto Matraga), há a presença do ficcionista Guimarães Rosa, homem nato do sertão mineiro (sertão rude), mas que alcançou honrarias no âmbito hierarquizante da sociedade. No entanto, há, com maior destaque, a presença do escritor-indivíduo do século XX, paradoxal e questionador, em conflito com valores que se opõem. Guimarães Rosa, desenvolvendo seus diversos talentos, posicionou-se positivamente diante da sociedade elitista, alcançando credibilidade, mas, paradoxalmente, como escritor ficcionista, preferiu dar-se a conhecer como homem provindo do sertão. Evidentemente, esse homem do sertão já não é do sertão, apenas a formalização do ser, em suas narrativas, foi realizada em cima das formas-pensamento sertanejas. O escritor, nascido no sertão, lembra do sertão, ou melhor, recorda (ver o sentido etimológico) o sertão, não sendo mais do sertão. O escritor assume o sertão que está presente em seus pensamentos argumentadores, quando questiona as imperfeições do mundo moderno. O sertão de suas narrativas é puro, porque foi vivenciado nos anos da infância e juventude. O sertão continua puro, nas recordações do indivíduo, porque este, como ficcionista, manipula essa pureza, ao descrevê-lo ficcionalmente. Assim, quando Guimarães Rosa diz a Lorenz, na ENTREVISTA, “eu sou antes de mais nada um homem do sertão
[2], ele próprio sabe, intimamente, que já não é do sertão. Ao categorizar, ele já não é mais sertanejo. E é graças a esta singular matéria de vida, íntima e social, que a sua narrativa não se insere no âmbito do coletivo. Sua arte é moderna (ou de transição, ou pós-moderna) e, paradoxalmente, evita realçar os valores da modernidade. O artista literário, enquanto narrador sertanejo, não se identifica com “as aspirações e valores de seu tempo”, mas, ao mesmo tempo, não pode furtar-se a se expressar como um narrador do século XX e isto se evidencia em seu discurso. O mundo roseano é um núcleo perfeito, seus personagens também são perfeitos, mas o narrador reflete as imperfeições de sua realidade vivencial. A ótica dele se encontra fragmentada (característica moderna), porque não se atém ao tempo linear. Ele já alcançou um plano onde o passar histórico não o influencia, prevalecendo mais o desejo de preencher as lacunas da memória com um discurso repleto de tensão lírica (matéria lírica). Ainda pelo meu ponto de vista, no entanto auxiliada pelos ensinamentos de Bachelard sobre o tempo, importa-lhe mais destacar o que se encontra suspenso entre o repouso e a ação. E é graças a esse momento, suspenso entre o repouso e a ação, que o narrador roseano sai da objetividade histórica e se enreda em seus próprios circunlóquios, tenta trazer à luz o que pressentiu, em termos de narrativa, a partir de seu próprio repouso vinculado ao repouso do escritor, e que se encontra estacionado no plano da reflexão profunda.

As recordações da infância no sertão, certamente, marcaram o escritor. As histórias de senhores-de-terra valentes encontraram ressonância em seu espírito, marcaram-no vivamente. Mas essas recordações só foram recuperadas por meio de posteriores questionamentos. Depois que seu narrador de A hora e vez de Augusto Matraga desorganizou temporalmente a já distinguida narrativa ficcional, que se dissociou da aparente realidade das lembranças (enquanto produto da memória), só então conseguiu livrar-se da narrativa sintagmática. O narrador pensou o sertão de sua infância (o escritor pensou o sertão de sua infância); buscou a síntese do ser na essência do ser, do vir a ser; sumariou, resumiu o sertão poeticamente, e conseguiu chegar a um final discursivo totalmente distante dos valores substanciais.

Graças a esta elevação mental, que o colocou distante do “penso, logo existo” cartesiano, e fixou em um terceiro cogito o “penso que penso que penso”, segundo teorizações bachelardianas (op. cit.), o escritor pode manifestar um sertão só dele, íntimo e poético, imune às exigências econômicas e sociais da modernidade, apesar de, eventualmente, refletir algumas imperfeições do mundo burguês capitalista. Ao mesmo tempo, observando este sertão diferente, conscientizo-me do subdesenvolvimento que o atinge, porque a consciência deste subdesenvolvimento está em mim mesma, e posso, assim, desenvolver uma comparação racional, refletir as diferenças que existem entre os dois sertões: o real e o ficcional. É importante reconhecer que os personagens de Guimarães Rosa, depois do Augusto Matraga, não são marcados pelo subdesenvolvimento, são simplesmente sertanejos, e agem como sertanejos. E, principalmente, não são alienados, porque qualquer narrativa que propicie uma outra qualquer espécie de reflexão, e que tenha como base os problemas de uma outra realidade, deprimente, não poderá ser considerada alienada. Se nos primeiros contos de Sagarana visualizou-se a consciência do subdesenvolvimento brasileiro de meados do século XX, centralizado em problemas regionais (vide “Sarapalha”), a dimensão regional em Guimarães Rosa, posteriormente, passa para o plano universal, graças a uma técnica de narrativa refinada, que propicia a transfiguração da realidade interiorana de Minas Gerais, e que, paradoxalmente, não deixa de refletir os valores reais do mundo sertanejo.

Essa transfiguração se faz por intermédio do discurso poético-ficcional, do monólogo interior, da visão simultânea, e outras técnicas discursivas que levam o leitor de Guimarães a refletir suas próprias substâncias de vida e se conscientizar cada vez mais do subdesenvolvimento de seu próprio país (seja ele um leitor brasileiro ou leitor de qualquer outro país do chamado Terceiro Mundo).

O narrador roseano de A hora e vez de Augusto Matraga, universalizando o sertão, extrapassa os contornos geográficos do sertão mineiro através de uma visão baseada nas diversas experiências de vida do escritor, aquele homem nato de um “mundo puro”, mas que alcançou outros patamares no elitista mundo do século XX.

Bachelard afirma que as pessoas agem impulsionadas pelo elan vital, ou seja, agem impulsionadas pelo arrebatamento súbito e efêmero, que as arrasta para longe dos objetivos individuais. Isto acontece quando elas se deixam levar pelo impulso do grupo, imitando-o, e assim desistem da intuição, passando a não ter reflexão própria (qualidade para se chegar ao objetivo individual), renunciando assim à própria inteligência.

A realidade do Brasil (anos finais do século XX) é um reflexo desse fenômeno de submissão mental. Antônio Cândido demonstrou que a literatura brasileira, do período de 30 e 40, refletiu esta situação, com a chamada “consciência do subdesenvolvimento”. Foi a partir de 1930 que alguns escritores não mais aceitaram reproduzir a realidade convencionada, se rebelaram contra os conceitos preestabelecidos, enfim, sofreram uma crise de valores que os levou a mudarem a técnica da narrativa. No lugar da reprodução da realidade, assumiram a criação de uma outra realidade transfigurada, fazendo da própria literatura uma realidade desmitificadora, ou seja, reivindicando a realidade da literatura. Graças a esta decisão, o ficcionista passou a ter consciência de seu fazer literário, posicionando-se frente a sua matéria de trabalho, criando e recriando o texto, se preocupando com o texto, desenvolvendo ensaios e fazendo experiências.

Pelo meu ponto de vista, Guimarães Rosa atingiu essa consciência instrumental, porque a sua literatura não se atém a uma simples expressão da realidade, existe nela uma realidade própria. O sertão de suas narrativas é uma realidade diferente da realidade do sertão do Norte de Minas Gerais, por isto, o sertão roseano é um espaço primitivo e imaculado. Por estas razões, há nele uma certa insolidez, observada na linguagem diferente, transformando-se em solidez no âmbito do ficcional. Assim, demonstrará sempre uma realidade particular, própria, acrescida de substâncias poéticas. Sertão paradoxal. Sertão paradoxal porque não há como acusar uma cisão, já que aparentemente seus narradores não se distanciam da denominação de “narradores regionalistas”; aparentemente não se afastam das raízes regionais; seus narradores são “regionalistas irrealistas”, segundo Antônio Cândido.

O diferente sertão roseano, pelo meu ponto de vista interativo revigorado evidentemente nas fontes bachelardianas, só poderia surgir de uma mente reflexiva, consciente de sua capacidade de escolha, localizada entre o eu profundo e o eu externo.

Nesse estágio, o escritor manipula o tecido narrativo, transfigurando artisticamente a realidade do sertão. Ele faz seu passado de sertanejo vir à tona, exatamente como foi vivenciado na época da inocência, e poetiza essas recordações. Poetiza, ensaia e faz experiências: cria um sertão particular no interior de um linguajar diferente do usual, marcado por uma singular visão do mundo sertanejo.

Nessa etapa da consciência pura, o Artista literário não é mais do sertão, mesmo se autoproclamando sertanejo. É antes um sertanejo que se tornou citadino, e, como cidadão do século XX, repensa o sertão de sua infância, busca-o através da arte, recorda-o incessantemente.

Desenvolvendo a sua consciência particular, o escritor de substancias sertanejas “aprende a administrar conflitos”, aprende a administrar seus paradoxos existenciais, aprende a conviver com o mundo moderno, administrando valores modernos e sertanejos com eficiência.

Guimarães Rosa não é “populista”. Sua literatura não se liga a movimentos políticos refletores dos problemas da modernidade. Mas, mesmo não refletindo ostensivamente os problemas da modernidade, seu narrador expõe indiretamente a realidade (sócio-política) de seu momento histórico, assim como expõe também a realidade do mundo capitalista em decadência.

Se não há como “aprender a administrar conflitos” políticos, socialmente, o escritor brasileiro, da metade do século XX em diante (Guimarães Rosa, e todos os outros do período que dignificaram a literatura brasileira), literariamente, procurou administrar a sua realidade interiorizada ― os conflitos e questionamentos internos ― apoiado em sua própria independência vivencial, preservando e exercendo o seu direito de livre-arbítrio. Mesmo sabendo que é difícil, em nível de realidade, solucionar “todos os problemas que envolvem o destino dos homens”, o escritor atual tem consciência de que, literariamente, é possível equacionar e solucionar (ou não) tais problemas.


[1] CÂNDIDO (1980): 25
[2] ROSA (ENTREVISTA): 15

domingo, 14 de fevereiro de 2010

5 - O SERTÃO PARTICULAR DE GUIMARÃES ROSA


NEUZA MACHADO



O plano da consciência pura aparecerá, para os que não o entendem, como uma vontade de nada fazer, e é algo assim, porque, na verdade, a consciência já individualizada não vai fazer nada, enquanto não for a sua vez de fazer algo, o seu momento de bem fazer alguma coisa.

E foi esta consciência privilegiada que fez o escritor Guimarães Rosa mudar a face-fase de seu narrador em A hora e vez de Augusto Matraga, última narrativa do corpus de Sagarana (1946). Esta narrativa cronologicamente poderia inserir-se no momento agudo da conscientização de subdesenvolvimento e, consequentemente, transmitir as características que marcaram essa tomada de consciência, mas, felizmente, ao longo do narrado, tais influências não são detectadas. Mudando a forma de narrar, o escritor colocou em evidência seus próprios objetivos individuais de homem que alcançou um plano elevado dentro dos vários patamares que compõem o pensamento individual. Seus narradores, a partir daquele momento, deixaram de agir impulsionados pelo elan vital (arrebatamento súbito e efêmero), apropriando-se da inteligência de quem os criou e deu-lhes forma ficcional. Os narradores roseanos assumiram a inteligência do ficcionista sertanejo, questionaram, argumentaram, refletiram sobre os acontecimentos da própria narrativa e sobre a direção que deveriam seguir, orientando os impulsos criadores que partiam do próprio escritor. Assim, Nhô Augusto, o personagem central, ao longo da narrativa, pode encantar-se com as minúcias da natureza, enquanto o narrador poetizava ficcionalmente o sertão. O narrador, apropriando-se da função especulativa do escritor, criou um mundo diferente, um sertão diferente, embalado pelo prazer de estar ancorado numa dimensão particular, auto-reflexiva, pouco se incomodando com as opiniões externas. O narrador, por meio do ficcionista, escolheu falar de um sertão muito particular, suspenso em um momento no qual o antes não contava e o que viria, em termos históricos, também não.

O ficcionista ― já no patamar da consciência pura e bem amparado pelo livre-arbítrio ― intuiu o momento da manifestação do narrador suprafísico suplantando o narrador experiente. Esperou, enquanto se posicionava como contador de estórias sertanejas (as narrativas de Sagarana que antecedem A hora e vez de Augusto Matraga), a oportunidade de se libertar ficcionalmente das pressões do mundo circundante. No plano da consciência particular, já não lhe importava mais o julgamento do mundo em relação à sua criatividade, e, assim, fez sucesso (ainda faz) e passou a ser reconhecido como grande escritor. O sertão nascido do eu consciente do escritor mineiro esteve, está e estará para sempre imune às críticas depreciativas do meio social. Um espaço de substâncias interioranas, que sempre foi depreciado pelas elites citadinas, veio à luz, em forma de narrativa, sob a égide de uma consciência auto-reflexiva convencida (sem nenhuma depreciação crítica: “muito convencida”) do próprio valor, e que não se incomodou em se dizer sertaneja (ou caipira), mesmo tendo alcançado outros graus (altíssimos) no plano das exigências sociais.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

4 – MODISMOS QUE MASSIFICAM

NEUZA MACHADO


Na maioria das vezes (e porque também somos produtos de colonizadores mentais e não estamos ainda preparados para abandonarmos valores alheios), as pessoas comuns do chamado Terceiro Mundo não valorizam a inteligência, preferem seguir modismos que massificam, que transformam os subjugados em uma só massa pensante. A função da inteligência é questionar, argumentar, refletir, pensar e repensar sobre a validade da direção do impulso massificador. A consciência pura, de acordo com Bachelard, pode assim fazer uma boa escolha, porque está no auge de sua lucidez, de seu juízo, de seu bom-senso, agenciando o livre-arbítrio. Ela seria o eu consciente racional e equilibrado, repleto de força e capacidade de escolha. Nesse estágio de lucidez, o indivíduo pode ficar em estado de vigilância, pode esperar que alguma coisa se manifeste, que surja alguma intuição ou oportunidade, pode aguardar e guardar (baú de memórias); pode vigiar, para que não entre em seu mundo interior (mundo do eu interiorizado), qualquer conhecimento nocivo. Por isto, não posso falar em influência, no sentido depreciativo, em Guimarães Rosa. Sua consciência particular, ao recontar o sertão e as tradições sertanejas, não estava submetida às pressões do mundo moderno, estava em completo estado de liberdade (repouso ativado). Sua consciência particular não se incomodava mais com os juízos de valor do mundo vital, com as cobranças sociais.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

3 – MUNDO RURAL DESAGREGADO: TEMA DOS ESCRITORES BRASILEIROS DAS DÉCADAS DE 30 E 40 (SÉCULO XX)

NEUZA MACHADO


É também esse mundo rural desagregado que passou a ser o tema dos escritores das décadas de 30 e 40. A literatura desse período, segundo Antônio Cândido, estava centralizada na “dialética do localismo e do cosmopolitismo, manifestada pelos modos mais diversos[1]. E é nesse período também (1946) que Guimarães Rosa publicou Sagarana, uma coletânea de contos, na qual, excetuando A hora e vez de Augusto Matraga, se observou o “nacionalismo literário”, ou seja, a recriação do dialeto caipira, e o “inconformismo[2], em outras palavras, a rejeição a padrões preestabelecidos.

A idéia de “localismo e cosmopolitismo” na obra roseana da primeira fase se sobressai, porque o autor, a partir daquele momento, procurou valorizar um determinado espaço geográfico, mas, idealizou também, como diz Antônio Cândido, “um compromisso mais ou menos feliz de expressão com o padrão universal
[3].

Nas fases seguintes, a partir de A hora e vez de Augusto Matraga, espécie de narrativa-embrião de Grande Sertão: Veredas, não mais se observou o sertão roseano como um determinado local, pois o mesmo se transmudou em autêntico espaço universal.

Repensando a ENTREVISTA de Guimarães Rosa ao crítico Günter Lorenz (1965), percebe-se uma ligação fortíssima do escritor com suas origens européias. Na Entrevista ele afirmou que uma parte de sua família, pelo sobrenome, reportava-se a uma “origem portuguesa, mas na realidade [seria] um nome suevo que na época das migrações era Guimaranes, nome que também designava a capital de um estado suevo da Lusitânia
[4]. Afirmou ainda que, pela sua origem, estava “voltado para o remoto, para o estranho”.

Se as narrativas de Sagarana, excetuando, como já foi dito, a narrativa A hora e vez de Augusto Matraga, procuraram realçar o sertão mineiro (cf: “O burrinho pedrês”, “Sarapalha”, “São Marcos” e outras), as narrativas seguintes se ligaram a este aspecto remoto e estranho de suas origens. O sertão roseano, criado a partir de A hora e vez de Augusto Matraga, perdeu o aspecto de local para atingir o universal, porque, diferente do sertão de Minas, e ligado às transmutações vivenciais de seu criador, transformou-se em produto de uma mente já citadina e individual, auto-reflexiva e especulativa. Na verdade, este sertão da segunda fase de Guimarães Rosa, não se ligava ao “localismo literário” da década de 40, e muito menos procurava criar uma língua diversa com o intuito de se opor a padrões preestabelecidos. A linguagem sertaneja, ou a língua que se fala [ficcionalmente] no universo roseano, tende para o universal, porque metafisicamente caracteriza um espaço ligado ao plano da eternidade e da solidão, como o próprio Guimarães Rosa admitiu na ENTREVISTA.

"Goëthe nasceu no sertão, assim como Dostoievski, Tolstoi, Flaubert, Balzac; ele era, como os outros que eu admiro, um moralista, um homem que vivia com a língua e pensava no infinito. Acho que Göethe foi, em resumo, o único grande poeta da literatura mundial que não escrevia para o dia, mas para o infinito. Era um sertanejo".

"Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Göethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade e da solidão, onde Inneres und Äusseres sund nicht mehr zu trennen (“O interior e o exterior já não podem ser separados”)".
[5]

Nestas palavras não se observa o “conformismo” de quem fez/faz parte de uma sociedade subdesenvolvida, “conformismo” que caracterizava uma parte dos escritores do período de 1900 a 1945, porque o escritor, naquele momento, já se transformara em cidadão do mundo.

"Conheço bastante bem a literatura alemã. Por exemplo, o Simplizissimus é para mim muito importante. Amo Göethe, admiro e venero Thomas Mann, Robert Musil, Franz Kafka, a musicalidade de pensamento de Rilke, a importância monstruosa, espantosa de Freud. Todos estes autores me impressionaram e me influenciaram muito intensamente, sem dúvida. Entretanto, não sei o que fazer com autores mais jovens como Brecht. Todos eles perderam o sentido da metafísica da língua, todos eles se tornaram pregoeiros e deixaram de lado a alma, considerando-a fora de moda, em desacordo com a época e acreditando que o homem seria apenas um Wolfsburg-Mensch (“Homem de Wolfgsburg”)".
[6]

O escritor de substâncias mineiras se transformou em cidadão do mundo, e teve consciência de que recebeu influências européias. Como todos os escritores de sua geração, recebeu influências, como ele mesmo afirmou, mas em sua literatura não há a imitação consciente de padrões europeus, comportamento normal no período da noção aguda do subdesenvolvimento, segundo Antônio Cândido. Não seria correto procurar tal atitude em Guimarães Rosa. O que posso destacar, nesse sentido, estaria ligado a valores metafísicos e universais. Se houve influências que, em outros casos, induzem à imitação, tais influências se transmudaram em criatividade própria, a partir do momento em que atingiu o patamar da consciência pura
[7].

Ainda reconsiderando as palavras de Guimarães Rosa ao crítico Lorenz com atenção, vejo que quem fez todas aquelas preleções sobre a literatura alemã não foi o sertanejo, o nativo do sertão mineiro, foi o intelectual que alcançou o repouso reflexivo, de acordo com as teorias bachelardianas (op. cit.), repouso este que precedeu ao despertar de sua consciência individual.

Por minha parte, se penso em seu narrador de A hora e vez de Augusto Matraga e nos narradores das fases seguintes, vejo que, induzidos pelo ficcionista, assumiram o caminho individual que os levaria, logo a seguir, à auto-reflexão, a tal qualidade essencial exigida para se chegar ao objetivo individual, qualidade esta que caracteriza o indivíduo inteligente.


[1] CÂNDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. São Paulo: Nacional, 1980: 109
[2] Ibidem
[3] Ibidem
[4]ROSA, João Guimarães. In.: ARTE EM REVISTA. “Literatura e Vida” – Ano I – no 2, maio/agosto, 1979. Publicação do Centro de Estudos de Arte Contemporânea, p. 7
[5] Idem, p. 13 (Tradução da frase em alemão: “O interior e o exterior já não podem ser separados”)
[6] Idem: 14 (Tradução da expressão em alemão: “Homem de Wolfgsburg” = símbolo da civilização técnica)
[7] Cf. BACHELARD, Gaston. A dialética da duração. São Paulo: Ática, 1988.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

2 – COLONIZAÇÃO MENTAL: SERÁ QUE O BRASIL CONTINUA ASSIM?

NEUZA MACHADO


"Com o passar do tempo, dera-me conta de que a fraqueza maior do Terceiro Mundo estava no plano das idéias: éramos colonizados mentalmente, por um lado, e por outro permanecíamos prisioneiros de velhas doutrinas “revolucionárias” que haviam passado de moda nos centros metropolitanos".[1]

Revistando a História e observando as idéias de Celso Furtado, Sérgio Buarque de Holanda e Antônio Cândido, penso que esta colonização mental surgiu a partir de 1939, no decorrer da 2a Guerra Mundial, com o advento do fascismo, do nazismo, e, principalmente, com a elevação dos Estados Unidos em primeira potência mundial. Se o Brasil já era um “país colonizado”, historicamente mal formado, não foi difícil a “colonização mental”, a submissão às idéias externas, diferentes de sua própria realidade.

E foi a partir daí que o Brasil se industrializou e os camponeses começaram a abandonar o campo, buscando melhores condições de vida na cidade. Com isto, os centros urbanos mais visados pelos emigrantes — principalmente, os do Nordeste — se transformaram em cidades superpovoadas, redutos de miséria e degeneração. Nesse ínterim, enquanto o Brasil foi se aburguesando e se submetendo à “colonização mental”, os intelectuais (alguns) procuraram se refugiar na religião, a cultura procurou refletir os problemas do país, os artistas desenvolveram ideais políticos, enfim, a realidade brasileira passou a ser desnudada por uma minoria consciente.

"No dia em que o mundo rural se achou desagregado e começou a ceder rapidamente à invasão impiedosa do mundo das cidades, entrou também a decair, (...), todo o ciclo das influências ultramarinas específicas de que foram portadores os portugueses".

"Se a forma de nossa cultura ainda permanece largamente ibérica e lusitana, deve-se atribuir-se tal fato sobretudo às insuficiências do “americanismo”, que se resume até agora, em grande parte, numa sorte de exacerbamento de manifestações estranhas, de decisões impostas de fora, exteriores à terra. O americano ainda é interiormente inexistente".[2]

Esta desagregação do mundo rural começou no século XIX e atingiu seu ápice nos dois decênios iniciais do século XX. Assim, as reflexões de Sérgio Buarque de Holanda se ajustaram às de Antônio Cândido e Celso Furtado, quanto ao momento em que se iniciou, no Brasil, a consciência de subdesenvolvimento. É importante observar que Sérgio Buarque de Holanda já falava em “decisões impostas de fora” bem antes de Celso Furtado, se comparo as datas em que ambos raciocinaram sobre os problemas internos do Brasil.

[1] Idem: 14
[2] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 11. Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977: 127