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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

RIBAMAR DE SOUSA



RIBAMAR DE SOUSA

NEUZA MACHADO


“Um personagem, todo mundo sabe o que a palavra significa. Não é um ele qualquer, anônimo e translúcido, simples sujeito da ação expressa pelo verbo. Um personagem deve ter um nome próprio, composto se possível: nome de família e prenome. Deve ter parentes, uma genealogia. Deve ter uma profissão. Se tiver bens, melhor ainda. Enfim, deve possuir um “caráter”, um passado que tenha modelado este e aquele. Seu caráter dita suas ações, faz com que reaja de uma determinada maneira a cada acontecimento. Seu caráter permite que o leitor o julgue, que goste dele ou o odeie. É graças a esse caráter que, um dia, ele legará seu nome a um tipo humano que aguardava, seria possível dizer, a consagração desse batismo”. (Alain Robbe-Grillet)

“Pois é necessário ao mesmo tempo que o personagem seja único e que se eleve à altura de uma categoria. Precisa de muita particularidade para se tornar insubstituível, e suficiente generalidade para se tornar universal. Variando um pouco, a fim de dar uma certa impressão de liberdade, seria possível escolher um herói que parece transgredir uma dessas regras: uma criança achada, um desocupado, um louco, um homem cujo caráter incerto apronta aqui e ali uma pequena surpresa... entretanto, não haverá exageros neste caminho: é o da perdição, aquele que conduz diretamente ao romance moderno”. (Alain Robbe-Grillet)

“Pois que esta narrativa ─ paródia de romance histórico que define com boa precisão esta minha tardia confissão ─ vai-lhe revelar a vida tão surpreendente de Ribamar de Sousa, aquele adolescente que eu era, aparecido num inesperado dia de inverno da Amazônia dentro da chuva compacta de um ostinato extremamente percussivo em comandos de improvisação de uma partitura imaginária, ecológica, de acordes politonais (...)”. (O Amante das Amazonas)

Mesmo compreendendo a posição despojada do criador ficcional pós-moderno-pós-modernista de Segunda Geração, ou seja, do próprio escritor de O Amante das Amazonas, a instigar o leitor ao desnudamento de sua obra ficcional, não posso deixar, servindo-me das palavras de Robbe-Grillet, de contrastar-me às palavras de Rogel Samuel. Seu personagem-narrador Ribamar de Sousa não imita os escritores amazonenses do período do auge da borracha. Esses escritores certamente imitaram Euclides da Cunha, uma vez que temporalmente ainda estavam próximos dele. O Ribamar, enquanto alter ego do narrador/ficcionista pós-moderno/pós-modernista de Segunda Geração, ultrapassa as barreiras do “semelhante” (característica de plágios mal formulados) e aventura-se no plano das invenções literárias maiores. Como narrador restrito a um determinado momento estético-social diferenciado (final do século XX), inicialmente como voz representativa do imigrante nordestino a fugir da seca e da fome intermitentes, o Ribamar de Sousa jamais poderia “imitar” o estilo ou mesmo o discurso de um narrador que se configurou nos primórdios do século XX. Mesmo que o narrador de Rogel Samuel se apropriasse de frases inteiras, explícitas, de outros escritores que se preocuparam com os assuntos da Grande Floresta Amazonense, de outros momentos estéticos do passado, ainda assim esses pensamentos já se posicionariam renovados, pois os mesmos já estariam submetidos ao imaginário de sua própria contemporaneidade. Se o texto ficcional de Rogel se revelasse como obra sem valor, como reformulações de outros textos (ficcionais ou não) de outros autores, de épocas passadas, não ofereceria espaço para uma fértil mediação crítica.


MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A GRANDEZA DESPOJADA




A GRANDEZA DESPOJADA

NEUZA MACHADO



Entretanto, apesar do ou graças ao conflito, a partir da página oitenta e nove, um novíssimo narrador rogeliano se obrigou a surgir para revelar aos leitores que, desde o início da narrativa, o interregno capitalista esteve ali presente (o lado capitalista do Manixi), ansioso por destruir a grandeza mítica do lugar. Subitamente, aparecem ratos na narrativa. Os dois poderes não poderão permanecer juntos naquele espaço efervescente de transição. Um deverá destruir o outro. A mudança narrativa instiga o leitor interessado. Ele terá de descobrir (se houver ou não um fecho narrativo tradicional) quem sairá vencedor. Quem está despojando a grandeza da Floresta Amazônica? Como desvelar o Manixi (o Palácio e as terras que o rodeiam) ao longo da narrativa rogeliana? Por que “o sumiço do filho de Pierre Bataillon, um homem que vivia debaixo do ouro no Alto Juruá, permanece encoberto de tal mistério, sempre um acontecimento mitificado na imaginação do povo amazonense e acreano, e todas as hipóteses, levantadas então, não se puderam justificar, nem explicar”? Por que a Cidade de Manaus revela-se, na segunda etapa da narrativa como segundo espaço de mediação ficcional? E os ratos? Por que os ratos? Há ratos na Floresta. Há ratos na Cidade. Há “ratos” entre “as tábuas do chão”, “ratos” como “um traço cinematográfico, contínuo”, um “corroer” que incomoda, ativando a sensibilidade e a inteligência do leitor, demonstrando que, holisticamente, há “ratos” em todas as partes do mundo a abalar os primordiais e puros alicerces da civilização. Não foi o narrador Ribamar (o narrador tradicional das histórias contadas e relidas) que viu os tais ratos, foi o outro narrador (o das histórias lidas, relidas e inúmeras vezes repensadas), porque somente um narrador capacitado para tal função poderia formalizar criativamente o início da decadência da época da borracha (aquele que vê “o risco preto no chão”), ou seja, o início da decadência do plano das exigências conceituais a interagir com um discurso saído da própria “consciência fervilhante” (G. Bachelard).


MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A FLORESTA DINAMIZADA

A FLORESTA DINAMIZADA

NEUZA MACHADO



A narrativa O Amante das Amazonas apresenta-se (e apresentar-se-á no futuro) como incomum ficção transmutativa. Enquanto houver leitores que visualizem dinamicamente o entrelaçar das mensagens reveladoras, ao interagir com os ditos e os não-ditos de Rogel Samuel, os pecados e as virtudes dos seres humanos, a Floresta Amazonense e a cidade de Manaus sempre se revitalizarão. As “neo-impressões” ficcionais de Rogel Samuel saem de sua inteligência “animada”, saem de seu imenso amor pela terra natal. Nas páginas de O Amante das Amazonas há constante movimento. Há uma Floresta vibrante onde uma sutil música se espraia e os barulhos cotidianos quase se tornam reais (os ruídos da Floresta). Ali, os fatos vão acontecendo paulatinamente. O mesmo se revela quando a criatividade do ficcionista se volta para a cidade de seu nascimento: há movimento no Bar do Bacurau, “no início da João Coelho”, e, “proeminente, bêbado, apoiado no balcão”, Mestre Benito Botelho indagará ad infinitum (ou seja, enquanto houver um leitor incomodado) “o sumiço do filho de Pierre Bataillon no fundo da floresta amazônica”. Quanto a Conchita Del Carmen, esta personagem permanecerá repleta de vida (vida ficcional), comandando a Rua das Flores (enquanto a narrativa existir e houver leitores para oferecerem-lhe dinamismo supravital). Os conflitos entre os espaços sócio-substancial e mítico-substancial se revelam assim em toda a sua grandeza e movimento diante do leitor. O Manixi rogeliano é o lugar da contenda. A Cidade de Manaus, também. Ali (Floresta versus Cidade) os dois espaços (o social e o mítico) se unem e se digladiam (se digladiarão permanentemente nas três dimensões desta incomum ficção, ou seja, nas dimensões da arte ficcional). Ali dois poderes se enfrentam.


MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

AMAZÔNIA: O VALOR DA GENUÍNA FICÇÃO



AMAZÔNIA: O VALOR DA GENUÍNA FICÇÃO

NEUZA MACHADO



O valor histórico dos textos de Euclides da Cunha é inestimável. Os textos, sobre a realidade amazonense do início do século XX, são deliberadamente elaborados (não há como contestar a capacidade discursiva do escritor), há ali a marca dos que sabem escrever e transmitir pensamentos e conhecimentos em forma de narrativa, mas, reafirmo, não há o “desconforto” verticalizante do texto artístico (a possibilidade de o leitor interagir com os cogitos superiores do escritor). Por exemplo, a Ilha de Marapatá, para Euclides, é o “mais original dos lazaretos ─ um lazareto de almas! Ali, dizem, o recém-vindo deixa a consciência...” (CUNHA, Euclides. Terra Sem História: Amazônia. À Margem da História. São Paulo: Martin Claret, 2006: 28) . Esta horizontal informação de Euclides não atinge o cogito reflexivo do leitor, em outras palavras, não promove a “eternização” literária do lugar, mesmo que demonstre textualmente que a Ilha de Marapatá é o espaço da angustiante solidão. No entanto, o Pós-Moderno/Modernista de Primeira Geração Mário de Andrade recebeu a informação, com certeza por via euclidiana, avaliou-a, e soube transformá-la em ficção-arte. Com sua capacidade de interagir criativamente com as palavras, Mário de Andrade obsequiou os leitores de seu presente histórico (e os do futuro) com uma lendária Ilha de Marapatá, onde seu personagem Macunaíma havia deixado a consciência ao sair para o espaço universal.

Rogel Samuel foi além: informou-se intelectualmente, viu os problemas e as virtudes de perto (problemas e virtudes amazonenses que sempre fizeram parte de sua vida), pensou e repensou o espaço de concepção de sua obra ficcional e o transformou em singularíssima narrativa. A Grandeza do Mítico-Ficcional (não é o mítico da epopéia em versos), a Floresta Imensurável, o Igarapé do Inferno como Limite do Fim do Mundo, todos os símbolos transmutativos que vigoram e se revigoram no discurso narrativo de Rogel, a partir de sua criativa intuição, desvelam gradativamente a Floresta Mítica (e a Cidade Manaus ou todas as Cidades do Mundo); descobrem-na (a Floresta), enquanto dimensão de normas capitalistas, rodeada nestes tempos pós-modernos por um arcabouço mítico. O amoroso olhar do escritor, nascido e criado ali, conhecedor de todas as frestas e sinuosidades do lugar, “olhar atuante” auxiliado por sua influente mão de criador ficcional e por um terceiro cogito singularíssimo, mapeou, horizontalmente e verticalmente, a Grande Floresta Amazonense e a Cidade de seu nascimento, oferecendo-lhes vida ficcional (a verdade da ficção), por meio de uma singular imaginação dinâmica, duradoura.


MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel

domingo, 27 de dezembro de 2009

O TRAJETO DA VIAGEM OU A VIAGEM AO MARCO EXTREMO DE NÓS MESMOS




O TRAJETO DA VIAGEM OU A VIAGEM AO MARCO EXTREMO DE NÓS MESMOS

NEUZA MACHADO



"Porém embarcado chegaria em Manaus sem tropeços depois de 6 dias de viagem a 8 milhas por hora. E 2 dias mais tarde passava pela Boca do Purus, 5 dias após entrava na Foz do Juruá. Não navegávamos dia e noite? Na Foz do Juruá o Rio Solimões mede 12 km de largura e pássaros de vôo curto (o jacamim, o mutum, o cojubim) não conseguem atravessar, morrendo cansados afogados no fundo de ondas pinceladas de amarelo da travessia. Em 8 dias de navegação pelo Juruá chegávamos no Rio Tarauacá e atracávamos em São Felipe, de 45 casas, vila bonita, e arrumada. 9 dias depois entrávamos no Rio Jordão, de onde não prosseguiu o Barão, que não tinha calado, a gente seguindo desse modo de canoa pelo Igarapé Bom Jardim, subindo pois e encontrando nosso termo e destino, a ponta do nosso nó, o término, o marco extremo de nós mesmos, o mais longínquo e interno lugar do orbe terrestre ─ atingíamos finalmente o Igarapé do Inferno, limite do fim do mundo onde se encontrava, e envolto no peso de sua surpresa e fama, o lendário, o mítico, o infinito Seringal Manixi ─ 40 dias depois de minha partida de Belém, 3 meses e 5 dias desde a minha partida de Patos". (O Amante das Amazonas)

"Mas não disse que vinha à procura de Tio Genaro e meu irmão Antônio, aviados no Manixi. Não. Pois eles tinham sido trabalhadores seringueiros do Rio Jantiatuba, no Seringal Pixuna, a 1.270 milhas da cidade de Manaus, onde anos depois naufragaria o Alfredo. Eles freqüentaram o Rio Eiru, numa volta quase em sacado, e dali partiram em chata, barco e igarité até ao Rio Gregório, onde trabalharam para os franceses, e de lá partiram para o Rio Um, para o Paraná da Arrependida, aviados livres que eram, subindo o Tarauacá até o ponto onde dizem foi morto o filho de Euclides da Cunha, que delegado era, numa sublevação de seringueiros. Depois viajaram. E foram para o Riozinho do Leonel, seguiram para o Tejo, pelo Breu, pelo belo Igarapé Corumbam – o magnífico! –, pelo Hudson, pelo Paraná Pixuna, o Moa, o Juruá-mirim até o Paraná Ouro Preto onde, pelo Paraná das Minas entraram pelo Amônea, chegando ao Paraná dos Numas, perto do Paraná São João e de um furo sem nome que vai dar num lugar desconhecido". (O Amante das Amazonas)

Os aventureiros europeus, como os franceses e alemães, à época, por não se acharem os “donos” da Colônia, penetraram naquele templo de pureza mítica, conhecido como Floresta Amazônica, com a intenção evidente de apropriação do local. O fato era que os colonizadores espanhóis e/ou portugueses, cada um em seu tempo histórico, estavam mais preocupados com a costa brasileira, alvo de vários ataques de navios piratas (ingleses, holandeses, franceses), do que propriamente, por motivos óbvios, com a região amazônica da fronteira latino-americana: julgavam que terras tão inóspitas não iriam merecer a atenção dos aventureiros de outros reinos de Além-Mar. Por este aspecto, retomando as minhas inferências sobre o Manixi ficcional rogeliano, a partir do reconhecimento histórico de uma região sem igual, além de repensar a presença do personagem francês Pierre Bataillon, como chefe importante da região, medito sobre a presença missionária dos padres católicos alemães, na figura do personagem Frei Lothar, objetivando catequizar os indígenas e mestiços, mas sofrendo os males da expatriação, afundando-se no desmazelo corporal e no vício da bebida, e, conseqüentemente, na desilusão espiritual.


MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel.

sábado, 26 de dezembro de 2009

AMAZONAS: OLHAR SINTAGMÁTICO x OLHAR PARADIGMÁTICO



AMAZONAS: OLHAR SINTAGMÁTICO x OLHAR PARADIGMÁTICO

NEUZA MACHADO


"No princípio, o texto imita os autores amazonenses do auge da época da borracha, que eram imitadores de Euclides da Cunha". (Entrevista)



Para o critério de um resultado considerável de um pensar reflexivo sobre o romance O Amante das Amazonas, de Rogel Samuel, o préstimo da Entrevista do autor à jornalista Tânia Gabrielli-Pohlmann aparecerá, aqui, como registro às minhas induções analítico-fenomenológicas sobre sua diferenciada criatividade ficcional. Por este auxílio do próprio escritor, entendo os desempenhos dos dois narradores deste relato ficcional, sobre o esplendor e decadência do Império Amazônico, como autênticas rubricas pós-modernas/pós-modernistas de Segunda Geração. Verifico, outrossim, por meio de uma reflexão teórico-crítica abrangente, que o Ribamar-Narrador poderá ser avaliado como alter ego do escritor comprometido com suas leituras diárias, e, ao mesmo tempo, propenso a impregnar-se criativamente das mesmas, transformando-as em fontes de produção literária ficcional.

Diz Rogel que, no princípio, o seu texto buscou imitar os autores amazonenses do auge da época da borracha, que eram também imitadores de Euclides da Cunha. O fato é que o escritor de Os Sertões, aquele que tanto se impressionou com os problemas do sertanejo, principalmente os habitantes do Alto Sertão (os realmente “fortes”), em confronto com os “enfraquecidos” sertanejos da caatinga (os próximos, do “brejo”, onde, à época, desnutridos, a seca os exterminava com maior facilidade), ao visitar a região amazonense, e ao escrever sobre a mesma, impressionou-se teluricamente (atentar para a etimologia da palavra), legando aos historiadores (e apreciadores de impecáveis estilos literários) sensibilíssimas páginas de puro encantamento, mas não logrou traduzir em palavras plurissignificativas ─ criativas ─ aquilo que entendo por verdadeira arte literária (fosse no âmbito da miséria humana, que grassava no Amazonas do princípio do século XX, ou da beleza estonteante de um lugar reconhecidamente de pura maravilha e incríveis singularidades). Euclides da Cunha, diferente de sua atuação como criador ímpar em Os Sertões, em seus textos sobre o Amazonas, ao ocupar-se das virtudes e/ou problemas daquela região, não alcançou (pelo meu ponto de vista), no âmbito da criação literária, suas peculiaridades riquíssimas. O festejado escritor, do início do século XX, por outro lado, ao escrever sobre o Amazonas, atuou como repórter impressionista, a observar tensamente, mas por uma ótica sintagmática, as inúmeras mazelas que assolavam aquele “paraíso” já maculado por exigências capitalistas (o que poderia ser um dado singularíssimo no espaço da criatividade paradigmática). Euclides da Cunha excluiu assim a possibilidade de recriar o ambiente da Floresta artisticamente e de obter o ensejo de transformar aqueles textos (reconhecidamente de impecáveis qualidades discursivas, no entanto, lineares) em algo “incômodo” (incomum criação literária) para os leitores de sua época e para os leitores do futuro.

Euclides da Cunha colocou o Amazonas à margem da história, pois se encontrava submisso à idéia de que a região estava separada dos ideais políticos do Novo Mundo Americano, pensamento este que já havia se instaurado em nossa história cultural desde a conquista dos espanhóis ao norte da América do Sul (século XVI) e, posteriormente, século XVII, de 1580 a 1640, quando os reis espanhóis se apropriaram do trono português e da Colônia do Brasil. A verdade é que o anterior pensamento de Euclides da Cunha permaneceu incólume até aos anos finais do século XX (ou seja, a idéia euclidiana de um Amazonas à margem da história), porque a região amazônica (desde o século XVII) resistiu aos liames da colonização espanhola nos países fronteiriços, à época colonial, e, posteriormente, após a regeneração, à colonização portuguesa da Terceira Dinastia Orleans e Bragança. Até meados do século XIX não se tornaram notórios, naquelas paragens do Estado do Amazonas e Acre, mais próximas da fronteira com Peru e Bolívia, os conhecidos, historicamente falando, assentamentos comerciais dos colonizadores de fato (Portugal/Espanha/Portugal). Esta averiguação evidencia a sobredita “marginalidade” constatada por Euclides da Cunha nos anos iniciais do século XX. O que Euclides percebeu e comprovou, em seu escrito documental sobre a região amazônica, próxima às fronteiras de domínio espanhol, foi que a “marginalidade” do território, apesar dos aventureiros que ali se estabeleceram desde o início da colonização, principalmente os não-portugueses ou pouquíssimos portugueses, se encontrava politicamente aquém do desenvolvimento colonial das outras regiões do Brasil.

Por este ângulo, percebo o Manixi rogeliano, originário do final do século XIX, um Manixi governado por um ditador sui generis de origem francesa. Enquanto os espanhóis, primeiramente, e portugueses, posteriormente, colocaram a região distanciada dos valores aproximados das antigas regras coloniais, transformando-a numa espécie de local periférico, um lugar desconhecido, onde poucos aventureiros ousavam explorar, lá pelos idos do século XVIII e início do XIX. Entretanto, aventureiros de outras nacionalidades por ali aportaram, submetendo algumas etnias indígenas e os caboclos a seus domínios. Na verdade, os colonizadores (espanhóis e portugueses) possuíam extensões de terras brasileiras menos problemáticas para a colonização e, por isto, não persistiram na busca exploratória, devido às dificuldades de locomoção, às doenças tropicais, aos ataques dos indígenas, aos ataques dos animais ferozes da Floresta, e muitos outros empecilhos. Tais embaraços não perturbavam os aventureiros de outros reinos europeus, em seus anseios de domínio e enriquecimento de livre comércio. Sobre esse itinerário dificultoso, o narrador-personagem de Rogel Samuel, o Ribamar de Sousa, iniciando a sua viagem ficcional em 1897, oferece-me informações estimáveis:


MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A VALORIZAÇÃO DA FLORESTA



A VALORIZAÇÃO DA FLORESTA

NEUZA MACHADO



A visão ficcional do primeiro narrador de O Amante das Amazonas, em princípio, poderia ser considerada como uma “visão de fora”, ou seja, uma visão de narrador de narrativas pós-modernas/pós-modernistas projetando a objetividade da câmara (como querem os estudiosos da ficção da pós-modernidade), mas, a valorização da Floresta Amazônica, subentendida, é maior do que a objetividade alienante. Mas é também esta aparente “visão de fora” que impede a análise psicológica em termos ficcionais, tão do gosto dos anteriores pós-modernos-modernistas. Ela se calca nas invenções do século XX, como o cinema e a televisão. De certa forma, relaciona-se com o novo (já antigo) romance francês da década de quarenta, mas não se prende totalmente a essa forma narrativa, também conhecida como a “escola do olhar” (de Robbe-Grillet, Claude Ollier, Jean Ricardou; ou mesmo, dos escritores portugueses do pós-sessenta ao final dos anos oitenta: Augusto Abelaira, Almeida Faria e outros), ao contrário, nesta fase atual, dos anos noventa até ao momento, o imaginário-em-aberto do escritor pós-modernista de Segunda Geração se dilatou. Os dois narradores desta narrativa de Rogel Samuel se apresentam em pessoas diferentes e, ao mesmo tempo, similares. São os alternados egos do próprio escritor amazonense se confundindo com os inúmeros personagens, todos importantes, todos eles fases-faces do próprio criador. Além disso, há muito mais: esses narradores são porta-vozes de quem escreve, porque, ao longo da narrativa, percebe-se que, independentes das assumidas colagens (colchas-de-retalho ou patchwork quilt), aqueles que enunciam (anunciam) têm poder, possuem o poder dos que se colocam como testemunhas importantes de momentos incrivelmente considerados, momentos do próprio autor, nato de um lugar que se localiza para além da imaginação comum, resguardados pelos mistérios ocultos, mistérios diferenciados subjacentes na Imensurável Floresta Amazonense.


MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A IMENSURÁVEL FLORESTA




A IMENSURÁVEL FLORESTA

NEUZA MACHADO



Enquanto o(s) narrador(es) rogeliano(s) refletem os atuais problemas insolúveis da Grande Floresta e, por acréscimo, os problemas da cidade de Manaus (e o personagem pós-moderno/pós-modernista de Segunda Geração desta diferente narrativa ficcional é a Floresta Amazonense), a autêntica criatividade ficcional de Rogel Samuel vai-se materializando ante o entendimento catártico do leitor do presente (e assim será com o leitor do futuro). Tal intencionalidade do(s) narrador(es) de Rogel Samuel, resguardada evidentemente por uma linguagem especialíssima, vai permitindo que os movimentos e percepções dos personagens, restritos ao interior da Imensurável Floresta, se presentifiquem, revelando aos leitores uma específica realidade, saída do particular conhecimento do criador ficcional, conhecedor, por sua vez, dos diversos graus da chamada “linguagem figurada”.

E, graças a esse conhecimento anticonvencional, o(s) narrador(es) desta ficção rogeliana, em particular, vai(vão) interagindo com a intertextualidade, aquela intertextualidade que já foi considerada a marca de nascença das narrativas do final do século XX. Os estudos literários, as análises e interpretações, as sistematizações de textos-base (e foram muitos os textos-base sistematizados, segundo o próprio escritor) possibilitaram a transformação da Grande Floresta em ocorrência maravilhosa (atentar para a etimologia desta palavra). A Grande Floresta como espetáculo, dinâmico, interativo, e que, a qualquer momento, atingirá também outras mentes, aquelas que ainda não tiveram o privilégio de dialogar com este instigante texto ficcional.

Se há intertextualidade, esta se liga aos assuntos míticos da Floresta, às questões políticas do Amazonas, às reflexões particulares do autor. Essas controvérsias, diversas e desencontradas (ou se quiserem ajustadas), colocam em destaque, apenas, um personagem principal. E este personagem principal é a própria Floresta, com seus segredos e alucinações, uma Floresta estranha e diferente, terrivelmente insólita, Floresta que nenhum outro escritor amazonense da atualidade conseguiu resgatar, criativamente falando, em forma de ficção (apenas o escritor Rogel Samuel, nobilitado no terceiro cogito da consciência singular).

MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O PALÁCIO MANIXI



O PALÁCIO MANIXI

NEUZA MACHADO


Cada capítulo de O Amante das Amazonas é um close que aumenta e ilumina o espaço narrado, um close dilatado pelo olhar ficcional poetizado de um escritor-narrador repleto de matéria lírica. Nas páginas rogelianas, o chamado “simulacro pós-moderno” se agiganta, transformando o Palácio Manixi em um local digno de grandiosas filmagens cinematográficas. Não importa que a história se localize no passado histórico em confronto com um verossímil presente ficcional, o que vale é a representação da mesma no presente cronológico, para que seja reavaliada no futuro, quando a Floresta Misteriosa e seus míticos personagens não mais existirem. Os leitores do futuro se sentirão vazios com a perda, como hoje nos sentimos despejados de um passado de glórias, ao lermos as grandes obras literárias que nos foram legadas. Satisfazemo-nos (os leitores-eleitos reflexivos) com os preenchimentos prazerosos ou mentalizados desse vazio, com nossas incomodações culturais, com nossa ânsia de crescimento intelectual.

Mesmo que o autor afirme, em suas Entrevistas, que, desde as primeiras páginas, imitou os autores amazonenses da época do auge da borracha, os quais também foram imitadores de Euclides da Cunha, mesmo que diga que a sua obra, como um patchwork quilt (só para expressar-me como os autênticos e conceituados críticos brasileiros pós-modernos, os quais preferem reverenciar as expressões estrangeiras em detrimento de suas falas tupiniquins), explicita as suas dilatadas leituras teórico-filosóficas, posso afirmar que o todo de sua narrativa se vale da intencionalidade ficcional. A intencionalidade ficcional vai segurar e assegurar o diferente fio narrativo, transformando em novidade, em criação, o já instituído. A visão distendida de Rogel Samuel sobre o seu espaço romanesco é maior do que as informações que ele colheu nos livros (em suas leituras filosóficas ou ficcionais). É uma visão transcendental, particularíssima, que ele procura desmistificar, como se ele não tivesse o direito de reivindicar a autoria plena de seu texto ficcional. Ele “finge” saber menos do que os seus personagens (“o poeta é um fingidor”, já disse Fernando Pessoa), por isto a criação de dois narradores visíveis, fora os invisíveis que muito contribuíram. Por meio dessa aparente simulação, ele refez/refaz os aspectos e atitudes dos personagens perante a vida na Floresta, evitou/evita os juízos pré-concebidos dos leitores desatentos, mas o propósito de criação ficcional permaneceu/permanece direcionando o fio narrativo. Seus narradores expuseram/expõem (e vão continuar a expor) seus pontos de vista sobre a realidade da Grande Floresta, sobre aquele lendário universo que eles desejaram/desejam perpetuar, para apresentá-lo aos leitores do futuro. A criação ficcional é alguma coisa que independe de preço, porque a história do conflito entre as duas realidades – a social e a mítica – poderá ser reavaliada futuramente, quando os “verdadeiros” leitores de Rogel Samuel, desconhecedores dessas passadas durações grandiosas, começarem a interagir com as camadas ocultas de seu romance pós-moderno/pós-modernista. Enquanto não aparecem esses futuros leitores, naturalmente os leitores privilegiados, aproprio-me de minhas reflexões e passo a afirmar que, se há mais de um narrador atuando, isto prova a intencionalidade ficcional. E se suas faces são incomuns, reduplicadas, estas são próprias das autênticas narrativas ficcionais da pós-modernidade.


MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A PRESENÇA INTERATIVA DO NARRADOR



A PRESENÇA INTERATIVA DO NARRADOR

NEUZA MACHADO


Do princípio ao fim da narrativa ficcional O Amante das Amazonas, a presença interativa do narrador pós-moderno/pós-modernista de Segunda Geração se encontra visível. Não importa que sejam dois ou mais narradores (invisíveis e passageiros, como a manicura Sabá Vintém ou a bibliotecária Estella de Sousa, ou Benito Botelho, ou qualquer outro personagem), eles se unem como representantes dos narradores do escritor pós-modernista. Os narradores rogelianos, desta diferenciada narrativa, gradativamente, vão hiper-realizando o amplo espaço sócio-mítico-substancial da floresta amazonense, e, posteriormente, o espaço sócio-substancial da cidade de Manaus, transformando-os (os dois universos narrativo-ficcionais) em momentos de criativos e impagáveis espetáculos. É bem verdade que os leitores do futuro merecerão a grandiosidade destas múltiplas visões arrebatadoras de uma Floresta plantada no princípio de tudo, Floresta que ainda faz parte do atual momento histórico da humanidade, com a ressalva de que a mesma, possivelmente, não se perpetuará, pois poderá desaparecer em um dos interregnos do tempo.

Assim reflito sobre os narradores de Rogel Samuel. A história pessoal desse incomum escritor é grandiosa e ela interage com a grandiosidade sócio-mitológica de seu Estado de nascimento. A história pessoal/familiar do autor é grandiosa, o Amazonas é grandioso, assim como aconteceu com João Guimarães Rosa e o Sertão de Minas Gerais. Ficcionistas e Ficções: grandiosos, importantes, perpetuados pelo poder do imaginário alargado. O Amazonas é hiper-fascinante, um repositório de lendas espetaculares, muitíssimo além da imaginação linear. Os narradores rogelianos não são comuns, são avatares excepcionais de vários narradores, ao longo da história do homem (e é exatamente este o conceito que poderemos oferecer aos chamados narradores pós-modernistas de Segunda Geração), os quais vão possibilitando o exagero criativo (e aqui, nesta expressão “exagero criativo” não há nenhuma depreciação crítica), transformando, em se tratando da incomum ficção de Rogel Samuel, o que seria aparentemente normal (os acontecimentos cotidianos da Grande Floresta) em espetáculo grandioso.

MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

OLHAR PODEROSO: IMAGINÁRIO SEM LIMITES



OLHAR PODEROSO: IMAGINÁRIO SEM LIMITES

NEUZA MACHADO



Tais quais os anteriores pós-modernos/modernistas do início do século XX, os narradores pós-modernos/pós-modernistas de Segunda Geração foram jogados à pressão do progresso. Mas, diferentes dos anteriores, não quiseram desenvolver um olhar acima da realidade (a partir do segundo cogito dialetizado), não se propuseram a agir como demiurgos, a criar uma insólita realidade ficcional. Exigiram mais de si mesmos. Assumiram uma participação ativa em seus textos ficcionais, posicionando-se como escritores-personagens-narradores, denunciando, inclusive, suas próprias inquietações existenciais, mostrando-se aparentemente fragilizados ante o imensurável de uma degradada realidade globalizada. Preferiram a preocupação com o presente (mesmo simulacrado em passado histórico, ou escrito em presente histórico), ao invés de se reportarem paraliterariamente ao passado real, ou mesmo se preocuparem profeticamente com o futuro incógnito, desenvolvendo a diferente criatividade ficcional por intermédio de uma inquietação revestida por uma simulação da tal realidade (afinal, quem reproduz fielmente a realidade são os cronistas e jornalistas, ou seja, os escritores paraliterários, não os autênticos criadores ficcionais).

As mãos que trabalham (a criação ficcional), os olhos que vêem (o homem como um produto das aparências), ambos acrescidos do imaginário particular ímpar do ficcionista, repleto de conhecimento de que natureza for (mesmo que o ficcionista esteja desiludido por se ver submetido às exigências sócio-ideológicas de seu momento estético), impõem a visão do chamado hiper-realismo, visão transformadora, intensamente grandiosa, abeirando-se ao plano metafísico do sonho. Mas a vida ordinária pós-moderna já é por si um sonho dantesco, os simulacros existenciais são maiores e até mais interessantes do que a própria realidade. Assim, os narradores deste momento da pós-modernidade sonham a realidade que desejam transmitir aos seus leitores (aos leitores do futuro, bem entendido), mas não podem furtar-se à transmissão criativa de tais simulacros. Entre os personagens desses sonhos amplos, resgatados pela mão poderosa, pelo olhar poderoso, e pelo especialíssimo imaginário-em-aberto (imaginário sem limites) do escritor, esses sonhos são antes de tudo reveladores de personagens atuantes, e cada um deles terá de se mostrar repleto de brilho, mesmo que apareça e desapareça rapidamente ao longo do texto ficcional. Por tais motivos, todos os personagens de Rogel Samuel, em seu romance O Amante das Amazonas, são importantes e são atuantes. São todos imprescindíveis ao desenrolar da ficção, porque, mesmo que (alguns) apareçam esporadicamente, ao longo da narrativa, como, por exemplo, a Sabá Vintém, a manicura das ricas senhoras (ela que sabe de tudo o que acontece no ambiente narrado), não poderão ser descartados. São poderosos auxiliares dos narradores rogelianos (quantas informações preciosas foram repassadas aos narradores, por intermédio de Sabá Vintém, ou pela personagem-bibliotecária Estella de Sousa?).

MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel.

domingo, 20 de dezembro de 2009

NARRADORES PÓS-MODERNOS



NARRADORES PÓS-MODERNOS

NEUZA MACHADO



Penso que as narrativas dos escritores da Segunda Fase do Modernismo Brasileiro até aos anos finais da década de 1960 (a partir do Macunaíma de Mário de Andrade) já poderiam ser reconhecidas como narrativas pós-modernas (refiro-me à Era, evidentemente). Por conseqüência, já teríamos, historicamente falando, dois momentos estético-literários relacionados com o nosso atual momento (estes anos iniciais do século XXI): o Modernismo (da segunda fase até aos anos sessenta, dividido em dois segmentos) e o Pós-Modernismo (dos anos sessenta em diante, já computando também dois segmentos).

Ao chamado Modernismo de Terceira Fase (anos quarenta aos sessenta), percebo-o como um momento de transição para o pós-modernismo literário (estética pós-modernista). Para a valorização da criatividade do escritor brasileiro, foi um momento literário excepcional, com todos os seus grandes ficcionistas epifânicos, os quais souberam guiar, catarticamente, seus leitores ao mais alto grau de interação reflexiva por meio de textos ímpares, iluminados; ficcionistas, esses, únicos, cada um diferenciando o estilo criativo de seus escritos por meio de suas peculiares formas, obstruindo o posterior desenvolvimento de textos semelhantes, impedindo a proliferação de plágios assinados por outros pseudo-escritores. (É lícito lembrar que Cervantes foi vítima de tal conduta por parte de um outro escritor. Depois de sua morte, houve uma continuação das aventuras do Dom Quixote). E aqui vamos assinalar, inclusive, o Modernismo Brasileiro das duas últimas fases, a partir dos anos trinta aos anos sessenta, como estéticas Pós-Modernas (relacionadas à Era), com o advento das mudanças políticas aqui percebidas, mas, também, como reflexo das leituras estrangeiras feitas pelos intelectuais nos anos anteriores, desde o término da Primeira Guerra Mundial. Leituras teórico-críticas importadas principalmente da França, trazidas também pelos professores-pesquisadores e sociólogos franceses, que aqui vinham pesquisar, leituras que refletiam as idéias do denominado “novo romance francês”, o qual desenvolvia a chamada “técnica do olhar” em alta rotatividade, técnica esta já utilizada desde o início do século XX por perspectivas ficcionais diferentes (narrativa paradigmática normal, narrativa de absurdo, narrativa fantástica, narrativa do realismo-mágico), todas, sem distinção, diretrizes ficcionais relacionadas com as chamadas Narrativas de Acontecimento.

Entretanto, os narradores brasileiros, os pós-modernos/pós-modernistas de Segunda Geração, foram além do “olhar” em alta rotatividade dos chamados pós-modernos/pós-modernistas da Primeira Geração (Murilo Rubião, Roberto Drummond e outros). Diversos dos antigos narradores experientes que “tinham mãos para pensar” (teoria de Anaxágoras de Clazomene) e dos narradores modernos (os quais pensavam porque tinham olhos e mãos para escrever), os narradores pós-modernistas (do segundo momento ficcional da Era Pós-Moderna até ao momento) passaram a pensar porque tinham mãos criadoras à moda dos antigos narradores, olhos para ver a realidade globalizada, como os pós-modernos/pós-modernistas da Primeira Geração, mas possuindo, concomitantemente, um incomum imaginário-em-aberto, dinâmico, acionado pela capacidade de apropriação e transformação interativa do cotidiano, do conhecimento em todas as suas vertentes, das informações generalizadas, em outras palavras, de tudo o que pudesse instigá-los criativamente, a partir de suas realidades históricas, ou seja, do cheio ao vazio existencial.

MACHADO, Neuza. O Fogo da Labareda da Serpente: Sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel.

sábado, 19 de dezembro de 2009

ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 12

NEUZA MACHADO


ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 12

NEUZA MACHADO



O narrador moderno, cujos olhos o obrigavam a ver o momento incógnito de uma novíssima Era desconcertada, amedrontadora, intuiu que, por intermédio de uma perspectiva dialetizada, o seu ato de narrar alcançaria camadas desconhecidas daquela realidade ― que lhe estava próxima ―, escoltado por seu singularíssimo grau de conhecimento do mundo e por sua capacidade de registrar, ao longo de sua narrativa, palavras plurissignificativas, palavras essas que levassem o leitor a pesquisar os seus vários significados, e, com isto, obrigando-o a interagir com a camada oculta do texto ficcional. O inventor desse iniciante ardil ficcional foi Miguel de Cervantes, quando criou a expressão “moinhos de vento”, expressão que remete aos diversos obstáculos enfrentados por seu personagem principal, o Quixote (um herói decaído, impossibilitado de representar os antigos heróis do passado medieval), acompanhado de seu fiel escudeiro Sancho Pança (o personagem-representante legal, racional, da Era que se iniciava). Como bem se pode avaliar, o achado da maneira de ser da plurissignificação literária é ficcional; a forma poética lírica a adotou, posteriormente, (a poesia lírica, inclusive a renascentista, anterior aos anos finais do século XVI, não é plurissignificativa; possui os fenômenos estilísticos do gênero lírico, mas não se vale da plurissignificação, um fenômeno literário da Era Moderna, a partir da estética barroca).

O ciclo de narradores ficcionais modernos, iniciado a começar de Cervantes, termina aqui no Brasil no final do século XIX e anos iniciais do XX, com as narrativas realista-impressionistas de Machado de Assis a Lima Barreto. Assim, as narrativas ficcionais do século XX, de escritores brasileiros do pós-22, em conformidade com as expressões literárias dos escritores de outros países ocidentais (James Joyce, Kafka e outros), já poderiam ser inseridas, em se tratando de Era, naquela a que denominamos de Pós-Moderna. Segundo os especialistas, há ainda muita dificuldade para um julgamento eficiente sobre o início desta atual Era, pois ela está muito próxima, historicamente, de nossa realidade existencial. Entretanto, penso que o século XX (desde a sua alvorada), presentemente, já poderá ser recebido como o princípio de algo bem diferente da Era anterior. Teria de gastar um tempo distendido para provar tal tese. Por enquanto, não é esta a intenção que me orienta. Mas, de qualquer forma, para o desenvolvimento de minhas reflexões sobre o romance de Rogel Samuel, catalogarei os anos iniciais do século XX como o início desta nova Era, chamada (depois de diversas negações e reprovações) de Pós-Moderna.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 11

NEUZA MACHADO


ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 11

NEUZA MACHADO


Pelo meu ângulo visual interativo, o narrador pós-moderno/pós-modernista (e neste momento refiro-me ao escritor-ficcionista enquanto personalidade ativa adstrita ao seu momento histórico) sintetiza a união da forma de narrar tradicional com a forma de narrar modernista, paradigmática, insólita, dos anos trinta do século XX (início da segunda fase do modernismo no Brasil) ao final dos anos sessenta. (Tradicional aqui significa a forma de narrar sintagmática, linear, heróica, dos narradores antigos e medievais, até ao final do século XVI, e alguns posteriores, com aparecimentos esporádicos ─ sem criatividade ─ nas escolas literárias que foram surgindo. É importante o esclarecimento de que não estou a referir-me ao narrador da Era Moderna, das narrativas complexas, nascido a partir das páginas notáveis de Miguel de Cervantes no início do século XVII, o qual vigorou até ao final do século XIX, com as variações próprias de cada momento histórico e suas respectivas estéticas literárias).

Reportando-me à tese de Anaxágoras de Clazomene, de que “o homem pensa porque tem mãos”, revisitada por José Américo da Motta Pessanha, no Prefácio ao Direito de Sonhar, livro de autoria do filósofo francês Gaston Bachelard, repenso esta assertiva de Anaxágoras, permitindo-me transferi-la ao aludido narrador tradicional anterior à Era Moderna. Por este prisma, procuro reavaliar aquele narrador ― horizontal ― que se esforçou por pensar a realidade (recopilando-a literariamente), resguardado por mãos trabalhadoras ligadas ao prazeroso exercício de “bem narrar” (bem escrever), mas, ainda, preso a uma “perspectiva anulada” (Gaston Bachelard), uma perspectiva exteriorizada, superficial, fenomênica. Assim, o pensar em profundidade ficou interditado, porque as “mãos trabalhadoras” dos narradores antigos e medievais e dos novelistas eram mais poderosas e só alcançavam pensar as aparências (não me refiro aos romancistas das seguintes estéticas literárias da Era Moderna). Será importante recuperar o fato de que as novelas em prosa (sintagmáticas, sempre conceituais), diferentes dos romances paradigmáticos da Era Moderna, em seu caminhar histórico até ao momento, não lograram transformar-se em ficção-arte, continuaram lineares, e, aos poucos, perderam aquela graça própria dos narradores iniciais, das novelas ou romances de cavalaria em versos, atualmente, já reconhecidos como narradores épico-medievais.

Entretanto, o narrador moderno descobriu que pensava porque tinha “olhos” e mão poderosa (e, aqui, repito, refiro-me aos criadores excepcionais de um tipo de ficção que começou com Miguel de Cervantes, no início do século XVII), aquele narrador da Era Moderna que instaurou, nos meios intelectuais de então, um gênero literário estreante atualmente conhecido por “narrativa em prosa” ou “narrativa ficcional”, para diferenciá-lo da epopéia (Gênero Épico) e das novelas medievais de cavalaria (lineares) escritas primitivamente em versos (posteriormente, adaptadas em prosa, para o gosto dos nascentes burgueses).

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 10

NEUZA MACHADO


ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 10

NEUZA MACHADO



O Amante das Amazonas: Personagens-Narradores ― O(s) Personagem(ns)-Narrador(es) Pós-Moderno(s)/Pós-Modernista(s) de Segunda Geração de Rogel Samuel


"Hoje, nosso mundo está menos seguro de si mesmo, mais modesto talvez, uma vez que renunciou à pessoa todo-poderosa, mas também mais ambicioso, uma vez que olha para além. O culto exclusivo do “humano” cedeu lugar a uma tomada de consciência mais ampla, menos antropocentrista. O romance parece vacilar, tendo perdido seu melhor sustentáculo de outrora, o herói. Se não consegue pôr-se de pé novamente é porque sua vida estava ligada à vida de uma sociedade agora extinta. Se conseguir, pelo contrário, um novo caminho se abrirá para ele, com a promessa de novas descobertas". (ALAIN ROBBE- GRILLET)

Por que o mundo já começa a enxergar o talento ficcional desse escritor pós-moderno, em especial, a partir desta instigante narrativa? Sem o receio dos prováveis contra-ataques (contra-ataques daqueles que não leram a obra e, por isso, dela não gostaram, ou leram mal), posso afirmar: o romance O Amante das Amazonas, enquanto forma literária diferenciada, não é somente a recriação ficcional de estratos múltiplos de realidades amazonenses (sociais, míticas e ficcionais). É muito mais. É uma narrativa que reflete a problemática do mundo em seus aspectos dilatados. Os Narradores, a Floresta Amazônica, o Palácio Manixi, os Numas, os Caxinauás, Pierre Bataillon, Paxiúba, Zilda, Laurie Costa, o Comendador Gabriel Gonçalves da Cunha e a filha Glorinha Lambisgóia, Ifigênia Vellarde, Zequinha Bataillon, Maria Caxinauá, João Beleza, Júlia, Frei Lothar, Benito Botelho, Estella de Sousa, Mirandinha, Leonildo Calaça, Sabá Vintém, Du Bará, Conchita Del Carmen, e todos os outros importantes personagens (porque são todos importantes e insubstituíveis), poderão ser reconhecidos por leitores de outras partes do mundo. (Certamente, o romance será traduzido em outras línguas, por meio de bons tradutores, os quais saberão respeitar a qualidade do texto ficcional de Rogel Samuel). As traduções, que certamente acontecerão, vão propiciar o reconhecimento desta criação literária-ficcional ímpar, porque os conflitos, ali revelados, são as altercações do homem pós-moderno, atribulado (herança da Era Moderna), suas tentativas de reconstrução sócio-cultural em um mundo globalizado em vias de perder importantes fronteiras culturais. Assim, percebo este romance de Rogel Samuel como criação ficcional ímpar, expondo interlinearmente o contemporâneo meio social, globalizado e caótico, entrópico, e, em se tratando do futuro, enxergo-o como refletor replicante de conflitos atemporais e universais.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 9

NEUZA MACHADO



ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 9

NEUZA MACHADO



Contudo, o mundo agora é outro. O narrador também é outro. Em verdade, agora, o ficcionista pós-moderno/pós-modernista não poderá valer-se apenas de um único narrador. Ao longo das narrativas da segunda metade do século XX até ao momento (das narrativas-obras autênticas), diversas vozes narradoras interagiram/interagem com o criador ficcional. São esses narradores, múltiplos, diferentes entre si, que se colocam como arautos do ficcionista desta fase intermediária entre o final do século XX (anos oitenta em diante) e o início do século XXI. Rogel Samuel também formalizou (criou) mais de um narrador: não há apenas um, há outros além do Ribamar de Sousa, e pelo menos mais um poderá ser distinguido pelo leitor “incomodado” (o Ribamar-personagem-narrador de duas realidades singulares, externas e conceituais, complexas ― sócio-ficcional e mítico-ficcional ―, e o Rogel-poeta-ficcionista-narrador de sua própria dinâmica interioridade).

O mundo agora está tão globalizado e complexo que o escritor-narrador pós-moderno/pós-modernista de Segunda Geração se viu/se vê na contingência de renascer à moda tradicional (o ato de contar uma história atual como se fosse um fato de um passado distante), e, ao mesmo tempo, se multiplicar e dilatar-se ficcionalmente e liricamente (matéria lírica interagindo com a ficcional), a partir de uma forma literária ainda não muito divulgada que lhe apresente os meios de recontar a sua própria realidade (transfigurada) aos leitores do futuro (o que ele viu e sentiu neste momento caótico de transição para o Terceiro Milênio, as suas angústias secretas, impossíveis de serem traduzidas em pergaminho comum, impossibilitadas de serem manifestadas pela voz de um único narrador). São estes os narradores pós-modernos de O Amante das Amazonas: o Ribamar de Sousa, narrador multifacetado (somatório de vozes massificadas que se intercalam para que possam reconhecer a perda nostálgica de um incrível mundo, anteriormente imaculado, um mundo para sempre perdido, graças aos desmandos de uma cultura pseudo-elitista, alienante e massacrante), e o próprio escritor-narrador (também poeta lírico) de forma ficcional epo-lírica, conhecedor de uma realidade fantástica, grandiosa, vigorando para além da simples reprodução da verdadeira e fabulosa Floresta Amazônica.

O(s) narrador(es) rogeliano(s) ultrapassando criativamente suas inúmeras leituras teórico-filosóficas-literárias (foram dez anos de pesquisa e reformulações de texto, diz o autor à sua entrevistadora), resgatando o lirismo-epo-ficcional de um lugar ímpar, repleno de “metáforas poéticas”, como ele mesmo assinala, porque somente um ficcionista-poeta, e pós-moderno, poderia criar narradores diferenciados (neo-facies de poetas e narradores: antigos, medievais, modernos e pós). Ou mesmo um único narrador fragmentado que pudesse imobilizar o fluxo narrativo ficcional (em prosa), para observar a poesia (matéria poético-lírica) pairando sobre as águas dos caudalosos rios amazonenses.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 8

NEUZA MACHADO



ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 8

NEUZA MACHADO



O leitor massificado não se encontra preparado para entender as mudanças estéticas (não foi devidamente orientado); os bons textos criativos são de difícil compreensão para o leitor de vida uniformizada. Até mesmo o crítico, atualmente, prefere se posicionar como analista-intérprete que seja aceito pelo leitor padronizado do momento. Só não percebe (o crítico de hoje) que ele também será avaliado no futuro, e não seria nada interessante ser reconhecido como um “novo Monteiro Lobato”, julgando depreciativamente uma arte inovadora (Monteiro Lobato e a arte diferenciada de Anita Malfatti) e apreciando aqueles que não mereciam ser apreciados (pesquisem); socialmente, colocando-se a favor de uma elite abastada e rejeitando lamentavelmente os menos favorecidos. (Frase de Monteiro Lobato, sobre o camponês brasileiro do século XX: “(...) essa raça a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso” - Urupês).

Neste meio tempo, os verdadeiros ficcionistas pós-modernos/pós-modernistas, como o escritor Rogel Samuel, conseguiram e vão conseguindo (o ciclo ainda não se fechou) descartar em seus escritos a agora temporalmente distanciada psicologia interiorizada dos passados modernistas. O meio social, de uns anos para cá, passou a exigir-lhes uma nova deliberação ficcional. Se o mundo tornou-se uma aldeia global desvairada, o ficcionista também terá de registrar e sentir (ver e sentir) criativamente esse mundo aloucado que o cerca. Então, eis as mudanças: as reciclagens intelectuais em forma de prosa ficcional, as assumidas paródias inteligentemente recriadas, a intertextualização proveniente de diversas matérias genéricas, o ato de tecer e destecer o próprio texto, o tom amigável com o leitor, confidenciando-lhe a sua aparente inabilidade discursiva, a sua falta de pretensão ao estrelato intelectual, tudo isto poderá ser denotado (ou se quiserem, conotado) como autêntica ruptura com os preceitos formais do passado modernismo. Os anteriores (os conceituados modernistas, desde Mário de Andrade com o seu Macunaíma) foram os ficcionistas que se colocaram em uma posição de destaque, olhando, de cima, o mundo exterior estilhaçado (os últimos estilhaços da Era Moderna), e comparando-o com seus próprios mundos interiorizados, também estilhaçados pelas exigências sociais, pela perda de suas identidades primitivas e a angustiosa necessidade de resgatá-las. Cada narrador daquele momento (até meados dos anos sessenta) como porta-voz do ficcionista moderno, ou melhor, do ficcionista já em vias de sepultar as exigências das chamadas estéticas modernas. Cada narrador como intermediário de dois mundos, o real e o ficcional, guiado pelo olhar mitificado e a mão poderosa de seu criador, “aquele deus que garantia tudo”, como foi criativamente assinalado nas páginas de A Hora e Vez de Augusto Matraga, pelo ficcionista mineiro Guimarães Rosa.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 7

NEUZA MACHADO



ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 7

NEUZA MACHADO




Mas, a pergunta permanece: e os escritores pós-modernos/pós-modernistas? Seria possível classificá-los como ímpares, se os mesmos desmistificaram e desmistificam e desmistificarão, por um bom período temporal, suas criações ficcionais? Reafirmo: são autênticos. São esses os verdadeiros revolucionários da chamada literatura-arte deste atual momento histórico (século XXI), porque sabiamente não se consideram criadores excepcionais. Os pouquíssimos eleitos pelo dom da arte literária, neste momento de desajustes existenciais, são os realmente autênticos criadores ficcionais. (E aqui elevo a diferenciada criatividade ficcional de Rogel Samuel). São esses ficcionistas atuais (apenas os privilegiados pelo dom da criação literária), os “novos criadores” da estética pós-modernista da Era Pós-Moderna, porque, pelo processo histórico-literário (não poderão apartar-se) rejeitaram, rejeitam e rejeitarão ― por um considerável período ― os dogmas da estética modernista passada.

É importante explicar: os ficcionistas pós-modernistas não rejeitaram os grandes escritores do modernismo e, também, não se opuseram aos escritores de outros gêneros e escolas do passado, ao contrário, foram e são admiradores de todos, dos verdadeiros, dos ímpares, mas seus dons ficcionais já não se adequavam e não se adéquam ainda àquele momento modernista da primeira metade do século XX. A dinâmica de vida agora é outra. A rejeição foi na esfera da formalidade (forma), porque os de agora não querem explorar ficcionalmente os conflitos existenciais do indivíduo-criador, e, muito menos, lançar um poderoso olhar demiúrgico, de cima, à realidade fragmentada.

Então, se há rejeição, porque não falar em renovação? Muitos dirão: há semelhança com o modernismo, não há rejeição ─ a marca inconteste de mudança estética. (Assim como muitos críticos literários, ao longo do século XX, se referiram ao Romantismo e Simbolismo, buscando semelhanças inexistentes). Verdade. Há aparente semelhança obscurecendo as diferenças, que são muitas. O escritor da ficção pós-moderna/pós-modernista de Segunda Geração, além de não aceitar dogmas, para a elaboração de seus textos, e de não se ater às revelações epifânicas, àqueles momentos culminantes, insólitos, assinaladores do clímax dos textos, percebe o quanto é difícil narrar, se não há um padrão teórico-crítico preestabelecido que o coloque na categoria de pós-moderno. O padrão aparentemente não existe, porque aparentemente os teórico-críticos da atualidade se recusam a ler com atenção os textos-novidade, uma vez que é muito cômodo continuar a interagir com os escritos literários já sacralizados pelos conceituados “donos do saber”. E, atualmente (no Brasil e no Mundo), os “donos do saber”, ligados à Indústria Cultural, estão a proliferar. Estão ancorados nas redações dos jornais e revistas, nas seções dedicadas à cultura, avaliando como bons os livros que irão render retorno financeiro. E esses muitos valorizam alguns textos insignificantes que o Mercado Propagador se esmera em divulgar, que vão sendo exaltados como “repletos de criatividade”, deixando no ostracismo os realmente valiosos. Mas, acredito, os autênticos resistirão ao crivo do tempo. Os verdadeiros textos-arte ficcionais serão reconhecidos no futuro. Seria interessante que a Indústria Cultural destacasse a qualidade e esquecesse, um pouco, as exigências financeiras (não muito, o dinheiro será sempre necessário ao artista, pois, sem Mecenas provedores, as contas estão aí, para serem pagas).

domingo, 13 de dezembro de 2009

ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 6

NEUZA MACHADO



ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 6

NEUZA MACHADO



As exigências narrativas da Era Moderna (narrativas em prosa) acompanhavam, de certa maneira, os fenômenos estilísticos da narrativa épica ― epopéias antigas e medievais, anteriormente escritas em versos ―, os quais (os fenômenos estilísticos), dali para frente, passariam a ser reavaliados pelo olhar inteligente e a mão recriadora dos reformados humanistas da Era Moderna, transmutados e problematizados ad infinitum. Não obstante, seriam os modernos prosadores os arautos das normas tradicionais inseridas em suas narrativas (a partir dali, em prosa ficcional), exemplos de vida comunitária, apesar das inegáveis mudanças históricas ocorridas naquele momento. Tais personagens ― com suas vidas desajustadas, graças ao“novo” momento da humanidade (Era Moderna já em andamento) ― em busca de valores que os tornassem heróicos, à moda heróica da antiguidade e do medievo, mas, historicamente, impossível de ser readquirida (uma busca de ajuste em um novo mundo que já estava a promover o desequilíbrio social).

Mesmo com o “recente” vigorando, aqueles “novos” narradores modernos continuavam irremediavelmente buscando a “perfeição” das antigas normas guerreiras e míticas do passado. A grande vantagem, ou seja, o sucesso desse gênero narrativo, enquanto gênero diferenciado, deveu-se às exigências sociais da História da Civilização Ocidental, as quais (naquele momento crucial de uma nova Era) impediam a retomada de “heróis à moda antiga”, reconhecidamente comunitários, em uma sociedade na qual, a partir dali, imperariam apenas as leis individualistas de um mundo já repleto de impurezas (o personagem antigo e o seu mundo circundante eram naturalmente puros). Por conseqüência, instalavam-se as prerrogativas das narrativas ficcionais em prosa, reprodutoras de realidades possíveis (camadas superpostas), e, ao mesmo tempo, e contraditoriamente, apresentando narradores-principiantes de uma novíssima modalidade genérica, o Gênero Narrativo Ficcional (prosa ficcional), registrado graficamente, no início do século XVII, por Miguel de Cervantes (1602), gênero este reconhecido pelos exigentes teórico-críticos pós-modernos, submetidos atualmente à Ciência da Literatura, como Fenômeno da Era Moderna.

sábado, 12 de dezembro de 2009

ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 5

NEUZA MACHADO


ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 5

NEUZA MACHADO



E, uma vez que me refiro a Walter Benjamim, faz-se necessário explicar que ele repensou sociologicamente e historicamente os narradores ficcionais da Era Moderna, percebendo-os como narradores (prosadores) saudosistas de um passado de glórias mítico-sociais (mesmo que, assim, não seja visível, ao longo de seu texto, escrito antes do término dos anos quarenta). Por intermédio de Benjamim, e de outros pensadores das dimensões sociais, diversificadas, da individualista sociedade moderna, pude observar que os narradores ficcionais modernos (continuo insistindo, da Era Moderna até ao final do século XIX), independentes das diversas orientações estético-ficcionais do período (barroco, romantismo, realismo-naturalismo-impressionismo), se posicionaram como continuadores-saudosistas das normas comunitárias das Eras Antiga e Medieval, anteriores à Moderna (no plano da camada linear e visível, enquanto exigências de normas narrativas). A diferença (e eu me obrigo sempre a uma explicação) está no fato de que os narradores da modernidade (das estéticas assinaladas, a iniciar por Cervantes) descobriram o poder das camadas ocultas, verticais (a partir do iniciante gênero, além da novidade da narrativa vertical em prosa, ao invés dos costumeiros versos narrativos do discurso épico), em confronto com os condicionamentos das ideologias repressivas, individualistas, que já se avizinhavam. Entretanto, é importante esclarecer, não me refiro ao narrador renascentista das narrativas em versos (não há dúvida, narrador também moderno historicamente), pois o mesmo não conheceu o gênero narrativo ficcional, posteriormente, criado e desenvolvido pelo espanhol Miguel de Cervantes. Luís de Camões, que escreveu submetido gloriosamente a todos os gêneros distinguidos no século XVI, não logrou conhecer, historicamente, a forma moderna do Gênero Narrativo Ficcional.

Faz-se necessário, também, não confundir o gênero narrativo ficcional com as novelas/romances de cavalaria medievais, escritas em versos e com personagens puros ─ narrativa épica medieval ─, enfraquecidas esteticamente, com o passar dos anos, porque foram adaptadas, em forma de prosa, para o gosto dos ávidos leitores burgueses do século XVI e seguintes. Por esse ângulo, aqueles “novos” narradores da prosa moderna (atentar-se para o narrador do Quixote e os narradores da estética ficcional romântica), se posicionaram desiludidos ante a perda da pura heroicidade guerreira ─ própria dos destacados personagens das epopéias em versos anteriores ─, tornaram-se, por intermédio da realidade histórica que os envolvia, personagens desajustados, desequilibrados, buscando novos rumos gloriosos em um mundo disparatado, onde o progresso era a força maior. Entretanto, e mesmo assim, os “estreantes” ficcionistas de então (repito, o primeiro foi Cervantes) iniciaram a “nova” modalidade genérica ancorados firmemente em seus imaginários-em-aberto particulares, pois intuíram que seus personagens, obtidos da realidade sócio-cultural que os envolvia, apesar da fama obtida com o aparecimento daquela “recente” forma ficcional em prosa (repito: prosa diferente das “prosas palacianas” anteriores), deveriam permanecer cultuando a heroicidade do passado, e mereciam ser reanimados pelos narradores-pioneiros daquele momento, apresentando aos leitores apenas personagens mais destacados, com nomes, sobrenomes, etc. (mesmo que fossem problematizados ao longo das narrativas do período).

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 4

NEUZA MACHADO


ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 4

NEUZA MACHADO


Contudo, para referir-me ao incomum texto narrativo de Rogel Samuel, o nomeei, no início destas linhas preliminares, como Ficção Pós-Moderna (historicamente) e como Pós-Modernista (esteticamente). Pós-Moderna porque se insere em uma nova era, posterior à Era Moderna (aquela que teve o seu início, na Europa, lá pelos meados do século XV, com o advento do Humanismo Renascentista). Pós-Moderno seria o nome que se convencionou chamar ao Momento Histórico, depois da cisão que se estabeleceu no mundo pós-capitalista, com a retomada de valores comunitários (valores comunitários de pequenos grupos, e de uma maneira diferente dos valores comunitários da Idade Média, entretanto, não deixará de ser uma retomada). Pós-Modernista (insisto em diferenciar) porque se instaura a partir de uma cisão com a estética chamada Modernista, implantada no Mundo e no Brasil a partir dos anos iniciais (anos bélicos) do século XX.

Conseqüentemente, vejo-me induzida a novamente explicar as diferenças entre estética modernista (seja de que geração for) e estética pós-modernista, principalmente no que se refira à ficção (computo duas gerações pós-modernistas até ao momento): há diferenças marcantes entre ficção modernista e ficção pós-modernista. Na ficção modernista da última fase (creditada como terceira, a partir dos anos quarenta do século XX, mas avaliada aqui como estética de transição para o pós-modernismo da Primeira Fase), há presença do indivíduo-criador a guiar os leitores até “aos vagos clarões do espírito”
, quando repenso aqui o direcionamento filosófico especialíssimo de Gaston Bachelard. São os últimos modernistas (da transição dos anos quarenta ao início dos anos sessenta) escritores epifânicos: João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, entre outros. Esses ficcionistas privilegiados alcançaram o direito de ultrapassagem dos dois cogitos aceitos como normais ou sociais (um: linear; e dois: dialético) e de conviverem com o terceiro cogito do pensamento individual (“consciência singular”, pelo ponto de vista bachelardiano). Estou a referir-me apenas aos escritores dos anos quarenta ao início dos anos sessenta do século XX, já assinalados como ficcionistas ímpares, distanciados das exigências moralistas próprias dos anteriores narradores ficcionais da Era Moderna (desde o início do Gênero Narrativo Ficcional como fenômeno da Era Moderna, ou seja, do início do século XVII até ao final do século XIX). Aqueles (os ficcionistas do século XVII ao século XIX) iniciavam seus escritos ficcionais com uma fórmula já elaborada, com princípio, meio e fim, já com regras pré-concebidas, impositivas, de normas e exemplos de vida comunitária, à moda da anterior Era Medieval, se me obrigo a repensar livremente as palavras de Walter Benjamim (O Narrador) sobre o narrador ficcional (o narrador exemplar) do início da Era Moderna. Tais reflexões saem, também, de outras fontes do meu próprio cabedal de conhecimento, uma vez que faço parte, irrestritamente, desta engrenagem sócio-cultural pós-moderna interativa. Entretanto, há, aqui, neste meu patrimônio intelectual intercambiável, uma vigorosa ligação teórico-reflexiva, embora aqui já entretecida e reformulada, com o ainda importante ensaio de Walter Benjamim.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 3

NEUZA MACHADO



ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 3

NEUZA MACHADO


[A literatura] “é algo vivo e o romance, desde que existe, sempre foi novo. Como poderia o estilo do romance ter permanecido imóvel, fixo, quando tudo evoluía ao seu redor ─ bem rapidamente, na verdade ─ no decorrer dos últimos cento e cinqüenta anos?” (Alain Robbe-Grillet)

Por meu ponto de vista teórico-crítico, acrescido de conhecimento intelectual interativo, adquirido a partir do contato permanente com os textos técnicos e/ou artísticos, ponto de vista que não se deixa influenciar por teóricos e/ou críticos de plantão, posso dizer que a ficção pós-moderna/pós-modernista de Rogel Samuel irá “incomodar” (retirar da comodidade, induzir a pensamentos dialetizados) o leitor-intérprete de momentos históricos posteriores. Os leitores do futuro irão repensar cada palavra, cada pensamento do autor, e principalmente irão reconsiderar a problemática de um Estado Federativo do Brasil, o Amazonas, um lugar que deveria ser de pura maravilha, mas que se encontra atualmente maculado por alguns interesses internacionais que não se coadunam com os muitos interesses nacionais de preservação do meio-ambiente (interesses de preservação que desfavorecem uma rica minoria de brasileiros e estrangeiros exploradores). E isto tudo, se houver, no futuro, um lugar chamado Amazonas. Se houver, no futuro, um país chamado Brasil, e se entendermos que, no momento, aqui, uma parte dos habitantes ─ grupo pequeno, mas que se posiciona como poderoso ─ se esmera em prol de seu desaparecimento no vasto telão simulacrado do Mapa Mundi.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 2

NEUZA MACHADO


ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 2

NEUZA MACHADO



Esta propedêutica, objetivando espelhar a posição do crítico literário atual, se fez/faz-se necessária, porque a enxergo apontada em minha direção, uma vez que, para interagir com a diferenciada obra ficcional de Rogel Samuel, respeitante ao espaço geográfico do Amazonas ─ social e mítico ─, lugar pouco conhecido à minha própria percepção intelectiva, movi-me, inicialmente, em busca das estimáveis explicações do próprio escritor, acauteladas nas diversas entrevistas por ele permitidas aos jornalistas-internautas.

Por intermédio das Entrevistas, Rogel Samuel ofereceu, aos leitores de seu romance, encaminhamentos seguros sobre a natureza de sua criatividade ficcional a qual reputo como autenticamente Pós-Moderna/Pós-Modernista de Segunda Geração. Autêntica, porque há no momento inautênticos autores que se fazem passar por ficcionistas pós-modernos, mas que são, em verdade, escritores-mercadores de uma literatura de massa sem nenhum crédito no âmbito da Arte Literária. Apenas foram conceituados pela mídia enganosa deste momento sócio-intelectual como bons escritores, para visarem ao lucro em detrimento da qualidade de um texto. O romance de Rogel Samuel, pelo exame teórico-interpretativo-reflexivo, ultrapassa tais exigências comerciais, pelo fato de ser uma narrativa de alto nível criativo e se inserir no que qualifico como peculiar obra pós-moderna.

E eis que imediatamente surge a pergunta (por conjetura, talvez, um dos motivos de aborrecimento de Robbe-Grillet nos anos cinqüenta, quando se revoltava contra as interferências críticas de seu momento): Como classificar um texto ficcional como autenticamente criativo e pós-moderno/pós-modernista de Segunda Geração, se o mesmo ainda não passou pelo crivo do tempo? O texto já não seria normalmente pós-moderno, uma vez que seu autor é nato de uma atualíssima dinâmica social já conceituada como pós-moderna, ou seja, é um indivíduo provindo de uma era específica denominada como Era Pós-Moderna? Outras interferências, já exaustivamente dialetizadas criticamente, poderiam aparecer, no intuito de desqualificar as minhas inferências teórico-críticas reflexivas, uma vez que o mundo, no século XX, se dilatou, e os pseudos críticos, promotores da mass media, abraçados a uma causa imperialista voltada para o consumo literário imediato, evidentemente ligado ao lucro, se fortaleceram, contaminando os leitores emocionais com a chamada literatura de massa (a maior parte vergonhosamente sem qualidade, inclusive sem qualidade paraliterária). Então, como classificar um texto narrativo em prosa, escrito nos anos finais do século XX, como autêntica ficção pós-moderna? Como classificar uma ficção paradigmática, que, certamente, irá “incomodar” aos leitores do futuro, obrigando-os a repensarem suas próprias dinâmicas existenciais, "incômodo" este que, não tenho dúvida, se revelará a partir de um romance diferenciado (e o romance O Amante das Amazonas é diferenciado) escrito nos anos finais do século XX, muito antes de seus nascimentos (dos leitores do futuro, evidentemente).

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 1

NEUZA MACHADO


ESPLENDOR E DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - SOBRE O AMANTE DAS AMAZONAS DE ROGEL SAMUEL - 1

NEUZA MACHADO



O Amante das Amazonas: Ficção Pós-Moderna/Pós-Modernista de Segunda Geração

“É evidente que, em relação às obras, as idéias permanecem sempre breves, e que nada pode substituir as primeiras. Um romance que não fosse mais do que o exemplo de gramática que ilustra uma regra ─ ainda que acompanhada de sua exceção ─ seria naturalmente inútil: bastaria o enunciado da regra. Exigindo para o escritor o direito à inteligência de sua criação, e insistindo sobre o interesse que a consciência de sua própria pesquisa representa para ele mesmo, sabemos que é sobretudo ao nível do estilo que esta pesquisa se realiza, e que no instante da decisão nada está claro. Assim, após ter indisposto os críticos ao falar da literatura com a qual sonha, o romancista se sente repentinamente desarmado quando esses mesmos críticos lhe pedem: “Explique-nos portanto por que você escreveu esse livro, o que significa, o que você pretendia fazer, com que intenção você empregou esta palavra, por que construiu esta frase desse modo?”

“Diante de semelhantes perguntas, seria possível dizer que sua “inteligência” não lhe serve para mais nada. O que ele quis fazer foi apenas aquele livro mesmo. Isto não quer dizer que ele está sempre satisfeito com esse livro; mas a obra continua a ser, em todos os casos, a melhor e a única expressão possível de seu projeto. Se o escritor tivesse tido a faculdade de dar uma definição mais simples de seu projeto, ou de reduzir suas duzentas ou trezentas páginas a uma mensagem em linguagem clara, de explicar o funcionamento de seu projeto palavra por palavra, em suma, de dar a razão de seu projeto, não teria sentido a necessidade de escrever o livro. Pois a função da arte não é nunca a de ilustrar uma verdade ─ ou mesmo uma interrogação ─ antecipadamente conhecida, mas sim trazer para a luz do dia certas interrogações (...) que ainda não se conhecem nem a si mesmas.”


Com estas palavras de Alain Robbe-Grillet, sobre o novo romance (não apenas francês), o fenômeno literário que marcou o globalizado e caótico século XX (o século que propiciou a difícil transição histórica da modernidade para a pós-modernidade), palavras estas escritas no final da década de cinqüenta, exprimo o meu empenho de dialogar reflexivamente com a obra de Rogel Samuel denominada O Amante das Amazonas
(publicada em segunda edição, em 2005, pela editora Itatiaia de Belo Horizonte). Recupero as asserções de Robbe-Grillet sobre o narrador do século XX (neste momento interativo da crítica literária no Brasil, e neste início de século XXI), porque medito sempre o enigma criador do ficcionista do todo do século passado, independente de sua localização de nascimento, e percebo que as “inovações” ficcionais, daquele momento, continuam hoje sob “renovadas” roupagens, e as questões teórico-críticas (que enlaçam o escritor ficcional), levantadas por Robbe-Grillet, continuam ainda a fazer parte da realidade sócio-intelectual do crítico literário brasileiro. Retomo o assunto, porque, nestes tempos pós-modernos, tempos globalizados, o escritor (seja de qualquer nacionalidade, poeta ou ficcionista ou dramaturgo ou outro direcionamento literário) se coloca na obrigação de explicar a sua criatividade à chamada imprensa cultural dominante. É matéria verdadeira que somente algumas questões visíveis são questionadas, porque as invisíveis vão estar resguardadas no plano particular do autêntico texto-obra, a exigir que o leitor-especulador do momento histórico de sua publicação, ou de épocas futuras, as venha examinar. Sem o aval das explicações exigidas (uma vez que os textos ficcionais da pós-modernidade são de difícil entendimento), o escritor dos dias de hoje não se contempla reconhecido pela mass media como criador literário, perdendo por tal desvalimento a oportunidade de ser lido, o que, convenhamos, é o anseio normal de quem escreve.