CECÍLIA MEIRELES E SEU “ROMANCEIRO” PÓS-MODERNO: ROMANCE XLVIII OU DO JOGO DAS CARTAS
NEUZA MACHADO

É bem verdade que os versos do entrecho poético do Romanceiro de Cecília Meireles, escolhidos para a postagem de hoje, referem-se ao momento histórico da Inconfidência Mineira (final do século XVIII), mas, refletidos pelas lentes desses meus óculos tão cansados, vocês, meu Leitores queridos, sentirão como se somente oito dias, e não oitenta mil dias, tivessem se passado.
Este poema é para a reflexão dos corajosos Internautas de meu blog, aqueles que ainda não se deixaram dominar pelas cartas marcadas do jogo da vida.
ROMANCE XLVIII OU DO JOGO DE CARTAS
Cecília Meireles
Grandes jogos são jogados
entre a terra e o firmamento:
longas partidas sombrias,
por anos, meses e dias,
independentes do tempo...
Soldados e marinheiros,
camponeses e fidalgos,
ministros, gente da Igreja,
não há mais ninguém que esteja
fora dos vastos baralhos.
Batem as cartas na mesa,
na curva mesa da terra.
Partida sobre partida,
perde-se renome ou vida:
mas a perdição é certa.
Lá vêm corações em sangue,
lá vem tenebrosos chuços:
defrontam-se outros e espadas,
saltam coroas quebradas,
morrem culpados e justos.
Batem as cartas na mesa...
Cruzam-se os naipes e pontos:
não se avista quem baralha
esta confusa batalha
de enigmas, quedas e assombros.
Grandes jogos são jogados.
E os silenciosos parceiros
não sabem, a cada lance,
que o jogo, fora de alcance,
pertence a dedos alheios.
Mesas de Queluz cobertas
de ouros, paus, espadas, copas...
(Minas, sangue, sofrimento...)
No baralho bate o vento
e o jogo segue outras voltas.
MEIRELES, Cecília. O Romanceiro da Inconfidência. 13. ed., rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989: 171 - 172.
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